<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516</id><updated>2011-07-08T00:21:01.496+01:00</updated><title type='text'>Arquivo Mortos</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://arquivomortos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>34</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-5531690591692774466</id><published>2010-08-24T00:30:00.003+01:00</published><updated>2010-08-24T00:34:30.486+01:00</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (18)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Velas benzidas&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era agradável estar a ler ao jantar quando a luz falhava. Reuníamo-nos doze numa mesa que mal dava para seis, mas eu de algum modo conseguia espaço para pousar o livro ao lado do prato. Não sermos obrigados a utilizar os dois talheres ajudava.&lt;br /&gt;Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do &lt;em&gt;blackout&lt;/em&gt;. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.&lt;br /&gt;Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.&lt;br /&gt;Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.&lt;br /&gt;Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.&lt;br /&gt;Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.&lt;br /&gt;Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes da luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.&lt;br /&gt;Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: &lt;em&gt;o que os olhos não vêem o coração não sente&lt;/em&gt;. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.&lt;br /&gt;A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.&lt;br /&gt;Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao &lt;em&gt;stock&lt;/em&gt; de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, &lt;em&gt;O Clã do Fogo&lt;/em&gt;. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.&lt;br /&gt;Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.&lt;br /&gt;Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.&lt;br /&gt;A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-5531690591692774466?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/5531690591692774466'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/5531690591692774466'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/08/alteracoes-climatericas-18.html' title='Alterações climatéricas (18)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-2815042814561280262</id><published>2010-08-04T01:42:00.002+01:00</published><updated>2010-08-04T01:44:52.543+01:00</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (17)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Fazer horas&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nove horas, e eu não me estava a sentir nada bem. O Inverno tinha terminado e agora entrava aquela parte do ano em que de boa vontade me entregaria a um processo criogénico que me mantivesse afastado do mundo até ao Outono. Mas, infelizmente, métodos de conservação a frio que se aplicassem a humanos (vivos) eram ainda pura invenção de filmes, tanto quanto eu sabia.&lt;br /&gt;Acontece que aquela noite estava a ser particularmente cálida (o aquecimento global, esse, já tinha sido inventado e vigorava). Nos meses anteriores descuidara-me com o ginásio mas, em compensação, dedicara atenção ininterrupta à comida, pelo que tecnicamente me enquadrava na classe dos gordos sebosos, aquela espécie de pessoas que aparentemente se desfaz em água quando os termómetros sobem, mas que na verdade sai intacta das saunas.&lt;br /&gt;A maior parte das vezes, nas ocasiões em que por certa razão me faltava a coragem de ir para casa, enfiava-me em restaurantes ou cinemas climatizados. Em alternativa dava voltas no carro — com o ar condicionado ligado. Se fosse tarde, ia até a um bar ou a um cabaret com ambiente controlado. Por ambiente aqui refiro-me ainda à temperatura, não me interessava quem estava ou deixava de estar.&lt;br /&gt;Mas eram nove horas e não havia nada perto, nada que eu conhecesse ou em cuja vitrina se lessem as palavras-chave: ar condicionado. Talvez eu pareça um bocadinho obcecado por estas duas palavras, um tarado do controle climatérico, mas se estivessem na minha pele, ou antes, sob a espessa camada adiposa que me reveste e causa inveja às focas, perceber-me-iam.&lt;br /&gt;Encontrava-me à beira do desespero, caso contrário jamais teriam entrado num lugar daqueles: um edifício de arquitectura fascista com um átrio demasiado iluminado e não suficientemente fresco. Tentei sossegar-me observando os cartazes, como se me interessasse saber o que prometia o fim de temporada. Mas o suor continuava a escorrer e confesso que ali me senti um tudo-nada menos à-vontade para suar.&lt;br /&gt;Às nove e cinco as portas do auditório abriram-se, exibindo uma penumbra auspiciosa. Foi como se alguém me empurrasse: num ápice tinha comprado o meu bilhete e localizado o lugar correspondente, adiantando-me à simpatia do assistente de sala. Deixei-me cair aliviado no assento H11.&lt;br /&gt;Durante um bom pedaço fui o único ali dentro. Estavam uns agradáveis vinte graus e a música ambiente não era pretensiosa. Pude finalmente respirar. Do átrio vinha o distante arengar de uma pequena multidão de connesseurs. Ainda demorariam alguns minutos a invadir o espaço onde eu me encontrava. Que, em todo o rigor, era mais deles do que meu.&lt;br /&gt;Já não precisava de abanar o programa à frente da cara — achava-me menos febril e começava a relaxar —, pelo que me permiti passar os olhos pelas páginas. Não ignorava que ia subir qualquer coisa ao palco (afinal, estava num teatro) e pensei que me poderia distrair antecipando o que ia ser representado.&lt;br /&gt;Apostava numa comédia, uma daquelas que apesar de tudo deixam os espectadores em paz na sua cadeira (se é que havia espectáculos desse género). Seria simpático que o destino, por uma vez, me concedesse dois desejos na mesma noite: ar fresco e descontracção.&lt;br /&gt;Sem surpresas, descobri nas primeiras linhas (no próprio título: “Nada além do silêncio”) que estava a pedir demais. Não era uma comédia o que ia ali acontecer, mas uma peça que convidava o espectador à mudez total, exigia concentração absoluta.&lt;br /&gt;Estava disposto a tentar. Não porque me tivesse despertado qualquer interesse o espectáculo, mas porque não tinha escolha. Tão cedo não poderia entrar em casa e lá fora estava demasiado quente para andar à procura de alternativas refrescantes.&lt;br /&gt;Para meu espanto (e desconforto), a tribo ruidosa que preenchera o foyer viria a revelar-se afinal duma disciplina férrea no que tocava a obedecer ao guião e manter-se silenciosa. Descobri, por isso, nos minutos seguintes, que o meu corpo tinha uma incrível capacidade de produzir barulhos. Desde os tempos em que na adolescência me forçavam a assistir à missa que não dedicara tal atenção às entranhas.&lt;br /&gt;Não era a cadeira a ranger de cada vez que me mexia, nem o roçagar das roupas enquanto cruzava e descruzava as pernas, cruzava e descruzava os braços, ajeitava o traseiro na cadeira. Era o corpo em si mesmo, as articulações, o estômago, os pulmões, o pâncreas, os intestinos. No caso deste último órgão importa esclarecer que não me refiro às suas manifestações mais embaraçosas, embora me tivesse dado conta da pior maneira como o silêncio dos outros pode ser estimulante neste domínio.&lt;br /&gt;O próprio coração se tornava inconveniente, batendo como martelo em bigorna. Sentia alguma ansiedade, não escondo, agravada pelo desejo de não ser naquela sala um elemento destoante. Eu era, sobretudo naquela noite, um candidato privilegiado a síncopes, arritmias e outras maleitas do músculo cardíaco, mas jamais imaginei que uma coisa tão do nosso íntimo pudesse ressoar de tal forma e denunciar, como que ao telégrafo, a nossa miserável forma física. Se estivesse ali instalada uma daquelas máquinas dos cuidados intensivos, com o gráfico dos sinais vitais e o bip correspondente, ninguém ficaria mais informado da minha condição. Particularmente aqueles que, ao meu lado, de início confundiram o meu ritmo cardíaco com as pancadas de Molière.&lt;br /&gt;Uma das coisas que a vida das grandes cidades tem de positivo é que, por exemplo, quase sempre nos podemos peidar sem escrúpulos. Há demasiado ruído a envolver as pessoas, demasiados candidatos a culpados. Também não é pelos odores que alguém se trai: o tempo que demora a identificar uma fonte específica no meio de tantas emanações permite que o indivíduo saia airosamente do local do impacto. E é assim com outros aspectos da fisiologia. A civilização é possível apenas nas cidades porque só elas providenciam a camuflagem e a diluição necessárias à nossa biologia animal.&lt;br /&gt;Mas com o que ninguém conta (eu não contava) é com uma sala insonorizada, uma assistência silenciosa e os caminhos de fuga obstruídos. Ao fim de algum tempo a reflectir sobre estas coisas (ainda não me conseguira concentrar na peça), dei por mim a suar novamente, apesar do bom funcionamento do chiller da casa. Todo eu, mesmo no estádio mais apático da existência, era uma fonte de ruído com tendência para uma progressão aritmética dos decibéis. Ali, por Deus, dei-me conta que nunca sentira tanta necessidade de produzir colateralmente barulhos: era a garganta seca a precisar com urgência de ser aclarada, era um engarrafamento numa das dobras do intestino a pedir que se abrisse ao trânsito alguma via alternativa, eram as fossas nasais que pareciam acometidas de súbita alergia ao próprio oxigénio que respirava, o pâncreas a borbulhar, a bílis do fígado a ser expelida como spray das moscas ou cerveja de pressão, os pulmões a bufar como foles de forja, os sucos gástricos em ebulição… Toda a mecânica do meu corpo estava sob escuta de um gigantesco estetoscópio que pendia sobre mim e se ligava à aparelhagem sonora do auditório. Creio que não preciso de insistir que sentia um ligeiro mal-estar.&lt;br /&gt;À minha direita na fila havia dez pessoas, à esquerda uma dúzia. Tinha-me sido perguntado se preferia «um lugar junto à coxia», mas, idiota, recusei, porque não me ocorreu logo o significado da palavra (se era tão mau como soava, eu queria ficar longe). «Não, pelo contrário», respondi à menina dos bilhetes, a pensar absurdamente em cocheira e lições de equitação, crinas entrançadas e entremeadas de bosta&lt;br /&gt;Medi discretamente os dez espectadores da direita, tentando não parecer desesperado nem distraído da concentração que nos era pedida. Os primeiros cinco eram obstáculo que até eu podia vencer, com mais ou menos pedidos de perdão, mas a partir daí as coisas complicavam-se: um casal volumoso e um par de muletas encostadas ao assento da frente. Mesmo que tivesse tomado suficiente balanço, havia o risco de ficar entalado no H5 ou no H4. E, se acaso lograsse prosseguir, dificilmente teria os reflexos necessários para segurar as canadianas do H3 antes de caírem ao chão com estardalhaço.&lt;br /&gt;Resolvi ficar. Talvez concentrando-me no palco conseguisse estabilizar os meus sinais vitais em valores suportáveis pelos restantes espectadores. Na verdade, ainda não houvera demonstrações de desagrado nem olhares piedosos. Ainda não atingira um estado lastimoso (embora me sentisse assim). O espectáculo começara há quinze minutos.&lt;br /&gt;Distribuídos pela cena como num tabuleiro de xadrez, os actores pugnavam pela exacta imobilidade das peças de marfim ou madeira que evocavam. Distinguiam-se daquelas pelos movimentos dos queixos quando falavam, o que, em benefício da imitação, acontecia raramente. Olhá-los deu-me o sono.&lt;br /&gt;De imediato outra campainha soou na minha cabeça: podia acontecer-me tudo menos adormecer. Não por mim, eu agradeceria um sono reparador, mas pelos circunstantes. Apesar de não estar a ter uma boa noite, ainda palpitava no meu peito um sentimento de solidariedade. Devia evitar a todo o custo ressonar.&lt;br /&gt;As coisas tinham ficado mais graves. Precisava agora de me distrair do meu corpo e do palco. Mudar com frequência o peso de uma nádega para a outra não era suficiente. Tive saudades das salas de cinema multiplex, com as suas pipocas e coca-colas, concebidas para oferecer alternativas ao que se passava na tela e no nosso interior.&lt;br /&gt;Levei a mão ao bolso para tirar o telemóvel e ver as horas. Ajudaria saber que caminhávamos a passos rápidos para a recta final do drama — tanto quanto seria fatal descobrir que o desenlace ainda tardaria. Com este receio, e lembrando-me a tempo da exuberante fonte de luz que era o ecrã do meu aparelho e do efeito que causaria naquela sala obscurecida, detive-me. Descobri, no entanto, com felicidade, que entre os objectos que guardava no bolso havia um caramelo. Era o meu deus ex-machina, a atenuante inesperada para o nervosismo.&lt;br /&gt;Tirei-o com dois dedos, num momento em que começava a arfar, e preparei-me para o desembrulhar no colo. Era conhecedor dos perigos daquele acto, sabia que tinha de realizar a tarefa com a maior delicadeza se pretendia manter as atenções longe de mim. Pensei naquilo como uma terapia ocupacional, a receita antiga para espíritos inquietos. E se o meu espírito estava inquieto!&lt;br /&gt;Contudo, mal toquei no papel, percebi que cometia um erro. Aquilo ia arrastar-se por tempos infindos. A paciência dos que me rodeavam e a minha seriam ofendidas. Não é possível desembrulhar um caramelo num teatro sem provocar um pequeno colapso nervoso numa plateia atenta. A forma rápida ainda é a melhor, mas indigna as pessoas em volta porque parece revelar um à-vontade desaforado e um total desprezo pela peça. Se escolhermos a maneira vagarosa, a do temor e do respeito, concedemos a todos uma tortura lenta, como se fervêssemos em lume brando uma vingança remota.&lt;br /&gt;Infelizmente, estava incapaz de me deter. Depois de descolar a primeira ponta do papel, fazendo levantar as primeiras sobrancelhas e atraindo os primeiros olhares censórios, não haveria retorno. Devolver o caramelo ao bolso seria um gesto igualmente ruidoso, agravado psicologicamente pela inerente sensação de derrota. Mantê-lo nas mãos sem qualquer avanço era como uma condenação a morrer à sede dentro de um rio. Restava continuar.&lt;br /&gt;O encenador não encomendara uma sonoplastia para a peça e incumbira os actores de sussurrarem as deixas. Talvez por isso, surpreendentemente, o meu caramelo de início não soou aos ouvidos dos restantes como um caramelo, mas como algo sobrenatural, um ruído do além que vinha dos calabouços do edifício e preenchia todos os interstícios da sala. Era como se criaturas moles e dengosas se arrastassem pelos soalhos a livrar-se de uma pele escamosa ressequida. Percebi em volta as expressões interrogativas, que se prolongaram por bastante tempo, e a certa altura eu próprio vivi o ruído como se ele não procedesse das minhas mãos, mas fosse parte integrante da (in)acção no palco.&lt;br /&gt;Depois a fonte do ruído foi perfeitamente identificada e, quando o último milímetro quadrado de papel se descolou da massa castanha entretanto derretida, eu estava a segundos de ser linchado com a minha própria gravata por aquela gente sofisticada e cortês.&lt;br /&gt;De qualquer modo, eram onze e meia. A esta hora o assassino da minha mulher teria de certeza acabado o serviço e eu poderia finalmente regressar a casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou:&lt;br /&gt;De qualquer modo, eram onze e meia. A esta hora a minha sogra teria de certeza ido embora e eu poderia finalmente regressar a casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou:&lt;br /&gt;De qualquer modo, eram onze e meia. A esta hora o amante da minha mulher teria de certeza ido embora e eu poderia finalmente regressar a casa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-2815042814561280262?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2815042814561280262'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2815042814561280262'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/08/alteracoes-climatericas-17.html' title='Alterações climatéricas (17)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-2085201732912062460</id><published>2010-07-23T01:46:00.003+01:00</published><updated>2010-07-23T02:13:00.856+01:00</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (16)</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;À espera do &lt;span style="font-style: italic;"&gt;dealer&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ali estão eles, mais uma vez. Chegam numa pressa patética, como se fossem as pessoas mais ocupadas do mundo, e depois sentam-se nos bancos da rua, impacientes mas apáticos. De vez em quando, um deles levanta-se e sai novamente disparado, a oscilar muito os braços, como se se tivesse lembrado de uma coisa importantíssima que tivesse deixado por fazer. Mas regressa, e volta a imobilizar-se num dos bancos, ou numa esquina qualquer da rua.&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;Não olham para nada em particular. Estão apenas ali, à espera, com as suas carinhas grotescas, uma trupe de circo de horrores. Parecem predestinados para o vício. Há algo de feio neles que é anterior às porcarias que metem no organismo. Talvez a droga prefira gente assim.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;Outros, certamente, ficam ainda mais desfigurados por andarem naquilo. Enruga-se-lhes a pele, ganham bexigas ou crostas, caem-lhes os dentes, tornam-se corcundas ou defeituosos dos membros. Uma espécie de leprosos, mas destes nem Cristo se apiedaria.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;É a hora do almoço e ele está a observá-los da janela do primeiro andar. A rua é pedonal e tem umas arvorezinhas que dá gosto ver. Mas também atrai a escória da sociedade e não é fácil ignorar o que se passa lá &lt;st1:personname productid="em baixo. Como" st="on"&gt;em baixo. Como&lt;/st1:personname&gt; aquela prostituta velha, que atravessa por ali para chegar ao seu posto de ataque. E para regressar a casa. Ah, como ele gostaria de almoçar um dia desfrutando apenas dos jacarandás em flor.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;O tempo ameaça trovoada (quase se sente a electricidade) e ele pergunta-se quais serão os requisitos para um dilúvio. Deus já lavou a terra uma vez à força de muito chover, porque não repetir o feito? Para o caso que o incomoda, não seria preciso um caudal bíblico — uma forte monção estaria bem. Chuva a cântaros em cima daquela gentalha durante uns dez minutos e a rua ficaria desimpedida o tempo suficiente para ele acabar de almoçar à janela sem ter de assistir às misérias do mundo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;Mas no fundo sabe que isso não acontecerá. Tem sido assim a semana inteira, a ameaça pendente, anunciada na televisão, mas nunca concretizada de um dilúvio purificador. Os drogados à espera do &lt;i style=""&gt;dealer&lt;/i&gt;, que mais tarde ou mais cedo aparece. A prostituta no seu vaivém. Ele esperançado num gesto divino. E a tarde entrando afinal solarenga, zombeteira. Dá vontade de praguejar.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;Lá vem ela, a puta velha. E os anormais a olhar. Já não têm forças para uns piropos — o que seria o mínimo de esperar de gente da sua laia. A verdade é que também não têm dinheiro para a mulher (vai todo para o vício) — nem para aquele destroço têm dinheiro. E se tivessem faltar-lhes-ia o vigor, não seriam homens suficientes, com o organismo todo corroído e as partes mirradas. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;Olá, agora vêm as adolescentes, as putinhas do bairro. Estas, meus amigos, não são para os vossos dentes, nem &lt;st1:personname productid="em sonhos. T￣o" st="on"&gt;em  sonhos. Tão&lt;/st1:personname&gt; puras que elas parecem, tão virginais. Bem, na verdade não parecem nada disso e no que a ele concerne deixava-as ir no dilúvio junto com os outros todos. O bairro inteiro está precisado de uma purga e ele não vê razão nenhuma para deixar estas meninas de fora. Talvez haja, pelo contrário, razões maiores para eliminar aquela fonte de pecado. Sim, se tiver de ser cem por cento honesto, aquele grupinho tem feito mais pela perdição da sua alma do que os &lt;i style=""&gt;junkies&lt;/i&gt; e as putas adultas todos juntos. Oh, Deus, como tem ele lutado por vencer a tentação. E como tem sido derrotado nessa luta.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;(Ainda assim, agradece todos os dias fervorosamente estar livre do vício de outros, daqueles que não resistem aos rapazinhos.)&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;Resolve atacar a sobremesa antes que venha de novo o impulso onanista, que tanto o tem consumido física e espiritualmente. Enquanto come a tarte de morangos, segurando talheres em ambas as mãos para as ter ocupadas, reza, reza furiosamente. Quer invocar Deus, fazê-lo presente, mais presente do que o peões do Demo que desfilam debaixo da sua janela, mais presente do que o tem sentido nos últimos tempos, ou do que alguma vez o sentiu. Mastiga com voracidade e pronuncia as palavras sagradas de boca cheia, abana o torso para a frente e para trás como um judeu. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;Talvez não lhe tenham ensinado as fórmulas correctas. Ainda ontem viu um filme que o surpreendeu ao mostrar-lhe um ritual muçulmano diferente, uma forma de rodopiar sobre si próprio até ao êxtase, como em certas danças tradicionais. Talvez a culpa não seja dele, mas dos rituais católicos, que carecem de misticismo e eficácia. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;De qualquer modo, são horas de ir embora. O tempo para o almoço já passou e os deveres não podem ser adiados. Era bom que a chuva viesse de uma vez e lavasse a rua e com isso a sua alma. Mas tudo indica que não vai ser hoje, a meteorologia terá de engolir outro sapo, o quinto da semana. Prova de que também a ciência falha.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;Deixa os pratos na mesa, vai à casa de banho, recolhe no escritório aquilo que precisa para as ocupações da tarde e desce as escadas. Quando abre a porta da rua, a chuva cai, quando já não a esperava, com intensidade tropical, e ele pragueja. Que raio de &lt;i style=""&gt;timing&lt;/i&gt;. Já não poderá desfrutar da debandada da escumalha.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;Estica o pescoço para a rua para tentar ver as corridinhas irritadas da triste fauna do bairro, mas nenhum dos drogados se mexe. Estão firmes nos bancos, como se a hora de espera fosse para cumprir com a mesma apatia de sempre. A vontade dos céus é-lhes indiferente. O &lt;i style=""&gt;dealer&lt;/i&gt; há-de vir, parecem dizer os seus rostos dantescos, cabe-nos esperar com resignação, nem que chovam picaretas. Ele ia pensar numa analogia com algo que lhe era próximo, mas achou que chegava de perder tempo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;Merda, praguejou mais uma vez. Tinha o carro na outra ponta da rua e não havia nenhum guarda-chuva &lt;st1:personname productid="em casa. Ia" st="on"&gt;em casa. Ia&lt;/st1:personname&gt; ter de correr e suportar os olhares de escárnio. Aquela gente não arredava pé e ele não podia esperar que aliviasse, estava mesmo em cima da hora. Em vez de espectador, seria protagonista de uma corrida à chuva.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 26.95pt;"&gt;Cobriu-se com a estola, que tirou de entre os livros, e meteu-se à enxurrada, com os olhos fixos no chão. A batina arrastava um pouco, atrás, e estava a ficar ensopada. Ia ter de repreender a menina Gertrudes: fartara-se de dizer que gostava dos paramentos com a bainha curta.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-2085201732912062460?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2085201732912062460'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2085201732912062460'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/07/alteracoes-climatericas-16.html' title='Alterações climatéricas (16)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-4424354284543711703</id><published>2010-07-09T01:27:00.001+01:00</published><updated>2010-07-09T01:29:43.412+01:00</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (15)</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Sonhadores&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com a mudança de emprego (e de cidade) viu-se forçado a desbravar um novo território. Era isto o que as mudanças traziam: o medo perante o desconhecido e a excitação da descoberta. &lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;A um quarteirão do escritório ficava o parque, para onde se entrava através de um pórtico que mais ou menos imitava o Arco do Triunfo de Paris. O parque tinha seiscentos metros de longitude e, em passo lento, demorava vinte minutos a percorrer. Descobriu que conseguia almoçar enquanto o atravessava para sul e que no caminho de regresso ganhava a companhia de muitos estudantes do liceu, que escolhiam aquele percurso para regressar a casa depois de uma manhã de aulas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ver os adolescentes tão alegres e enérgicos causava-lhe nostalgia. Bem, não exactamente nostalgia, já que ele nunca fora assim, nunca experimentara aquele género de jovialidade. Talvez por isso acabasse por se fixar mais nos estudantes solitários, aqueles que se mostravam imersos nos seus pensamentos. Ou &lt;i style=""&gt;aquelas&lt;/i&gt;.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Dispensava uma atenção particular às raparigas. Elas faziam-no sonhar. Lembrava-se dos tipos que frequentavam os bares e as discotecas, as praias, se dedicavam activamente a procurar as suas namoradas. Ele era diferente, tinha desistido. Não havia uma namorada para alguém como ele.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Era capaz de fantasiar uma relação feliz, isso ele era capaz. Escolhia uma menina, observava-a com discrição e imaginava formas de abordagem, as conversas que teriam, como se declararia o interesse mútuo em algo mais do que uma amizade.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Diferentes géneros de rapariga inspiravam-lhe diferentes histórias. Mastigava a sua sanduíche analisando vestuário, mochilas, comportamentos, expressões, olhares, os próprios traços dos rostos. Por vezes também lhes observava os corpos, os seios em formação ou já exuberantes, as ancas, mas achava que devia sentir repugnância em fazê-lo e procurava pensar noutras coisas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Se tivesse sido diferente a sua história, ele teria dado um bom namorado, tinha a certeza disso. Conseguia ver-se a dedicar atenções, afectos, a oferecer mimos e presentes, a abdicar do seu próprio interesse e bem-estar em prol daquela que aceitasse ser sua, nem que fosse pelos quinze dias das relações adolescentes.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Estudava o parque imaginando os locais onde um namoro poderia ocorrer em plenitude, bancos de jardim, a margem do lago, mas sobretudo pequenos recantos protegidos dos olhares alheios. O parque era um bom território para um sonhador como ele.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Agora era talvez velho demais, mas nunca esperara qualquer tipo de correspondência por parte das raparigas. Habituara-se a ser ignorado ou desprezado — quando não gozado, se acontecia denunciar os seus pensamentos ou demorar-se a olhar mais do que devia.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Regressava ao escritório com o imaginário enriquecido. Tentava convencer-se A si próprio que absorver as figuras femininas, fazer delas personagens das suas fantasias, era suficiente, não tinha por que se sentir mal com a vida. E se em alguns dias (demasiados dias) apesar de tudo se sentia mal, gostaria de pensar que lhe bastava sair e cruzar-se com uma delas, insuflar as narinas com o seu perfume juvenil.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Mas não bastava.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;" align="center"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;" align="center"&gt;*&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;" align="center"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ela via-o no parque e interrogava-se. Não estava habituada a que os homens pudessem ser tão calmos, tão interessados na natureza, tão sonhadores. Descobriu-o numa tarde quando regressava das aulas e ele logo lhe despertou a atenção. Costumava ver por ali idosos a fazer a sua caminhada diária, a ler o jornal ou a conversar em grupos. Havia um senhor que escolhia um canto do parque para rezar, caminhando em círculos e abrindo os braços como um sacerdote. Outros apenas passeavam os cães. Mas alguém como ele, com um aspecto honesto e a atitude de quem gosta de encher os pulmões de ar puro e observar borboletas, era uma coisa diferente. Desde logo contrastava com os idiotas dos colegas dela, implicantes, possessos, assediadores, tarados em miniatura.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ao fim de algum tempo deu-se conta que se tratava de uma pessoa com hábitos rigorosos: não falhava um dia e cumpria um horário, sempre sozinho. Era estimulante observar alguém assim, metido na sua própria vida, com interesses que não passavam pelo resto da sociedade, sociedade que ele olhava despercebidamente, com um distanciamento de deuses no Olimpo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Talvez escolhesse a hora do almoço para uma terapia diária no parque, como aqueles que ao fim de semana faziam &lt;i style=""&gt;jogging&lt;/i&gt; ou &lt;i style=""&gt;yoga&lt;/i&gt; nos relvados. Uma terapia de descontaminação, de regresso ao eu essencial, ou algo do género. Fora do recinto, a cidade era opressiva, densa, movimentada, stressante. E era assim também lá em casa. Atravessar o parque era para ela mesma um dos melhores momentos do dia.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;De início ele não a notou, e isso era bom, não queria se tida por indiscreta. Mas depois sentiu um desejo crescente de se aproximar dele, de o conhecer, de que ele a conhecesse. Tinha chegado a Primavera e agora ele sentava-se por vezes à beira do lago com um livro aberto ou a estudar os cisnes, e isso era mais do que ela podia suportar. Quem, nos dias de hoje, arranjava tempo para ler no parque? Que homem exibia assim abertamente interesses e sensibilidades que a maioria considerava femininos?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Tudo bem, havia o risco de ele ser &lt;i style=""&gt;gay&lt;/i&gt;, mas ela continuava interessada em conhecer um homem assim. Era uma novidade absoluta nas suas relações e criava-lhe enormes expectativas. Conseguia antecipar o tipo de conversas que poderiam manter, as confidências que lhe faria, a partilha de emoções e estados de espírito que seria possível estabelecerem.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Sonhou diversas noites com ele e começou a acordar de manhã com uma ponta de ansiedade, como se receasse não o encontrar à hora do almoço. Essa possibilidade fê-la apressar as coisas.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;" align="center"&gt;*&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;" align="center"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;A chuva acabou por cair, tropical, e o agente viu-os levantarem-se juntos. Soube logo para onde ele a levava. Estudara o parque com atenção e conhecia o &lt;i style=""&gt;modus operandi&lt;/i&gt; do sujeito. A única coisa estranha era que desta vez a vítima parecia ir de livre vontade, excitadiça e sorridente. Abanou a cabeça, sonhador: só a ele é que não lhe apareciam adolescentes assim, solícitas, de infantis calções justos e t-shirt decotada. Imaginou por instantes o quadro se ele se atrasasse um bocadinho — as roupas rasgadas, o corpo nu —, mas logo de seguida censurou-se pelo voyeurismo. Abriu o guarda-chuva e contornou o lago, acariciando a arma de serviço no bolso do casaco. Desta vez chegaria a tempo.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-4424354284543711703?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4424354284543711703'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4424354284543711703'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/07/alteracoes-climatericas-15.html' title='Alterações climatéricas (15)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-8697820566319240564</id><published>2010-05-13T01:36:00.000+01:00</published><updated>2010-05-13T01:38:29.959+01:00</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (11)</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Na trincheira&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era apenas um leve chapinhar, uns milímetros de água que cobriam como verniz a superfície de cimento dos passeios. Depois passaram para o caminho de terra batida e eram já dois centímetros e o pó uma camada fina de lama de cor clara. No início da mata, o chão macio de erva, às vezes musgo, tinha a consistência, o aspecto e o som de uma esponja e regressava à sua forma original depois de ter sido pisado. Ele via isso acontecer quando os pés dos que iam à sua frente se mudavam para a posição seguinte, e para a seguinte, e para a seguinte, na passada ligeira e disciplinada que lhes era imposta.&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Seguiram durante três horas pelo interior da floresta, evitando os trilhos marcados, e a mesma sensação absurda de estarem na iminência de penetrar um pântano acompanhava-os nas encostas como nas planícies, os pés a afundarem-se sempre um pouco mais. Detiveram-se por fim numa clareira e houve um bombardeamento que lhes pôs os nervos à prova. De seguida vieram de algum lado rajadas de metralhadora e ordens gritadas e ele compreendeu que tinha duas opções: estender-se no chão e ficar relativamente seco mas à mercê do fogo inimigo ou saltar para a protecção de uma das crateras abertas pelas bombas e mergulhar em metro e meio de água.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Quase tudo aquilo era expectável, por mais assustador que fosse, mas ele concentrou-se nos aspectos ilógicos, tanto para vencer o medo como porque lhe causava de facto estranheza a abundância de água nesta época do ano, numa altura em que não chovia há semanas. Estavam numa colina mas o piso ali parecia o de uma várzea que o rio tivesse inundado no dia anterior. Ficar colado ao chão, na verdade, não trazia especial benefício. O húmus estava tão saturado de água que pouco valia o risco da exposição à metralha. Desta vez havia toda a vantagem em cumprir os regulamentos e as indicações dos treinos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ainda assim, sentiu relutância em enfiar-se na água. Morria de medo do fogo inimigo, mas a ideia de passar as próximas horas com água pelo peito também lhe era adversa. Tinha sido informado pelos mais velhos: era esta a merda que a guerra tinha, nenhuma opção era uma boa opção.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;E o que dizer de uma guerra em tempo de drásticas mudanças no clima? Para ele não havia dúvidas que as emissões dos tanques e dos aviões aceleravam ainda mais o degelo dos glaciares. As consequências eram aliás evidentes: donde poderia vir aquela água toda se não do topo das montanhas ali ao lado?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ao fim de vinte minutos, a barragem de metralhadora intensificou-se e à sua volta houve gente a morrer e gente a gritar. As coisas ficaram mesmo assustadoras, ele estava a instantes de mijar nas calças. Se quisesse sobreviver tinha de arriscar a ficar de molho.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Rastejou desajeitadamente para a cratera mais próxima, tremendo por todos os lados, e, com um impulso, entrou de cabeça, como fazia antigamente na piscina, imitando os crocodilos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Engraçado como mesmo numa situação destas lhe ocorriam pensamentos do género, memórias de outros tempos mais felizes. Estava provavelmente a minutos de ficar com as tripas à mostra (ou os miolos, a cabeça era agora o mais exposto) mas conseguia pensar em temas diferentes, como por exemplo a Daniela.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;A Daniela. Que tema aquele. Dava-lhe que pensar para um ano inteiro. Não gostaria que ela o visse tremer como ele agora tremia, mas se morresse como ele tinha a certeza que ia morrer não se importava que a informassem que na confusão do seu cadáver estraçalhado fora possível encontrar alguns dedos segurando firmemente a foto que ela um dia lhe dera.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Disto não tinha a certeza, talvez ela não lhe tivesse dado a foto. Sim, apenas concordara que ele a imprimisse do &lt;i style=""&gt;facebook&lt;/i&gt;. Ou nem isso. Mas que importava? Daniela iria ficar de certeza comovida. Não ficavam todas?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Agora que o pensava, fora uma felicidade ter-lhe ocorrido tirar a foto do bolso do uniforme mesmo antes de mergulhar na cratera. Exigira-lhe um golpe de rins admirável manter o pedaço de papel de fora da água, mas tinha pelo menos esse consolo. Enquanto as posições da sua companhia eram ferozmente atacadas, ele podia confortar-se com a imagem de Daniela.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Amava-a, não tinha dúvidas, mas também sentia um tesão grande por ela. Mesmo ali, enregelado e na iminência de ser trespassado pelas rajadas do inimigo, era capaz de ver o lado sexual da relação. Percorreu com os olhos cada centímetro da imagem, sobretudo as calças de ganga justas às pernas (Daniela estava sentada de lado naquela foto, como numa toalha de piquenique, exibindo todas as belas curvas desde a ilharga até aos tornozelos).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Perguntou-se se os veteranos nas trincheiras tinham passado por isto. O matraquear das armas, os gritos dos companheiros atingidos, a presença opressora da água, que ameaçava penetrá-los até aos ossos, e no entanto uma necessidade intensa e inadiável de se masturbarem. Procurou com urgência a carcela e logo sentiu um profundo alívio, mesmo antes de fazer fosse o que fosse.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;Acordou naquele momento com a cama molhada e assustado: uma de duas coisas tinha acontecido e, aos catorze anos, ele só esperava que fosse a segunda.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-8697820566319240564?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/8697820566319240564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/8697820566319240564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/05/alteracoes-climatericas-11.html' title='Alterações climatéricas (11)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-8968421016405460263</id><published>2010-05-02T03:48:00.008+01:00</published><updated>2010-05-02T03:59:12.543+01:00</updated><title type='text'>Just listen</title><content type='html'>&lt;object width="640" height="385"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/AhhBbRzaabE&amp;amp;hl=pt_PT&amp;amp;fs=1&amp;amp;"&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/AhhBbRzaabE&amp;amp;hl=pt_PT&amp;amp;fs=1&amp;amp;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="640" height="385"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Just take another drink and talk...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="font-weight: bold;" href="http://www.el-gran-masturbador.blogspot.com/"&gt;http://www.el-gran-masturbador.blogspot.com/&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-8968421016405460263?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/8968421016405460263'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/8968421016405460263'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/05/just-take-another-drink-and-talk.html' title='Just listen'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-2530781958974806988</id><published>2010-04-26T02:11:00.002+01:00</published><updated>2010-04-26T02:14:34.553+01:00</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (9)</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight: bold;font-size:180%;" &gt;Piedade&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estar naquela casa com ela era um desejo tornado realidade. Ela tinha-o conduzido pela mão, ajudando-o a evitar todos os obstáculos na rua, obstáculos que ele conhecia bem até à entrada do prédio. Mas não lhe diria nada sobre isso, não desperdiçaria a ocasião e o privilégio. Depois, lá dentro, era um mundo desconhecido com que ele tinha sonhado inúmeras vezes mas de que não sabia nada. Imaginava um átrio com o chão a cheirar a detergente, caixas de correio atafulhadas de publicidade e as escadas com corrimão de mármore, suave e frio, como costumavam ter aqueles edifícios antigos. Ali, ela foi ainda mais prestável, pegando-lhe no cotovelo e informando-o da cadência dos degraus e dos patamares, das voltas que a escada dava antes de terminar no terceiro piso, onde habitava.&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Descobriu logo que a desculpa era o nevoeiro que se abatera sobre a cidade. Ele, ao contrário das outras pessoas, não soube de imediato que as ruas tinham sido imersas numa nuvem branca (ou cinzenta, conforme as opiniões), mas divertiu-se de cada vez que vendeu um jornal e ouviu dizer que não se via um palmo à frente do nariz. As pessoas diziam-no para si próprias, mas também para encontrar nos que as rodeavam cumplicidade perante aquela inquietante neblina.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Mas era uma desculpa bastante ingénua, a dela, convidá-lo para casa com o argumento de que as ruas estavam perigosas. Como se não se ver um palmo à frente do nariz fosse um problema para ele, habituado há vinte anos a não ver sequer o próprio nariz. No instante do convite, quase se desiludiu, censurando-se simultaneamente pelo seu espírito antiquado. Concebia as coisas de forma diferente, &lt;i style=""&gt;ele&lt;/i&gt; a convidá-la para sua casa e ela, tímida como era, a hesitar, a balbuciar, talvez torcendo as mãos no regaço (imaginava ele, sabendo que isso nunca poderia testemunhar), e por fim a aceitar, com um rubor nas faces (outra coisa que não poderia ver).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;De todos os clientes do quiosque, que se habituara a reconhecer por particularidades como o odor corporal ou o som dos passos, era ela a mais assídua e pontual, e era ela também quem cedo tinha conquistado a sua afeição. De início apenas porque era simpática e, quando à-vontade, espirituosa, demorando-se na conversa com ele; depois porque lhe pareceu o tipo de mulher capaz de amar para lá do aspecto, para lá das imperfeições. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Nos dias úteis, passava de manhã, a caminho do trabalho, para comprar o jornal do dia. Ao sábado à tarde vinha por vezes sentar-se com ele no banco do jardim ao lado do quiosque. Falava do tempo, das intrigas da TV, de política, de memórias. Num momento ou dois ela desabafou sobre desgostos amorosos e ele calou-se, fingindo saber ouvir.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Já tinha estado apaixonado, antes de deixar de poder ver o rosto das raparigas. Mas na altura tinha doze anos e uma vida normal, não poderia resultar nenhum dano daquilo. Nas duas décadas seguintes, forçou-se a ignorar a feminilidade de médicas e enfermeiras, de professoras e assistentes sociais, de colegas de infortúnio e de clientes frequentes, e até da gentil filha da dona da residencial.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;&lt;span style=""&gt;   &lt;/span&gt;E então veio aquela tarde, o nevoeiro, e as ruas foram-se esvaziando. Vários dos jornais que costumava vender ao final do dia não saíram do quiosque. A rádio, com o histerismo que nos últimos tempos parecia contaminar tudo e todos, espalhou avisos e receios. A rapariga, pensou ele, encontrou na situação ligeiramente extraordinária que era aquela a sua oportunidade.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ele estava ali parado do lado de fora do quiosque, um pouco estupefacto com o silêncio em que a cidade parecia mergulhada. Abriu a tampa do relógio e palpou os ponteiros, sorrindo: não tardaria a ouvir-lhe os passos no regresso a casa, mais distintamente do que nunca. Mas ela veio até ele de rompante, pelo outro lado, perguntando-lhe em catadupa com uma ligeira reprovação na voz:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;— O que faz aqui? Não sabe que hoje não se pode ficar na rua? Não ouve as notícias? Tem de fechar já o quiosque, não temos muito tempo. O melhor é vir para minha casa, não é longe.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ah, quão convincente ela parecia naquela sua desculpazinha marota, que talvez tivesse estudado no metro. Sim, ele sabia que não era longe. Sabia, aliás, que eram trezentos passos, mais coisa menos coisa. Trezentos e dezassete, para ser rigoroso. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Enquanto caminhavam juntos e ele fingia desconhecer o percurso até casa dela, embatendo propositadamente aqui e ali no mobiliário urbano para a fazer sentir-se imprescindível, regozijou com a sua sorte. Era uma coincidência agradável ter-lhe dado a entender de manhã o seu afecto e depois ter-se instalado aquele nevoeiro que, como a meia-luz num jantar, favorecia certos impulsos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Poucas mulheres, mesmo as apaixonadas, eram capazes de evitar a piedade. Ela parecia tentá-lo, mostrando-se inclemente.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;— É mesmo típico da sua parte, fazer exactamente o contrário do que deveria. O que esperava? Ser poupado por ser cego? Desobedecer assim ao recolher obrigatório…&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;— Talvez tomasse um chá — disse ele, não tendo a certeza se isso lhe tinha sido oferecido.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;— Claro, que mau jeito o meu — disse ela. — Mas posso servir-lhe outra coisa, se preferir.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Sim, e ele podia começar agora a escrever poesia.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;— Não, obrigado. É muito amável da sua parte, mas o chá seria perfeito.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;— Ainda não se vê nada — disse ela espreitando pela janela a caminho da cozinha.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;— Pois, o nevoeiro… — disse ele.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ela era adorável e ele sentia-se levitar. Qual seria o próximo passo? Sentar-se-ia ao seu lado, pedindo-lhe para avaliar os biscoitos que ela mesmo fizera e lhe servia com o chá? Pegar-lhe-ia discretamente na mão perguntando qualquer coisa sobre o Braille e o grau de sensibilidade nos dedos que era exigido aos leitores daquela escrita? Ou, agora que tivera a afoiteza de o atrair aos seus domínios, ela podia finalmente revelar não só que lhe correspondia no afecto como também que era uma mulher luxuriosa sob aquela boa reputação de rapariga de bairro?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;— Talvez possamos ouvir rádio — disse ela pousando o tabuleiro. — Não é uma coisa que faça frequentemente, mas consigo bem passar um dia sem televisão.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-2530781958974806988?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2530781958974806988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2530781958974806988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/04/alteracoes-climatericas-9.html' title='Alterações climatéricas (9)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-6958063578549891383</id><published>2010-04-17T18:19:00.001+01:00</published><updated>2010-04-17T18:21:25.334+01:00</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (8)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Inundação&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a maior parte ficou amedrontada, ele parou com o tique nervoso que lhe fazia tremer o punho onde assentava o queixo, cotovelo sobre o joelho como o pensador de Rodin. Por alturas do pânico generalizado, sentiu alegria e podia tê-la manifestado com um pulo ou dois de adolescente, se não estivesse demasiado ocupado a manter-se à tona da água.&lt;br /&gt;As chuvas dos últimos dias tinham sido anunciadas, mas ninguém pudera imaginar uma coisa daquelas. Excepto ele, que estava disponível para imaginar tudo o que lhe mantivesse a mente distraída. Imaginar era, aliás, o que lhe restava, já que o mundo real ficara reduzido aos vinte metros quadrados de uma cela colectiva, com raras saídas para o pátio da prisão.&lt;br /&gt;Nunca ignorara que uma vida de prisioneiro era provavelmente dura demais para alguém como ele. Mas nem agora que pudera confirmar pessoalmente os horrores da penitenciária se arrependia do que fizera, caso por uma falha na sua rotina mental se deixasse pensar um pouco no assunto. Os colegas de cela tinham-no por pensador, alguém que cismava diariamente, remoía os remorsos do que fez ou os erros de planeamento que o conduziram ali. Gozavam com ele sobre isso, como naturalmente gozariam a propósito de outra coisa qualquer. O quotidiano da prisão confirmava os seus piores receios e ele — tímido, frágil sob a falsa corpulência dos quilos a mais, e medroso — era a vítima perfeita de uma comunidade que vivia em tensão permanente.&lt;br /&gt;Nas primeiras semanas, sonhara muitas vezes com a &lt;em&gt;solitária&lt;/em&gt;, com formas de provocar a ira da direcção do presídio, uma ira que o conduzisse ao sossego do isolamento sem necessariamente o submeter a sovas demasiado violentas. Mas cedo descobriu que não existia tal coisa no sistema prisional do Estado. A doutrina em vigor falava de socialização, partilha, igualdade de tratamento e de deveres, participação na gestão do espaço comum e uma série de tretas do mesmo género. Tinha de se integrar ou conseguir morrer de um ataque cardíaco auto-infligido, já que todos os meios que permitissem o suicídio tinham sido cuidadosamente removidos e a vigilância era permanente, havia um Big Brother caridoso e pró vida a zelar por eles.&lt;br /&gt;De modo que o Inferno para ele, que &lt;em&gt;naquele&lt;/em&gt; dia não teve presença de espírito suficiente para disparar sobre si próprio ou se lançar de um viaduto sobre o trânsito da cidade, começou ainda em vida, no momento em que entrou na penitenciária da comarca.&lt;br /&gt;Bem, na verdade começou antes. Micaela era o demónio em carne e osso e era disto que ele não se arrependeria se se permitisse pensar no assunto: de lhe ter terminado com a raça.&lt;br /&gt;Não foi uma decisão fácil nem rápida. No início nem era uma decisão, mas uma centelha, a esperança de que se alimentavam os seus dias. Começou por lhe desejar a morte. Uma morte natural — todos estavam sujeitos a achaques. Depois deixou de o repugnar que ela falecesse num acidente de carro. Ou de avião, já que gostava tanto de cruzar o Atlântico. Por fim, convenceu-se de que a sua saúde era de ferro e que as tragédias se mantinham longe dela. A única fraqueza de Micaela era ele próprio, como ela não se cansava de dizer.&lt;br /&gt;Houve um tempo em que se enchia de orgulho de cada vez que ela dizia aquilo. Ele era a fraqueza de alguém como Micaela, nada menos do que isso. Depois tornou-se seu escravo, e, numa fase seguinte, o bibelô de que ela punha e dispunha quando se sentia no apogeu da sua superioridade moral. Nos últimos tempos era a vítima da sua fúria, dos seus ciúmes (ele!), da sua paranóia.&lt;br /&gt;Deu cabo dela com uma marreta, mas escolheu mal a arma, porque não tinha como a usar sobre si próprio. E agora estava ali.&lt;br /&gt;A vida na prisão era um prolongamento da vida que ele tivera nos últimos tempos lá fora, com a agravante de que o número de torturadores tinha aumentado. Cada um dos condenados que lhe faziam companhia na cela gostava de o considerar, em diferentes momentos, confidente, cúmplice, mascote, criado, parceiro sexual ou saco de porrada. Oficiosamente, concluía ele, o sistema ou a vida ou os deuses lá em cima pediam-lhe que se deixasse abraçar pela esquizofrenia, mas ele não conseguia deixar de se manter lúcido.&lt;br /&gt;Ah, não o tocarem, não lhe falarem, e ele não os ouvir nem os ver. Ah, estar na cela como no meio de uma rua movimentada da capital, onde ninguém se conhece nem se fala e todos são anónimos. Ou no meio de um bosque impenetrável, no deserto, no cimo de uma colina remota. Fértil em crueldades, o sistema prisional acabou com a velha e clássica solitária, aquilo que lhe poderia salvar a vida.&lt;br /&gt;E então a chuva foi anunciada e caiu, com força, perseverante, incansável. Foi no rádio a pilhas dos guardas que ele ouviu as previsões, que anunciavam uma especial incidência do fenómeno meteorológico naquela região. Claro que, apesar dos alertas histéricos da protecção civil, ninguém esperava um dilúvio, e quando a água entrou às golfadas por baixo da porta, fazendo boiar a merda dos que insistiam em cagar nos cantos, os prisioneiros seus colegas mostraram os primeiros indícios de humanidade, uma humanidade temente a Deus. Ele parou com o tique nervoso que lhe fazia tremer o punho onde assentava o queixo.&lt;br /&gt;Em duas horas, a água chegava à cintura dos detidos e, por mais que tivessem berrado, ninguém lhes abriu a porta, ninguém se preocupou com o seu destino. Não custava perceber que os guardas tinham abandonado as instalações ou subido aos pisos superiores para salvar a pele.&lt;br /&gt;A inundação, nos seus primeiros momentos, aumentou o caos na cela. Todos praguejavam e se empurravam como se fosse possível encontrar naqueles vinte metros quadrados um culpado ou um salvador. Inevitavelmente, ele era o candidato que todos preferiam e foram-lhe exigidas explicações, soluções, e cada um dos outros lhe aplicou uma bofetada ou um soco como paga do seu silêncio.&lt;br /&gt;Com o nível freático a atingir a altura do peito, os detidos subiram literalmente às paredes, agarrando-se onde puderam. Por uma vez em meses, o centro da cela tornava-se um local solitário e ele manteve-se ali, com uma alegria básica, recordando-se com prazer de todos os momentos na vida em que pôde estar só. No perímetro do compartimento, onde os outros tentavam encontrar formas de se elevar acima das águas, os gritos eram histéricos, mas a ele parecia-lhe que também o silêncio lhe fora finalmente concedido.&lt;br /&gt;A água subiu mais um pouco e ele sentiu-se a ser erguido do chão; perdia o pé e ganhava um bem-estar quase esquecido. Mais ninguém ali sabia nadar, pelo que era olhado, no meio do pânico geral, com uma última inveja.&lt;br /&gt;O pé-direito da cela era de cinco metros, o que tornou longa a agonia geral e a ele lhe proporcionou minutos extra de solidão. Ninguém agora se atrevia a vir até ali ao centro para o incomodar. Estava só, o mundo em ebulição à sua volta e ele a ignorá-lo, a vogar e a rodar lentamente na superfície da água, entregando-se lentamente à maré, com pequenos movimentos das mãos e das pernas.&lt;br /&gt;Os primeiros presos, os que não conseguiram forma de subir mesmo até ao tecto, começavam já afogar-se e todos outros, ele incluído, tinham agora menos de trinta centímetros de espaço para respirar. Ele achou divertida a forma como alguns levantavam a cabeça, ofegantes, parecendo peixes a querer beijar o cimento do tecto. Outros, como ele, inclinavam a cabeça, o que o fez lembrar, absurdamente, a sala de tribunal descrita por Kafka em &lt;em&gt;O Processo&lt;/em&gt;. Mais ninguém dispunha da liberdade de movimentos que ele tinha, agarrados como estavam àquilo que lhes permitia segurar-se às paredes. Ele vogava em círculos cada vez maiores ao redor da cela, nadando de costas, para manter a boca fora da água. Não o preocupava o desfecho daquilo. Morria feliz e em liberdade.&lt;br /&gt;Dois guardas de aspecto brutal, agarrando-o pelos cabelos, retiraram-lhe a cabeça da sanita, de novo entupida, e arrastaram-no pelo corredor. Iam mudá-lo de cela, para uma onde não corresse o risco de se afogar. Lá fora ouvia-se a intempérie. Nunca vi chover assim na minha vida, disse um dos guardas, com um ar preocupado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-6958063578549891383?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/6958063578549891383'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/6958063578549891383'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/04/alteracoes-climatericas-8.html' title='Alterações climatéricas (8)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-7910944498469506045</id><published>2010-04-13T01:17:00.000+01:00</published><updated>2010-04-13T01:20:47.226+01:00</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (7)</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Ménage à trois&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As televisões e os jornais falavam de fenómenos estranhos na parte norte do país, acontecimentos que iam além de uma meteorologia improvável, mas ela não tinha ligado muito às notícias e agora perguntava-se se fazê-lo a teria ajudado de algum modo. Aqui onde morava chovera torrencialmente e o rio transbordara com alguma violência, deixando na vegetação das margens e nas árvores que cresciam no próprio leito, quando o caudal diminuíra, inúmeros pedaços de plástico e de tecido como bandeirolas coloridas. Dir-se-ia que todo o leito do rio era agora um terreiro de festa, a avenida por onde se aguardava que desfilasse algum corso carnavalesco ou exército triunfante. Noutros pontos, eram galhos partidos e arrastados pela corrente que se acumulavam entre renques de árvores ribeirinhas, como ninhos gigantes de pássaro, como se o rio usasse a mesma lógica construtiva das aves. Talvez a natureza não tivesse muitas fórmulas para fazer as coisas e repetisse padrões, mesmo quando os fins (se é que existia um fim para aquilo) eram diferentes.  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Mas o que incomodava agora e deixava os sentidos alerta para uma ameaça iminente — uma ameaça que não se consubstanciava em nada de visível, de palpável, em nada para que houvesse um plano de emergência — era este calor absurdo, esta humidade insuportável, como se os trópicos tivessem resolvido subir uns quantos paralelos para enlouquecer as pessoas. Foi ao concluir este raciocínio, depois de os ver saltar, que se interrogou quanto à utilidade de ter estado atenta às notícias.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Antes de saltarem, João era o seu noivo e Florbela uma desconhecida que entrara na cama dela da noite para o dia. O lesbianismo nunca a incomodara, mas também nunca ponderou fazer parte do clube. Pensara no assunto com alguma lascívia na faculdade; era capaz de apreciar mulheres, de sentir uma ponta de excitação à vista de algumas delas, mas o que a punha em ponto de rebuçado, imaginava ela, eram mesmo os homens. Talvez por ter andado sempre tão ocupada a lidar com eles (casou com três) a questão nunca se tivesse posto. Até ao dia em que Florbela apareceu, com aquela lata e aquele carisma, e, sem que ela pudesse pensar no assunto, deu consigo a experimentar os prazeres do sexo entre mulheres.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Com o prazer veio a culpa. Ela amava João e não considerava a hipótese de o deixar ou de o magoar. Não era só por ele, ela própria não concebia a sua vida sem João. Mas em pouco tempo estava viciada em Florbela e temia que as duas coisas fossem irreconciliáveis. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Leu o que pôde sobre o assunto, mas não sabia como escolher a bibliografia adequada, não estava habituada a ter de fundamentar as suas opções. Era este um problema psicológico? Moral? De cultura adquirida? Aceitar que era bissexual não lhe parecia empresa impossível, mas a questão ia além da sua biologia particular, ela tinha de lidar com a bigamia, porque não estava disposta a perder nenhuma das duas pessoas, João e Florbela.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Pôs-lhe o problema com a maior frontalidade que conseguiu e ele a princípio riu-se às gargalhadas, depois ficou muito sério, quando percebeu que ela não brincava. João não lhe confessou que muitas vezes fantasiara tê-la na cama com outra mulher (a sua libido era permeável a &lt;i style=""&gt;clichés&lt;/i&gt; que imaginava exclusivamente masculinos). Mas agora que era confrontado com essa possibilidade ele sentiu que uma mancha de sujidade caíra sobre a relação deles. Amava-a, e, se se imaginava capaz de uma coisa assim com desconhecidas, tinha por outro lado toda a dificuldade do mundo em concretizá-la com a sua noiva, tanto porque receava ofendê-la com o prazer que inevitavelmente tiraria daquilo como porque temia perder a ideia de integridade inabalável que tinha dela.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;De qualquer modo, algo tinha mudado, ela tinha consumado relações físicas com Florbela, tecnicamente tinha-o traído. Durante dias João andou amuado, recusando estar ou falar com ela. Depois deixou-se conquistar pelo visível sofrimento moral da noiva, no que foi muito ajudado pelos seus próprios sentimentos: não imaginava a vida sem ela, partilhá-la (afinal, com outra mulher) era melhor do que não a ter. E, pensou a certa altura com vergonha, havia aspectos muito positivos naquilo. Nunca participara num &lt;i style=""&gt;ménage à trois&lt;/i&gt; (nem na verdade acreditara que algum dia pudesse acontecer-lhe) e agora isso seria talvez a rotina.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ela não precisou de gastar muita energia a convencer Florbela, que de resto acompanhou os seus dilemas e de alguma forma lhe sugeriu a solução, revelando-lhe o bem que lhe caía o noivo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Viveram assim algumas semanas, aquilo resultou muito melhor do que algum dia teria imaginado, ela e João conseguiam quase o mesmo quotidiano de antes, agora muitas vezes apimentado com a presença excitante de Florbela.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Custou-lhe que eles os dois, Florbela e João, se tocassem, queria cada um deles só para si, mesmo que em simultâneo, e a principio foi isso que aconteceu. Eles pareciam desejá-la só a ela. Depois, naturalmente, pela mecânica do acto e do desejo, Florbela e João viriam a acariciar-se e ela fez uma cena de ciúmes ali mesmo na cama onde estavam os três. Florbela riu-se do absurdo e João ruborizou de vergonha.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ao fazer um mês tiveram o seu &lt;i style=""&gt;ménage à trois&lt;/i&gt; sem condições, com proveito de todas as partes. No entanto, ela começou a pensar como seria bom que tudo voltasse ao que era antes de Florbela aparecer. Por mais agradável que fosse, a situação trazia-lhe alguns engulhos, não fora feita para este género de arranjos. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Claro que ela não sabia para o que fora feita. Em cada etapa da sua vida encontrava defeitos e inquietações. Embora gostasse de se considerar moderadamente tradicionalista, não havia um estado civil que se lhe adequasse, sendo certo que ainda não experimentara a viuvez.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Cogitava nisto tudo — no seu descontentamento, na maneira de acabar com uma situação que ela própria criara e, de forma perturbante, na viuvez — quando a onda de calor ou lá o que era aquilo se instalou. Depois, pensar tornou-se difícil, pelo menos pensar de forma coerente, lúcida, racional.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Acima de tudo, queria vê-los mortos, deu-se conta a certa altura, dominada por uma nova lógica. Tinha a certeza que deixara de ser o vértice mais importante do triângulo e isso arrefecera-lhe a paixão. Magoar o seu noivo já não era uma preocupação e afinal talvez pudesse passar bem sem Florbela.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Espiou-os, convencida de que se preparavam para prescindir dela. Bastava-lhe uma prova de que eles agora se entendiam bem a dois para dar o passo seguinte sem hesitações. Se era isto o que queriam, deveriam ter-se ido embora para longe. Eram bem tolos se acreditavam que ela ficaria impassível. Não, não ficaria. Era capaz de amar os seus cadáveres, a sepultura onde eles se encontrassem. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Então a Primavera passou-se toda num dia. Não a Primavera comum: uma nova estação, os trópicos elevados à décima potência. Tirou-os de casa para um passeio à beira-rio, iam ver a cascata, que depois das chuvas devia estar admirável, violenta. Progredir no caminho de terra batida tornou-se extremamente difícil, como se avançassem numa selva. A humidade do ar e o calor eram tais que a vegetação crescia a olhos vistos, literalmente. Vinte centímetros em meia hora ou menos, ervas a ficarem de um momento para o outro do tamanho de pés de milho, pontas de urze ou giesta que surgiam na terra pisada do caminho e logo se tornavam arbustos inexpugnáveis, galhos a derrearem-se sobre as suas cabeças com o peso de milhares de folhas vicejantes, trepadeiras a envolver troncos e, se eles não andassem de pressa, as suas próprias pernas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Chegaram, finalmente, à plataforma rochosa de onde se poderia admirar a queda de água. Para se sentarem tiveram de afastar lagartos de tamanho nunca visto e novelos de cobras. Os mosquitos, como nos melhores relatos tropicais, zumbiam e mordiam como demónios. Não era o ambiente mais sereno, mas ela iria confrontá-los ali com os seus piores temores, e, tinha de reconhecer para si própria, estava disposta a gestos terríveis, a inaugurar um novo estado civil, o da dupla viuvez.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;No entanto, como se fossem eles as vítimas, os que sofriam com tudo aquilo, João e Florbela deram-se as mãos, sorriram um para o outro com afecto e decisão, e, pondo-se de pé num só movimento, lançaram-se para a cascata como para uma piscina de saltos, elevando-se primeiro no ar de peito aberto ao vento, descrevendo depois um arco que terminou quando as suas cabeças entraram na água em queda e bateram ao mesmo tempo na pedra gasta.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ficou a olhá-los, pensando que ia ferver de raiva por aquele suicídio romântico (aquela última afronta), mas o que lhe aconteceu foi um pranto de viúva, uma dor súbita que a deixou inconsolável pela perda. Talvez devesse ter estado atenta às notícias. Um tempo destes não fazia bem a ninguém e a eles tinha-lhes feito muito mal. Se calhar, a protecção civil aconselhava que as pessoas ficassem em casa, apenas saíssem em situações de extrema necessidade, usassem roupas adequadas à onda de calor — não aqueles fatos de gala de Barbie e Ken com que os dois resolveram sair. Era aliás ainda mais triste, agora que pensava nisso, como João e Florbela, com os corpos quase desmembrados lá em baixo, se pareciam aos únicos exemplares de Barbie e Ken que ela tivera. Muito contribuía para isso o facto de eles terem elásticos a unir braços e pernas aos seus elegantes troncos e cabeleiras que se via mesmo que eram postiças e lhes saíram da cabeça ao primeiro atrito com o ar. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-7910944498469506045?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/7910944498469506045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/7910944498469506045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/04/alteracoes-climatericas-7.html' title='Alterações climatéricas (7)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-7064526000995804370</id><published>2010-04-05T01:44:00.004+01:00</published><updated>2010-04-05T01:52:55.420+01:00</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (6)</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight: bold;font-size:180%;" &gt;Prova de amizade&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Era uma firme prova de amizade, sem dúvida, mas também lhe parecia um grande absurdo, tanto ou mais do que o banco continuar ali. Tinham combinado encontrar-se no jardim do outro lado da ponte que unia as duas colinas da cidade, mas ele não esperara que nevasse daquela forma durante a noite.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Passaram-se horas até que os primeiros cidadãos se atrevessem a sair à rua e mesmo os adolescentes demoraram a tirar partido de uma tão grande quantidade de neve, olhando-a à distância, medindo forças com ela. Por fim, saíram aos magotes das casas e duas horas depois a neve, antes fofa e pouco compacta à superfície, tornou-se sólida em certas zonas, permitindo que se caminhasse sobre ela sem enterrar os pés.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Ele também saiu para a rua, estupefacto com o fenómeno, mas manteve-se à parte das brincadeiras e das conversas. Pensava nela e tinha vontade de partilhar o acontecimento insólito. Infelizmente, as redes de telemóvel não funcionavam, pelo menos naquela parte da cidade, e não pôde fazer uma ligação. Quando se aproximava a hora marcada teve um pressentimento estranho de que a encontraria no local combinado e, embora abanasse a cabeça a rir-se de si próprio, acabou por se deixar levar naquela direcção, esperando não se cruzar com Rita.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Rita era desde há alguns dias a sua ex-namorada, e a melhor amiga dela, Cláudia, que sempre a acompanhara nos encontros com ele, aceitando a função pouco confortável de pau-de-cabeleira, substituíra-a no dia anterior. Era uma situação complicada e ele chegou a sentir-se mal por as coisas acontecerem daquela maneira.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Cláudia acompanhava Rita por imposição da mãe desta, que não aceitava que a filha andasse sozinha com rapazes. Claro que, longe das vistas da mãe, as raparigas poderiam separar-se e combinarem um local para se encontrarem mais tarde e regressarem juntas a casa. Mas fosse porque Rita tinha medo de ser vista sozinha com um rapaz, fosse porque, virginal, receava os avanços dele, o que é certo é que o seu namoro com Rita foi testemunhado de perto por Cláudia.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Demasiado perto: eles beijavam-se numa ponta do banco de jardim e Cláudia fingia ler uma revista ou observar as redondezas na outra. Aparentemente, nenhuma das raparigas se incomodava com a situação e ele próprio acabou por se habituar, embora não conseguisse deixar de ter pena de Cláudia, que por sua vez não disfarçava completamente uma certa tristeza no olhar, enternecendo-o.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;De tal modo que uma tarde, enquanto beijava Rita, ele se pôs a trocar olhares com Cláudia. Noutra ocasião, pousou inadvertidamente um dedo sobre a mão dela e acariciou-a com a mesma ternura que aplicava na face de Rita com a outra mão. A determinada altura era comum estarem os três abraçados no banco.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Naturalmente, Rita imaginava que aquilo era uma demonstração de amizade, de cumplicidade, afinal partilhavam a mesma aventura juvenil, ainda que eles os dois fossem os namorados e Cláudia se limitasse a segurar a vela.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;No final da semana anterior, Rita viu-os beijarem-se no intervalo das aulas e compreendeu que o amor dele tinha transitado para a amiga. Ficou triste e cortou relações. Mas não com Cláudia. Eram amigas e isso estava acima de tudo o resto.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Cinco dias depois do fim do namoro com Rita, ele achou que já podia convidar Cláudia para se encontrar com ele fora da escola. Não soube por que impulso, combinou no mesmo jardim, no mesmo banco. Um capricho romântico, talvez, tinha sido ali que os sentimentos despertaram.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;A imensa nevada era um contratempo irritante. Assinalava da pior forma o primeiro dia de namoro oficial: impedindo-o. Porém, ele deixou-se caminhar até ali, enterrando-se na neve até aos joelhos, e ficou perplexo quando viu que o banco estava no mesmo sitio.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Quer dizer, imaginava que o banco estivesse no mesmo sítio — mas debaixo dos dois ou três metros de neve que tinham caído. No entanto, ali estava ele, demasiado perto agora dos galhos da árvore que lhe costumava fazer sombra.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;E então viu-as, no meio da ponte entre as colinas, caminhando com dificuldade mas divertidas, com os seus kispos de penas e camisolas de forro polar. Ficou a observá-las sem se mexer, duas figurinhas coloridas na brancura geral, que pararam no final da ponte para ver a cidade velha transformada por trás delas e depois tentaram correr quando o viram a ele, ou Cláudia tentou, puxando a amiga.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 27pt;"&gt;Era absurdo tudo isto, a neve, o banco, mas ele desviou um ramo e sentou-se, como se fosse o que se esperava dele. Cláudia sentou-se ao seu lado, sorridente, e Rita, com um aceno envergonhado, sentou-se na outra ponta, tirando uma revista da bolsa, firme na sua amizade com Cláudia, preparada para a sua função de pau-de-cabeleira.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-7064526000995804370?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/7064526000995804370'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/7064526000995804370'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/04/alteracoes-climatericas-6.html' title='Alterações climatéricas (6)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-7888898695415210079</id><published>2010-03-31T01:57:00.001+01:00</published><updated>2010-03-31T02:06:51.820+01:00</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (5)</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight: bold;font-size:180%;" &gt;Pecado&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que a pontaria tinha sido facilitada pela diminuição da distância. Na noite anterior nevara como se o tempo estivesse possuído pelo demónio. Uma neve discreta, silenciosa, mas de uma violência extrema nos resultados, como os criminosos mais profissionais. De manhã tinha sido um susto de morte abrir as portadas interiores e deparar com a permanência da escuridão lá fora. Olhou o relógio da mesinha de cabeceira para confirmar que era a hora certa, que não se tinha levantado a meio da noite impelido por um qualquer sonho sobre rotinas matinais. Mas não havia dúvidas, eram as oito horas do costume, a não ser que o estúpido electrodoméstico se tivesse passado. Ligou o telemóvel, que coincidia na hora, e as mensagens que logo soaram convergiam no espanto: «Já viste a nevada que caiu? Uau! Estamos no Pólo Norte! Agora percebo como se sentem os pinguins», coisas do género. Um pouco mais tarde lembrar-se-ia destas mensagens e de como eram fúteis, egoístas, perante a enormidade do que tinha acontecido.&lt;br /&gt;Ele e o namorado moravam numa cave. Exceptuando as janelas da cozinha, situada do lado oposto aos quartos e à sala, o apartamento apenas possuía uns janelucos encostados ao tecto, que davam para um árido canteiro que subia em rampa até ao passeio. A neve ali acumulada, compactada pelo seu próprio peso, não denunciava a brancura, provocava o mesmo efeito que tábuas de madeira ou tijolos, se alguém tivesse decidido entaipar o prédio. Ainda ensonado, dirigiu-se à cozinha, certo que dali perceberia melhor que raio se passava lá fora. Na cozinha havia persianas e quando as levantou sentiu a adrenalina a subir ao mesmo ritmo dos seus puxões. Nos primeiros centímetros de abertura não era a rua das traseiras o que se via, mas os vidros baços, de um branco sujo, como os do automóvel quando no Inverno eles se deixavam ficar a namorar na orla do parque. Depois, finalmente, na parte superior da janela surgiu uma nesga de céu, ainda cinzento, sobre o nível da neve, acumulada como açúcar de encontro às vidraças.&lt;br /&gt;O seu primeiro impulso foi correr para o quarto e gritar para o namorado que tinha nevado. Mas depois tomou consciência dos absurdos, o daquilo que tinha sido a intempérie e o da sua reacção puerilmente excitada.&lt;br /&gt;Começaram a escavar para a superfície agradecendo ele a sorte de terem aquelas janelas na cozinha, sobre a parte mais baixa do bairro. Outros não poderiam dizer o mesmo, incluindo alguns vizinhos do mesmo bloco de apartamentos. Talvez tivesse morrido gente, tinha de certeza morrido gente.&lt;br /&gt;A rua elevara-se um piso. Circulava-se agora ao nível do andar de cima. Ali estava a varanda do reaccionário do primeiro direito. E ali o da beata que lhes enfiava citações da Bíblia por baixo da porta e acendia velas no &lt;span style="font-style: italic;"&gt;hall &lt;/span&gt;do prédio pela alma dos perdidos (a deles).&lt;br /&gt;Apesar da catástrofe que aquele excesso parecia indicar, a rua estava calma, não havia gritos nem gente histérica nas varandas, não se juntavam grupos com ar severo a medir as circunstâncias, ninguém anunciava o fim do mundo. Não havia sequer trânsito das autoridades ou das instituições de socorro. Era como se a cidade, ou pelo menos aquela rua das traseiras, tivesse acolhido com resignação ou indiferença a nova conjuntura.&lt;br /&gt;O namorado rejubilou desde o primeiro momento. Ainda não lhe passara de todo a bebedeira da véspera, isso era notório. Ficou muito excitado quando soube que estavam soterrados, adorou escavar a sua própria saída como as toupeiras e extasiou-se com todo aquele branco, quando chegou à superfície. Ergueu as mãos enluvadas ao céu e, entre gritinhos e suspiros teatrais, confessou-se grato por ter a possibilidade de testemunhar fenómeno tão estimulante. Estava capaz de atingir o &lt;span style="font-style: italic;"&gt;karma &lt;/span&gt;ali no meio da rua. Ou um orgasmo, disse com malícia, se o companheiro fosse tão amável que o ajudasse.&lt;br /&gt;De qualquer maneira, ele próprio se sentiu entusiasmado, quer porque era impossível ficar indiferente ao acontecido, quer porque não pôde resistir à boa disposição e às provocações do namorado. Na verdade, tinha de reconhecer que ele próprio estava ainda um pouco bêbado.&lt;br /&gt;Resolveram regressar à cozinha e transportar para cima alguns ingredientes para o mais original pequeno-almoço das suas vidas. A calma que reinava na rua fazia-os sentir despreocupados, à-vontade, demasiado à-vontade. E ter o namorado insistido em abrir champanhe&lt;span style="font-style: italic;"&gt; como nos melhores hotéis de Paris&lt;/span&gt; (como se ele acreditasse que em Paris ainda se bebia champanhe ao pequeno-almoço) foi a faúlha que acendeu o rastilho.&lt;br /&gt;Comeram e beberam sentados na cobertura hexagonal do quiosque dos jornais e no fim dançaram bem no eixo da estrada, ou onde supunham ser o eixo da estrada, tentando deslizar na zonas mais compactas como um casal de patinadores, daqueles que representavam os clássicos de Shakespeare no gelo, ou daqueloutros que acrobaticamente lutavam pela máxima classificação nos jogos olímpicos de Inverno.&lt;br /&gt;Claro que nem eles não eram acrobáticos nem a neve permitia movimentações daquele género. Acabaram estatelados, abraçados um ao outro e muito excitados, as bocas demasiado próximas. Num minuto, o tempo que demorou um beijo húmido, sôfrego, o namorado estava a tentar tirar-lhe a camisola de lã e ele, sem resistir, a tentar pensar que alguma coisa estava errada.&lt;br /&gt;Tudo à volta subira um nível, como em certos jogos electrónicos. A realidade passava-se agora um grau acima (três metros, em rigor), e isso, durante um beijo apaixonado, sensual, sugeria a metáfora de que a própria cidade, a rua, se elevara espiritualmente em direcção à tolerância, à harmonia. Ninguém estaria em condições de atirar a primeira pedra, porque não havia pecado.&lt;br /&gt;Então soaram os tiros, todos certeiros, embora inicialmente só os braços e as pernas os sentissem. Os primeiros disparos vieram, claro, dos vizinhos de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;cima &lt;/span&gt;(que agora eram inquilinos do rés-do-chão). O velho coronel, com garbo militar; o marido da &lt;span style="font-style: italic;"&gt;santa &lt;/span&gt;que morava em frente, com o fastio de um dever superior. Mas as janelas do segundo e terceiro pisos também se abriram: a fuzilaria foi concorrida. Olhando em volta, tanto quanto conseguiu, ele não pôde deixar de considerar que estarem três metros acima do habitual facilitou a pontaria àquela gente toda.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-7888898695415210079?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/7888898695415210079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/7888898695415210079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/03/alteracoes-climatericas-5.html' title='Alterações climatéricas (5)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-2572167416880345016</id><published>2010-03-26T20:58:00.001Z</published><updated>2010-03-26T21:00:37.030Z</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (4)</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;Shining&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;A situação lembrava-lhe um filme cujo título não lhe ocorria. O boletim meteorológico não tinha sido pessimista, pelo menos não o fora na tarde anterior e ela não se tinha dado ao trabalho de consultar a Internet de madrugada, quando saiu de casa. De qualquer modo, fez a maior parte do percurso com o sol a brilhar, mesmo que no exterior do carro estivesse bastante frio. Estacionou na vila, onde almoçou, e depois caminhou os últimos quilómetros, de mochila às costas, respiração fumegante. Não contava com a tempestade.&lt;br /&gt;Gostava quando conseguia estes fins-de-semana em que juntava dois dos seus maiores prazeres: caminhar pelos montes e explorar edifícios antigos. Coleccionava informação sobre palácios ancestrais, solares abandonados, estalagens, hotéis falidos, velhos edifícios administrativos ou religiosos, toda e qualquer construção importante que tivesse atravessado o século XX e estivesse localizada nas serras do norte ou em zona rural. Quando dava por concluído o estudo sobre a história do edifício, pegava num mapa e escolhia cuidadosamente um trajecto de nove ou dez quilómetros para chegar até ele, a pé, evitando aldeias, ou pelo menos os maiores centros urbanos das redondezas. Gostava de se sentir como os antigos viajantes, a atravessar montes e vales, e a chegar à povoação coberta de pó, hospedando-se em pensões baratas, de preferência também antigas.&lt;br /&gt;De vez em quando tinha sorte e o edifício ficava afastado das localidades. Acontecia-lhe com certas casas senhoriais, situadas em extensas propriedades que as aldeias demoravam a cercar, ou com alguns mosteiros mais ascéticos. Mas a escolha deste fim-de-semana era uma das suas preferidas, adiada por mais de uma vez — tal como se deixavam as melhores guloseimas para o fim, ou para momentos especiais. Este era um momento especial.&lt;br /&gt;O sanatório ficava oito quilómetros acima da vila, incrustado no meio da vertente, numa plataforma rochosa sobre um bosque de carvalhos. Subia-se até ele por uma estrada sinuosa de terra batida que a água da chuva tinha escavado ao longo dos anos de abandono. A localização na montanha e a especialidade para que fora construído — doenças do foro pulmonar, tuberculose — parecia coisa de país estrangeiro ou de literatura, dando-lhe um lugar de destaque no seu roteiro particular.&lt;br /&gt;Chegou lá em cima quando caíram os primeiros flocos de neve. Era um percalço, a mudança de tempo, mas nada que a assustasse demasiado. Apenas não esperava que a noite caísse tão depressa, depois de o céu azul ter sido substituído por um outro cinzento, pesado, baixo. Tinha de escolher entre regressar à vila e voltar de manhã para as suas explorações ou aproveitar as horas que lhe restavam e acampar ali em cima. Nada lhe parecia ainda tão anormal que a fizesse hesitar: ficou e aproveitou a última luz do dia.&lt;br /&gt;Ao jantar serviu-se de enlatados, sentada como Buda em frente a uma das portas que davam para o terraço do primeiro andar que corria ao longo de toda a fachada nascente do sanatório. Imaginava a vista dali em dias descobertos e simultaneamente começava a inquietar-se com a persistência da intempérie. Quando se enfiou no saco-cama estava resignada com a ideia de ter de caminhar na neve no dia seguinte.&lt;br /&gt;De manhã abriu os olhos e ainda nevava. Era agora um sério contratempo. Nas próximas horas estaria recolhida a visitar o que lhe faltava do edifício (a maior parte, na verdade, na tarde anterior não vira muito), mas depois de almoço teria de se ir embora, não trouxera alimentos para mais e era esse o plano, regressar a casa no domingo à noite.&lt;br /&gt;Tinha alguma experiência de orientação na montanha (de resto, apenas precisava de descer) e estava habituada a uma certa inclemência dos elementos, mas fazer oito quilómetros sozinha no meio de uma tempestade destas, que não dava mostras de abrandar, preocupava-a.&lt;br /&gt;Não desfrutou tanto quanto esperava da exploração do sanatório. Viu os quartos, todos com a sua varanda exposta ao vento, o refeitório monástico, a cozinha com ar de morgue de hospital, revestida a azulejos brancos e com bancadas em inox, a biblioteca, onde ainda restavam as altas prateleiras de madeira e um ou outro livro científico, e, no rés-do-chão (ou na cave, já que o edifício ficava enterrado na sua parte posterior), os gabinetes médicos, o dispensário, com as vitrinas quebradas, e as enfermarias, cujo estranho mobiliário as fazia parecer laboratórios de horror, salas de inquisição.&lt;br /&gt;Ele chegou ao final da manhã. De início era apenas o vento a bater as portas desconchavadas, pensou ela. Depois pareceu-lhe ouvir um chamamento, um assobio. Em seguida passos soaram no soalho do piso de cima.&lt;br /&gt;Procurou controlar-se. As circunstâncias favoreciam a imaginação. Quem se atreveria a subir ali com a borrasca que se fazia sentir lá fora? Estava sozinha, demasiado sozinha, e susceptível. De qualquer modo, terminara o que viera fazer, talvez pudesse iniciar a descida.&lt;br /&gt;Saiu para o corredor e notou que aquele piso não tinha qualquer porta para a rua. Ainda que a fachada leste estivesse desimpedida (a montanha ficava do outro lado), as janelas dos compartimentos encostavam-se ao tecto e o único acesso era pelas escadas que davam para o piso nobre, o da recepção e das salas comuns.&lt;br /&gt;Pisou os degraus com suavidade, fazendo-se leve e tentando convencer-se de que era ridícula a sua precaução. Mesmo que houvesse mais alguém no edifício, porque teria de se preocupar? Era mulher, o eterno argumento da fraqueza aplicava-se, mas porque teria de ser uma ameaça quem quer que tivesse vindo abrigar-se no velho sanatório? (Haveria outras razões que justificassem a presença de uma pessoa ali?)&lt;br /&gt;De seguida as suas dúvidas desfizeram-se. O homem, a voz era de homem, pigarreou e começou a chamar alto por alguém ou algo. Noutras circunstâncias, diria que ele chamava pelos seus animais, galinhas ou porcos, com vozinhas agudas, imitações de chilreios, estalidos de língua. Talvez um caçador com os seus cães.&lt;br /&gt;Infelizmente, não era nada disto. Teve a certeza quando, através de uma frincha, o viu, barba crescida, ar perscrutador, sinistro, nas mãos o cabo de madeira de algum instrumento bélico. E estava entre ela e o átrio, a saída para a escadaria da frente.&lt;br /&gt;Retrocedeu, descendo as escadas da cave a correr, e fechou atrás de si a primeira porta que encontrou, arquejante e trémula. Havia um filme assim, ela não conseguia deixar de pensar que havia, mas não se lembrava do título e tudo o que conseguia fazer era tremer e tentar lembrar-se do título. Então ele, que desceu atrás dela, pôs-se a ler com evidente satisfação, do outro lado da porta, uma passagem de um livro que trouxera da biblioteca ou de um dos gabinetes e que falava da ressecção de costelas no tratamento da tuberculose.&lt;br /&gt;Tinha um gerúndio, o título, ocorreu-lhe quando o ex-marido desferiu o primeiro golpe com o machado na porta, assomando depois por ali o rosto ensandecido para anunciar num mau inglês:&lt;br /&gt;— Querida, cheguei!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Shining&lt;/em&gt;!, lembrou-se finalmente, e decidiu que nunca mais deixaria que um homem a conhecesse ao ponto de adivinhar o destino das suas escapadas de fim-de-semana.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-2572167416880345016?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2572167416880345016'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2572167416880345016'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/03/alteracoes-climaterica-4.html' title='Alterações climatéricas (4)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-4192325465124865231</id><published>2010-03-22T01:09:00.002Z</published><updated>2010-03-22T01:14:42.423Z</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (3)</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight: bold;font-size:180%;" &gt;Uniforme de gala&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem vestia o seu fardamento de cerimónia, com o capacete reluzente e o machado de lâmina cromada pendurado no cinturão branco, e ela achou que era um dia estranho para ele usar aquele uniforme. A cidade estava inquieta, tinham sido lançados apelos pela rádio e pela TV, as forças da ordem e os bombeiros foram convocados, as sirenes dos quartéis soavam, pelo que atavios pomposos, de gala ociosa, eram tudo menos adequados ao momento.&lt;br /&gt;Ela própria se censurara minutos antes por ter desobedecido ao comunicado da protecção civil e ter vindo para a rua com o conjunto de saia e casaco que usava no trabalho. De início convenceu-se de que havia uma grande dose de sensacionalismo em tudo aquilo, as pessoas gostavam que os &lt;span style="font-style: italic;"&gt;media &lt;/span&gt;e as autoridades se mostrassem histéricos. Mas ela não se deixaria levar pela paranóia generalizada, não era um carneirinho. Não se vestia de forro polar e blusão de penas só porque o excitadiço boletim meteorológico decretava o alerta laranja — vivia bem com a alternância das estações do ano e os caprichos da natureza. De resto, detestava que lhe dissessem como se havia de comportar, o que havia de fazer, que sítios devia frequentar ou evitar, o que era melhor para si.&lt;br /&gt;Mas a certa altura, depois de ter saído para a rua, sentiu que desta vez poderia estar enganada, talvez devesse ter dado mais atenção aos avisos, aos relatórios, às reportagens, até aos boatos. Havia alguma coisa no ar. Mesmo assim insistiu consigo própria em manter a rotina e desceu até ao jardim. Apetecera-lhe ler o jornal num dos bancos, a espreitar entre páginas os patos no laguinho, e foi até ao fim nesse apetite. O trânsito estava frenético, as pessoas desorientadas, mas ela decidiu que manteria a calma no meio da precipitação geral.&lt;br /&gt;Não leu o jornal (não conseguiu, e ficou irritada por isso), mas pôs-se a espreitar as janelas das casas antigas que debruavam o jardim, com as suas madeiras envelhecidas, a tinta a descascar e os cortinados de gaze branca, vaporosos, que pareciam esconder mistérios ou rostos de fantasmas. Era uma coisa que a pacificava, observar aquele tipo de janelas, com as suas promessas de História. Imaginava estantes por trás delas, derreadas de livros, ou armários e arcas cheios de objectos e documentos reveladores e excitantes. Tinha uma narrativa para cada casa no perímetro daquele jardim público. Mais do que uma, na verdade, as narrativas variavam com o clima e com o seu humor (que também variava com o clima), mas na pluralidade de ideias que cada fachada e cada janela lhe inspiravam ela tinha conseguido encontrar um fio condutor que individualizava os edifícios.&lt;br /&gt;Observava uma dessas janelas, uma das do rés-do-chão, ali a dois passos do seu banco, e teve um susto quando viu a cortina afastar-se e um rosto lívido assomar. Foi quando as aves no tanque desataram a esbracejar, nervosas, e acabaram por levantar voo, à sua maneira torpe de animais sedentários, com gritos roucos.&lt;br /&gt;Noutras circunstâncias gostaria de se ter divertido a imaginar que aquele era um dos fantasmas da cidade velha, mas hoje nem ela conseguia fugir à inquietação que fora lançada no ar, e a verdade era que havia uma senhora idosa a bater com ar atemorizado no vidro e a gritar surdamente.&lt;br /&gt;Olhou em volta. Era a única pessoa nas redondezas, pelo que lhe cabia averiguar as razões da velhota. Levantou-se do seu banco, ajustando o casaco no pescoço porque já não podia negar que sentia frio, e foi colocar-se no passeio estreito em frente à janela.&lt;br /&gt;Talvez aquela fosse a velha senil que parecia ser, mas era indiscutível que estava a pedir ajuda, mesmo que não fosse nada específica quanto ao tipo de ajuda que estava a pedir. Abanava em desespero um pequeno recipiente na mão, uma espécie de cantil em cerâmica, certamente um objecto do mundo rural de onde seria originária a família, ou a própria velha, um daqueles objectos que constituíam o tesouro que lhe estimulava a imaginação. Tentou concentrar-se nos gestos que a mulher fazia, nos sons que emitia. Teria sede? Seria esse o significado daquele gesticular? Como não a estava a entender e a achava realmente aflita, fez sinais para que a velha abrisse a janela, assim poderiam ouvir-se.&lt;br /&gt;Viu-o então, a descer o passeio, brioso, de botas engraxadas e abotoado até ao pescoço, exactamente com os atavios que ela não esperaria encontrar num bombeiro em dia de calamidade oficialmente anunciada. Era como num filme de propaganda, o galante “soldado da paz” que prontamente socorre as senhoras aflitas, vestindo o seu melhor fato. Achou-o oportunista, previsível, e foi o pensamento mais simpático que teve acerca dele.&lt;br /&gt;«Parece que a senhora precisa de alguma coisa», disse ela quando o bombeiro se aproximou.&lt;br /&gt;«Sim, eu sei», disse ele com voz rude e sem se deter. «Mas você não tem de estar aqui». E fez um gesto que a dispensava com desprezo enquanto tirava uma chave do bolso e abria a porta da casa.&lt;br /&gt;Ela sentiu-se ferver de raiva, mas conteve-se, o que importava era que fosse prestada assistência à velhota. O cretino devia ser um familiar, ou então estava encarregado da assistência social a esta zona do bairro, o quartel da corporação não era longe. Espreitou pela porta que ficara aberta, queria ter a certeza de que o assunto seria lidado com bons modos. E viu-o tirar o machado imaculado do cinto e avançar para desferir um golpe certeiro no pescoço da velha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-4192325465124865231?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4192325465124865231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4192325465124865231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/03/alteracoes-climatericas-3.html' title='Alterações climatéricas (3)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-526575515572034006</id><published>2010-03-12T04:05:00.001Z</published><updated>2010-03-12T04:08:00.372Z</updated><title type='text'>[De regresso às diligências]</title><content type='html'>Depois de meses dedicado a outra repartição, o arquivista regressa aos seus defuntos e ao seu selecto e recatado tombo de comarca. Parece que as alterações climatéricas tão na moda cobram vítimas a esmo. Nas próximas semanas, ao ritmo de um mangas-de-alpaca competente mas não frenético, serão aqui inventariadas algumas ocorrências de particular interesse nacional. Um pouco tarde para alertar a protecção civil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:78%;" &gt;Caso n.º1 disponível &lt;a href="http://arquivomortos.blogspot.com/2010/03/neve.html"&gt;aqui &lt;/a&gt;em baixo.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-526575515572034006?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/526575515572034006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/526575515572034006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/03/de-regresso-as-diligencias_12.html' title='[De regresso às diligências]'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-7010048053428572646</id><published>2010-03-12T04:01:00.005Z</published><updated>2010-03-12T04:15:32.871Z</updated><title type='text'>Alterações climatéricas (1)</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Neve&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma quantidade de neve assim era um desafio à imaginação. Ele sentiu-a cair durante a noite, quando o silêncio se instalou. Não que tivesse ouvido os farrapos a tocarem o telhado e as copas despidas das árvores, o manto branco a cobrir o cimento da varanda e o chão lá em baixo. Intuíra a sua chegada a partir da forma como a cidade tinha suspendido a respiração. O trânsito na rua deteve-se e os bichos no parque guardaram um silêncio atónito, como se tudo o que era noctívago ficasse a olhar com perplexidade o fenómeno.&lt;br /&gt;Quando acordou tinha a certeza de que ao abrir a janela o esperaria uma paisagem homogénea, branca, e que a rotina sofreria um intervalo. Os transportes públicos estariam parados, as instituições do Estado e algumas lojas encerradas. Os adultos ficariam em casa, gratos pelo aquecimento central, a observarem pelas vidraças as crianças e os adolescentes nas suas batalhas de bolas de neve. Estes erigiriam construções efémeras de hominídeos rotundos, segundo o esquema ancestral, com a cenoura no lugar do nariz.&lt;br /&gt;Depois de uma passagem breve pelo quarto-de-banho, notou o silêncio na rua e estranhou que ele ainda perdurasse daquela forma. Contava pelo menos com alguma algazarra, os gritos das crianças, trenós em despiste, as façanhas de um ou outro veículo todo-o-terreno. Abriu finalmente a persiana e viu-a pela primeira vez, aquela massa incrível de neve, o Árctico logo ali.&lt;br /&gt;Não era apenas uma nevada valente, daquelas que tudo cobrem e nivelam, tornando indistinta a fronteira entre os passeios e as estradas, os jardins e as áleas. Era algo desmesurado, grotesco no volume, mas igualmente belo no efeito visual que causava. Para onde ele olhasse via o que se esperava que visse numa manhã daquelas: o branco a cobrir todas as superfícies, uma claridade e uma harmonia raras. A diferença era que a cota habitual do chão fora elevada em três metros.&lt;br /&gt;Num primeiro momento não percebeu porque lhe parecia tão estranho o cenário lá fora. Uma nevada era uma nevada, tinha esta prerrogativa de transformar a paisagem. Mas depois as informações chegaram ao seu cérebro em cascata, fazendo-o vibrar a cada impacto. Eram as árvores que não tinham tronco, cada um dos seus ramos a sair directamente do chão branco, formando canteiros redondos de varas despidas; eram as lojas no rés-do-chão dos edifícios do outro lado que tinham desaparecido, os terraços das habitações do primeiro andar a darem directamente para a rua, como num subúrbio residencial; era uma total ausência de veículos automóveis, como se esta parte da cidade tivesse sido vedada ao trânsito da noite para o dia e as bermas e os passeios laboriosamente despejados pelos reboques da polícia municipal; era, enfim, a estranha proximidade do chão, que o fez pensar absurdamente que tinha passado a noite no apartamento do vizinho de baixo.&lt;br /&gt;Demorou-se a absorver o panorama e declarou para si mesmo que um acontecimento destes era impossível. Uma só noite não podia trazer toda aquela quantidade de neve, por mais violenta que fosse a tempestade, e ele não dera por tempestade nenhuma. Dez ou vinte centímetros — trinta, se a precipitação se tivesse iniciado mal ele se deitara — eram uma coisa razoável, ocorria em alguns Invernos. Mas não havia memória de a cidade ser assim soterrada, nem era expectável tal fenómeno numa latitude apenas levemente setentrional. A sua imaginação lutava com imagens como as de localidades engolidas pela lava de vulcões, povoações invadidas pela lama de grandes enxurradas. Havia aldeias que ficavam submersas como resultado da construção de barragens e talvez as tempestades de areia lograssem sepultar algumas construções baixas no deserto. A Natureza estava sujeita a desequilíbrios deste género, que subvertiam a normalidade ou revelavam a sua condição efémera. Mas que equilíbrio tinha sido violado, que forças tinham actuado para que as ruas da sua cidade fossem assim submergidas, numa extática maré branca? Muito mais a norte, sim, era razoável a neve elevar-se até àquela cota, ainda que ele julgasse serem necessárias muito mais horas e a persistência das tormentas.&lt;br /&gt;Notou de seguida que além dos automóveis faltavam peões na rua. Não havia qualquer movimento lá fora, daí o silêncio. Ele compreendia que toda a gente tivesse sido apanhada de surpresa, e o instinto levava as pessoas a ficar em casa. Mas a estas horas já deveria haver alguma reacção, alguém que escavasse acessos à entrada dos prédios, adolescentes desobedientes excitados por poderem passar com um passo dos terraços para a rua a experimentarem a consistência daquela neve absurda. Os serviços municipais e os bombeiros, como em outras emergências, deveriam já estar a planear formas de desenterrar veículos e trazê-los para a nova superfície, para atender a pedidos de ajuda, realizar tarefas essenciais para o quotidiano da urbe. A polícia teria de vir patrulhar as ruas para prevenir pilhagens. Era previsível que os próprios delinquentes andassem a rondar as zonas comerciais para descobrir como aproveitar a situação anormal. Mas a verdade é que o silêncio era completo e a neve permanecia imaculada, não havia pegadas, nem de homens nem de bichos.&lt;br /&gt;Levantou por fim os olhos para as fachadas dos edifícios em frente ao seu e então viu que as janelas estavam cheias de gente que, como ele, parecia acabada de acordar e ainda tentava decifrar o fenómeno.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-7010048053428572646?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/7010048053428572646'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/7010048053428572646'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2010/03/neve.html' title='Alterações climatéricas (1)'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-4589504269454921513</id><published>2009-09-29T05:14:00.008+01:00</published><updated>2009-09-29T05:40:02.923+01:00</updated><title type='text'>O caso 2666, a vanguarda ou o regresso dos mortos-vivos</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Joyce&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Li &lt;em&gt;Ulisses&lt;/em&gt;. Um destes dias vou ler &lt;em&gt;2666&lt;/em&gt;. Talvez &lt;a href="http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/"&gt;Francisco José Viegas &lt;/a&gt;e &lt;a href="http://bibliotecariodebabel.com/"&gt;José Mário Silva &lt;/a&gt;tenham engendrado uma campanha. São pessoas um bocado sectárias. Aquela coisa dos blogues estimula as capelinhas, é sabido.&lt;br /&gt;No entanto, confunde-me a indignação. A campanha não é &lt;em&gt;contra&lt;/em&gt; ninguém, é, antes de mais, a favor de um livro, possivelmente um grande livro.&lt;br /&gt;Claro que será muito mais estimulante quando aos editores de livros, livros mesmo, não restar mais do que a clandestinidade, mas para já tem o seu interesse que no centro de uma operação editorial moderna esteja, digamos, um livro mesmo.&lt;br /&gt;É natural que os indignados, entre a literatura de cordel e uma ameaça de &lt;em&gt;Ulisses&lt;/em&gt;, se inclinem para a primeira — afinal, a descer todos os santos ajudam.&lt;br /&gt;Os indignados, dizem eles, não gostam muito das campanhas que promovem a Margarida Rebelo Pinto, o Harry Potter, o Sousa Tavares ou assim, mas, classe oprimida, sempre as preferem a uma que lhes proponha essa coisa elitista de um livro possivelmente superior, possivelmente original. Os indignados não o confessam, mas são claramente por campanhas mais, digamos, &lt;em&gt;brain friendly&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;De resto, &lt;em&gt;ninguém&lt;/em&gt; leu &lt;em&gt;Ulisses&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Ninguém que os indignados conheçam.&lt;br /&gt;E &lt;a href="http://dn.sapo.pt/gente/Interior.aspx?content_id=1372780"&gt;eles &lt;/a&gt;conhecem muita gente.&lt;br /&gt;Ler &lt;em&gt;Ulisses&lt;/em&gt; causa danos cerebrais.&lt;br /&gt;Donde se compreende que seja um bocado obsceno a Quetzal tentar tirar lucros de um novo &lt;em&gt;Ulisses&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Proust&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Eu que não li &lt;em&gt;2666&lt;/em&gt;, e portanto também me ressinto da impertinência da Quetzal, preferiria que a editora tentasse (ilusoriamente) encher os cofres com a edição de outras mil páginas, umas que eu tivesse lido e aprovado. Lembro-me, por exemplo, para nos ficarmos pelo castelhano, de &lt;em&gt;O Teu Rosto Amanhã&lt;/em&gt;, a obra-prima de Javier Marias. A Dom Quixote editou em 2005 o primeiro dos três volumes, mas depois deixou-se de merdas e decidiu que as suas escolhas passariam a poupar os leitores a essa coisa parva que é a literatura. &lt;em&gt;O Teu Rosto Amanhã&lt;/em&gt; poderia ser anunciado como uma espécie de &lt;em&gt;Em Busca do Tempo Perdido&lt;/em&gt; do século XXI, o que aborreceria as mesmas pessoas mas lhes permitiria trocadilhos mais imaginativos. Eu, claro, seria &lt;em&gt;só&lt;/em&gt; o autor da primeira recensão — ou pelo menos o primeiro a revelar o final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Faulkner&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Entretanto, Lobo Antunes, que (veja-se como isto está tudo ligado) gosta muito de &lt;em&gt;O Som e a Fúria&lt;/em&gt;, escreveu agora um livro onde &lt;em&gt;a mãe está a morrer e os filhos são os narradores&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-4589504269454921513?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4589504269454921513'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4589504269454921513'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/09/o-caso-2666-ou-o-regresso-dos-mortos.html' title='O caso &lt;em&gt;2666&lt;/em&gt;, a vanguarda ou o regresso dos mortos-vivos'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-5934288895176849198</id><published>2009-06-16T01:18:00.000+01:00</published><updated>2009-06-17T01:22:27.000+01:00</updated><title type='text'>Almoço de Domingo</title><content type='html'>Simão irrompe na sala. Os meus sentidos pêsames, diz, sem clareza para os presentes. Olham-no com a curiosidade de perceber em que coisas se perde aquela cabeça. Sentidos pêsames para todos, repete Simão, e parece sair-lhe uma vénia com as palavras. E um sorriso. Simão sorri. Os presentes, inseguros, acenam imperceptivelmente com a cabeça, o que deixa Simão inquieto, talvez não tenha sido a melhor entrada da sua vida.&lt;br /&gt;Se pudesse voltar atrás, fazia as coisas de forma diferente. Entrava em passo marcial, talvez, levantando bem os joelhos, estacava em frente à mesa, batia com os tacões e só então soltava a frase que escolhera. Os meus sentidos pêsames.&lt;br /&gt;Mas Simão não saberia como voltar atrás. A vida é um fluxo irreversível, oh se é, não há volta atrás. A natureza e os seus defeitos são uma coisa que irrita Simão, tanta complexidade, tanta beleza — perfeição, diz-se — e não há como se retroceder, um ano, uma semana, meia hora, um minuto, que seja. Simão retrocederia, não tem dúvidas nenhumas, mais de um ano, olé, talvez dois ou três, mas agora entrou na sala e as pessoas olham-no.&lt;br /&gt;Não é bem um sorriso, aquilo, mas é, ainda assim, uma forma de se mostrar amistoso. Ele sabe o que se diz, que tem a expressão de um tolo, como aquelas vítimas de AVC, incapazes de imporem outras expressões aos músculos da face. Mas as pessoas precipitam-se nas suas considerações, uma coisa é o Simão público, outra aquilo que ele é em privado.&lt;br /&gt;Este é o Simão público, acabado de irromper na sala com o seu melhor ricto facial, a expressão de quem olha os outros como se eles, predadores experientes, tivessem o sol pelas costas. Um ar de esforço, os cantos da boca levantados quase dolorosamente e os olhos semicerrados, é isto que as pessoas vêem. Sempre. Isto e os caracóis cinzentos descuidados, enriçados. E a barba de uma semana, duas. E as roupas, bem, as roupas desesperadas por um ferro de engomar e, num ponto ou noutro, por agulha e linha.&lt;br /&gt;Mas Simão irrompe amistosamente e logo saúda todos os presentes. Os meus sentidos pêsames, diz, e pretende colher de imediato o efeito da sua saudação, passeando os olhos ofuscados pela sala.&lt;br /&gt;Devia ter treinado mais, percebe, sem desistir da sua expressão de marca. À cabeceira da mesa, a irmã diz Simão, e ele entende logo o que ela quer dizer, falhou a entrada triunfal. Simão, e é uma voz que casa ternura e raiva. Raiva ou uma tristeza profunda e revoltada. Simão, diz a irmã, e ele percebe.&lt;br /&gt;De qualquer modo, já que ali está, afunda as mãos numa travessa e sai de lá com as asas de um frango. Ou de dois frangos: parecem ambas asas esquerdas.&lt;br /&gt;A irmã, Simão, e ele percebe, mas não recua. O ricto e os olhos semicerrados. É um Simão amistoso, este que ele trouxe à sala. Os meus sentidos pêsames, diz para a irmã, e ela percebe, mas não perdoa. Ou perdoa, mas disfarça, estão pessoas em casa, na sala.&lt;br /&gt;Simão quer dizer bom dia, diz a irmã, e ele acena. Isso. Disfarça mana, não podemos embaraçar as pessoas, fazê-las perceber as suas limitações no que se refere ao entendimento.&lt;br /&gt;Ele está muito contente por nos ter aqui a todos, continua, como se o interpretasse, a irmã, olhando-o com olhos de tutora.&lt;br /&gt;Simão esconde as asas dos frangos atrás das costas. Foi apanhado. Está, de facto, contente por ver aquela gente ali, na sala, mas não havia necessidade desta exposição, a sua irmã sabe que ele detesta ser o centro das atenções.&lt;br /&gt;Bem, talvez não deteste assim tanto ser o centro das atenções, o que ele detesta são manifestações de afecto, sobretudo manifestações de afecto que o apanham com asas de frango nas mãos.&lt;br /&gt;Agora as pessoas vão olhar para ele com complacência por ser um tipo que se alegra com visitas e não com admiração por ser alguém que sabe entrar com elegância numa sala.&lt;br /&gt;Merda, mana, diz Simão, e as pessoas estremecem.&lt;br /&gt;Ele olha em volta. Sim, agora colhe o impacto das suas palavras. Merda, mana, repete. Depois quer desaparecer, sente-se enfastiado. Mas toma com resignação o seu lugar na mesa e isso parece contentar toda a gente.&lt;br /&gt;Simão pousa os pedaços de frango no prato à sua frente e levanta um pouco o nariz. Nota a fragrância: respira-se alívio na sala. A pouco e pouco as pessoas ignoram-no, e isso permite-lhes sentir confiança, empenharem-se nas conversas, agir com naturalidade. Talvez seja melhor assim, pensa.&lt;br /&gt;O seu olhar pousa agora no guardanapo com motivos campestres, uma herança. Poderia ficar assim horas, costuma ficar assim horas, sem que isso o incomode nem um pouco, mas sabe que não é altura de ceder. Hoje é um dia importante e ele comprometeu-se, faria boa figura.&lt;br /&gt;Depois de uma pausa, um momento de concentração, volta à superfície, com aquele seu ar simpático. Vai inclinando a cabeça e o sorriso para onde há mais fulgor nas conversas. Parece-lhe adequado este movimento algo pendular, à esquerda e à direita. Como se estivesse num &lt;em&gt;court&lt;/em&gt; de ténis. As conversas educadas são assim, oscilam entre interlocutores. Pelo canto do olho espreita a irmã, Simonetta (irritante o critério baptismal dos pais de ambos), quer ver se ela se orgulha dele, da sua capacidade de se interessar. Simonetta devolve-lhe um olhar cansado.&lt;br /&gt;Na sua extrema cordialidade, Simão quase se esquece de comer. Mas não seria natural ele não comer, sobretudo num almoço tão importante quanto este. Interrompe, por isso, o acompanhamento dos diálogos, e durante minutos ataca o assado, com verdadeiro apetite.&lt;br /&gt;Talvez aproveitando a sua aparente distracção, no outro topo da mesa um dos comensais aproveita para sussurrar para a orelha mais próxima. Não é bonito nem justo. Simão está a esforçar-se, por que não podem os outros imitá-lo? De qualquer modo, o seu compromisso é de ferro, não vai fazer um escândalo, não hoje. Ele é capaz de aguentar, não há-de ser por sua causa, mesmo que tenha razões para isso, que a harmonia se há-de quebrar.&lt;br /&gt;Depois parece-lhe que o sussurro tem uma resposta, também sussurrada, e isso começa a ser demais. Simão ergue o queixo e arrota — no último momento limita-se a arrotar. A mesa estremece e os que segredaram mostram um ar bem compungido. Simão fica contente por apenas ter arrotado, seria uma pena deitar tudo a perder por uma precipitação sua. Pôr-se a chorar baixinho agora não lhe traria as palavras ditas em surdina, e medidas um pouco mais drásticas, como sair intempestivamente ou partir um prato, indisporiam a irmã e desagregariam o grupo.&lt;br /&gt;Ele não queria o grupo desfeito, ter as pessoas longe era pior do que as ter a sussurrar ali ao lado. Desejava ouvir-lhes todos os dias as vozes incessantes, tac tac tac tac, como bicos de cegonha. Ali por perto, como agora, com as bocas visíveis, era quando mais se aproximavam do silêncio. Quanto mais audíveis mais silenciosas. Inofensivas. Sussurros destes, considera Simão, são ainda assim melhores do que todas as conversas de que os seus ouvidos não alcançam nem o rumor, mesmo que ele saiba melhor do que ninguém como ouvir atrás das portas, como entrar na casa das pessoas e ouvir as suas conversas. O que não suporta é imaginar a quantidade de tempo que as pessoas têm para falar longe dele. É nessas alturas que a sua cabeça se enche de outras vozes, mais dolorosas.&lt;br /&gt;Durante alguns segundos, Simão pensa numa frase que encoraje os outros a manter conversas para toda a audiência. Sim, ele também pode fazer um esforço. A irmã iria apreciar um novo gesto seu, algo que complementasse a sua entrada quase-triunfal. A sua falhada-entrada-quase-triunfal.&lt;br /&gt;Os enterros costumam ser bonitos ao domingo, diz, e a frase soou-lhe bem. Tem dúvidas quanto à verdade da proposição, mas não rejeita a ideia. A irmã diz baixinho Simão. Ok, não se fala de boca cheia, mana, retorque Simão, como se falassem por códigos. Sim, não se fala de boca cheia, fica contente por se entenderem a irmã. Mas Simão insiste: está um belo dia para um enterro, não acham?&lt;br /&gt;A inquietação regressa à mesa. Simonetta tem um gesto de desespero, está cansada da franqueza do irmão. Se quiseres, podes comer na cozinha, diz-lhe ela, naquele tom de desistência que ele odeia. Na cozinha pode ouvir as vozes da sala e ser ele próprio, resmungar baixinho as suas considerações, a irmã sabe disso. Mas hoje ele quer fazer um esforço e conversar com as pessoas, conviver. E, na verdade, é domingo e está um belo dia para um enterro, será ele o único a notá-lo?&lt;br /&gt;De qualquer modo, os sussurros acabaram. Os comensais estão silenciosos ou soltam algumas observações genéricas em tom perfeitamente razoável. Parece que as coisas podem seguir novamente um rumo aprazível para todos.&lt;br /&gt;Há, no entanto, alguma rigidez na postura das pessoas. Simão não deixa de notar isso, mas pode ser só porque elas não estão habituadas a um almoço franco. As refeições em família ou entre amigos são hoje em dia raras e quando ocorrem escolhem-se restaurantes muito frequentados ou acende-se a televisão num programa ruidoso. Não há intimidade nem entrega.&lt;br /&gt;Gostaria de partilhar estas considerações com Simonetta, mas ela há um bocado que pousou os talheres e o fixa com &lt;em&gt;aquele&lt;/em&gt; olhar. Oh, não, pensa Simão. Não agora, mana. Não em frente às pessoas. Ele tinha-se retraído, não tinha? Não percas o controle, mana.&lt;br /&gt;Simonetta serve-se de novo de vinho, está um pouco embriagada e gosta da sensação. Está também farta. Nem é que as coisas estejam a correr mal (não estão), mas cansa-a que nunca corram &lt;em&gt;bem&lt;/em&gt;, que sejam só suportáveis, que no fim todos sintam alívio por não ter acontecido &lt;em&gt;praticamente&lt;/em&gt; nada e não prazer por terem passado um bom bocado. Que culpa tem ela que &lt;em&gt;aquilo&lt;/em&gt; tivesse acontecido? Não foi Simonetta que os juntou e muito menos foi ela que os separou. De resto, não poderia jurar pela inocência do irmão. Inocência quanto às causas, bem entendido, porque as consequências ocorreram todas pela mão dele.&lt;br /&gt;O Simão gosta de pensar que é pintor, diz de forma sombria a irmã, e Simão sente que alguns diques chegaram ao seu ponto máximo de resistência. A pintura é uma tolice, uma tolice inofensiva, como aquele seu sorriso pateta. Em volta todos guardam um silêncio vigilante. Na verdade, prossegue Simonetta depois de uma curta reflexão, essas são as únicas coisas inofensivas nele.&lt;br /&gt;Não se fala de boca cheia, mana!, grita Simão do seu lado da mesa, esperançado que os códigos ainda resultem. Os olhos enchem-se-lhe de água.&lt;br /&gt;Tem jeito com as cores, o meu irmão, insiste com cinismo Simonetta, sobretudo tem jeito para não as misturar. Já viram as telas dele? São o máximo: cada uma de sua cor. Nem sei porque usa aqueles pincéis fininhos, um rolo teria o mesmo resultado. Mas ele gosta de pensar que há técnica e arte na forma como cobre minuciosamente uma tela de verde ou de azul. É hilariante. E estúpido.&lt;br /&gt;Simão revolve a comida no prato com os dois talheres, como se misturasse cimento e areia numa obra. As suas bochechas estão inchadas ao jeito de alguém que sopra para um balão ou de uma criança que se recusa a respirar.&lt;br /&gt;O meu irmão arranjou para si uma terapia ocupacional, declara depois Simonetta, consistiu nisso o seu último acto ajuizado. Aliás, custa perceber como ainda arranjou cabeça para decisão tão sensata.&lt;br /&gt;E ri-se nervosamente.&lt;br /&gt;Simão pousa os talheres e balanceia o corpo para trás e para a frente. Algo está para acontecer e ele tenta ignorar a intuição. Chora baixinho.&lt;br /&gt;Mana, mana, diz, não passes para lá do arco-íris.&lt;br /&gt;O arco-íris? Não é cómico o meu irmão?, solta uma gargalhada cruel Simonetta. O que é que há depois do arco-íris? Simão não lhe sabe dizer de momento, mas lembra-se que é algo mau, muito mau, porque ele já lá esteve e tem a certeza de que só voltou por milagre.&lt;br /&gt;A irmã esvazia outro copo de vinho e deixa-se ficar a olhá-lo indecisa quanto aos sentimentos. De qualquer modo, não lhe apetece parar, está farta de se conter, de ser o elemento lúcido e responsável.&lt;br /&gt;Não precisas de te acanhar, maninho, diz ela, todos aqui sabem o que te aconteceu. Loucura momentânea, determinou o juiz. Ela era uma cabra, também sabemos isso, até a mim exasperava, mas não valia a pena teres-lhe feito aquilo. Logo no dia em que te deixou. Inteligente era teres-lhe agradecido, grandessíssimo tonto.&lt;br /&gt;Oh não, não o devias ter dito, mana. Não a devias ter evocado. Tantas camadas de tinta que ele passou sobre aquele tempo, tela após tela a recobrir o passado e agora ela é evocada e trazida à luz do dia num almoço de amigos. Continuou a amá-la mesmo depois do último estremecimento debaixo da almofada com que a sufocou.&lt;br /&gt;Simão levanta-se. A irmã pensa que ele vai buscar outra asa de frango para disfarçar o constrangimento, o imbecil. Mas é a faca de trinchar que ele traz na mão e lhe passa de imediato na garganta com a subtileza de um profissional. O sangue de Simonetta é escuro como o de um touro de liça e mistura-se com o arroz no prato como se se misturasse com a areia da arena.&lt;br /&gt;Os convidados à volta da mesa olham-no, imobilizados, brancos de espanto e medo. Simão hesita mas depois despede-se, os meus sentidos pêsames. Ninguém esboça um gesto, ninguém murmura uma palavra. Ele apercebe-se de como finalmente conseguiu impressionar a audiência, mas o sabor do sucesso é amargo. Ainda assim repete, os meus sentidos pêsames, e ocorre-lhe que estas palavras poderiam agora estar a ser tomadas como uma piada, como se ele fosse dado a brincadeiras. Tanto mais que não consegue deixar cair aquele sorriso eterno.&lt;br /&gt;Ao sair para o quintal das traseiras nota o sol de Verão coado pela ramada antiga de morangueiro. Não evita dizer para si mesmo que está um belo dia para um enterro. Mas depois lembra-se com incerta contrariedade que os enterros raramente ocorrem no dia do decesso. Estala os lábios com pena e mete pelo atalho da bouça, a pensar que se pudesse voltar atrás um ano ou dois fazia as coisas de forma diferente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-5934288895176849198?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/5934288895176849198'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/5934288895176849198'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/06/almoco-de-domingo.html' title='Almoço de Domingo'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-4285001395432470503</id><published>2009-06-10T03:50:00.004+01:00</published><updated>2009-06-10T03:56:46.182+01:00</updated><title type='text'>[Confirmou-se ontem um novo óbito]</title><content type='html'>Há-de arquivar-se.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-4285001395432470503?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4285001395432470503'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4285001395432470503'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/06/confirmou-se-ontem-um-novo-obito.html' title='[Confirmou-se ontem um novo óbito]'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-1583613898820134898</id><published>2009-05-26T02:47:00.000+01:00</published><updated>2009-05-27T02:51:11.890+01:00</updated><title type='text'>Todos os homens são criminosos</title><content type='html'>Ultimamente, disse-lhe eu, interessavam-me as páginas de polícia dos jornais. Achava espantosa a profusão de casos, a frequência e a diversidade, a selvajaria impetuosa de uns e o requinte conspirativo de outros, todos cruéis, todos levados a cabo como se não houvesse mais no mundo do que os interesses, as necessidades, o ponto de vista dos perpetradores. Roubos, sequestros, violações, assassinatos fascinavam-me tanto quanto me horrorizavam, e a prosa objectiva dos jornais sérios que lia estimulava a minha imaginação como a dos periódicos sensacionalistas excitava os instintos da populaça. Era no não dito que eu mais me detinha, no hiato entre o início do golpe e o cadáver pronto para a autópsia, na febre que os vingativos experimentavam e não era assunto da imprensa, na psicologia dos violadores, na sanha dos assassinos, naquilo que só a literatura poderia explorar mas que a literatura geralmente transformava quando o explorava.&lt;br /&gt;Havia muito de mórbido no meu interesse, reconheci, mas também um espanto insatisfeito com a natureza humana. Aquelas páginas dos jornais não eram um intervalo, um pormenor defeituoso da civilização; eram fulcrais, a parte visível e concretizada de um ânimo que fervia em lume brando em cada peito. Todos os homens eram criminosos em potência e vontade, era esta a minha tese, e as razões por que alguns se continham eram o mistério que importava estudar.&lt;br /&gt;Líamos a imprensa do dia numa esplanada da praça, pernas cruzadas, cigarro nos lábios e uma bebida na mesinha redonda. Um hábito antigo que retomámos com naturalidade quando Octávio e eu reactivámos uma amizade de toda a vida, depois dos seus três anos de ausência, três anos que ele ainda evitava. Não tínhamos necessidade de mais conversa do que os breves comentários a esta ou aquela notícia, por isso não estranhei o silêncio quando lhe falei nestes meus novos interesses e reflexões, coisas que eu próprio ignoraria até à próxima edição do periódico. Mas percebi, porque olhei para ele enquanto falava, que as minhas observações o conduziram ao mesmo tipo de noticiário no seu jornal, talvez por necessidade de ilustrar o que ouvia.&lt;br /&gt;Manteve-se em silêncio a explorar a perversidade humana e, depois de se ter demorado numa curta reportagem, pousou as folhas abruptamente na mesa e segurou a cabeça com as mãos, como se acometido por enxaquecas de que antes não padecia. Isto é absurdo, disse Octávio, abandonando o tom desapaixonado que o caracterizava, desde que me levantei não paro de tropeçar em coisas estranhas. Esperei que ele continuasse, não funcionávamos como outros interlocutores, era o silêncio de um que alimentava a conversa do outro. E ele continuou, nisto não tinha mudado. A primeira coisa que quis fazer quando saí de casa, disse, foi levantar dinheiro, mas a máquina, como todas as que tentei depois, comunicou-me que o meu banco não autorizava a operação, e nem consultar o saldo me era permitido. Por isso te disse que hoje pagavas tu, disse ele. Fiquei intrigado com aquilo, continuou, e regressei a casa para ver na internet o que se passava, não era possível que a conta não tivesse dinheiro. No entanto, lá estava a mesma mensagem, não tinha autorização para aceder a algo que era meu. Fiquei irritado, disse Octávio e eu tentei imaginar como seria o Octávio irritado, e alterei os meus planos. Não passearia no parque e viria directamente para aqui, fazer horas para o nosso almoço. Algum problema nas comunicações, sugeri, mas Octávio não concordava e manifestou-o abanando a cabeça. Não me parece, retorquiu, e pareceu-me menos quando me ia enfiar no chuveiro e descobri que não havia água quente, o gás não chegava ao esquentador. Octávio não era descuidado, não deixaria contas por pagar, por isso nem fiz a pergunta. Poderia ser só um daqueles dias de azar, disse ele, mas não me foi dado tempo para acalentar esta explicação, em que já não acreditava, de qualquer modo: quando liguei o microondas para aquecer um pouco de leite percebi que entretanto ficara sem electricidade e quando já me ia contentar com um copo de água da torneira, era a água que tinha sido cortada. Água, gás, electricidade, os três elementos da vida doméstica moderna foram-me recusados, como antes tinha sido o dinheiro. Esbocei um sorriso paternal, não era uma coisa assim tão extraordinária, aqueles cortes nos abastecimentos ocorriam por vezes em simultâneo quando havia obras na rua, as tubagens e os cabos partilhavam a mesma vala. Mas Octávio recostou-se com um ar abatido, à espera que me desaparecesse o sorriso.&lt;br /&gt;Sim, voltou ele depois de uma pausa, e os fios de telefone também estão enterrados ali, suponho que não me deveria espantar ter ficado depois sem linha. Já os telemóveis… Tu ligaste para mim, sabes que fiquei sem cobertura. Continuo assim, aliás, e somos da mesma rede. Era verdade, tínhamos confrontado os aparelhos quando eu cheguei e o censurei por se ter deixado ficar incontactável. Mas há outras coisas, ia prosseguir com veemência Octávio quando teve de se interromper porque chegava uma conhecida nossa que, jovial, pedia permissão para se nos juntar na mesa. Octávio teve um gesto de enfado, delegava em mim a decisão e a diplomacia, ele tinha outras preocupações e não se importava de parecer rude. Retribuiu secamente os cumprimentos e enfiou o nariz no jornal à espera que voltássemos a ficar sós. Eu pus-me na conversa com Alexandra, espiando-o de início, dando-me conta de que ele não lia uma frase, embora não retirasse os olhos do jornal.&lt;br /&gt;Três anos antes Octávio teria ficado muito excitado com a presença de Alexandra, uma velha paixão, mas agora ignorava-a, nem disfarçando o desejo de a ver partir. Era evidente que alguma coisa de grave o atormentava e eu devia arrepender-me da ligeireza com que encarava o seu relato.&lt;br /&gt;Infelizmente, Alexandra parecia muito interessada em ficar e eu, ao contrário de Octávio, não resisti à sua presença e ao seu canto de sereia: em poucos minutos estava pendente da coqueteria da nossa amiga e muito distante das preocupações de Octávio. Inclinei-me sobre o lado esquerdo da mesa, sobre Alexandra e o seu decote, e era tarde quando me dei conta que Octávio se afastava, jornal debaixo do braço, levantando bandos de pombos na praça. A religião diz que há um tribunal para a luxúria e eu hoje interrompo a minha descrença para me declarar réu e aceitar o castigo.&lt;br /&gt;Nos dias seguintes não tive notícias de Octávio. Os telefones continuavam fora de serviço e de todas as vezes que passei em sua casa não o consegui ver, ainda que, soube mais tarde, ele não tivesse saído. A campainha da entrada, como os demais aparelhos, não funcionava, mas se ele estivesse disposto a falar comigo teria respondido às pancadas na porta, suficientemente fortes para atrair a curiosidade e a censura dos vizinhos.&lt;br /&gt;No quinto dia depois da minha traição com Alexandra recebi uma carta. Suponho que se os correios não tivessem aceitado selar-lhe o envelope Octávio teria encontrado outra forma de me fazer chegar as suas palavras.&lt;br /&gt;Abri o sobrescrito com nervosismo sem evitar rasgar uma parte da carta dentro dele, o que dificultou ainda mais a leitura da sua destreinada ortografia. Eis o que me causou nova desolação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Meu grande amigo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sábado dia tive de sair sem me despedir, espero que me possas perdoar. A Alexandra não peço desculpa, não foi convidada, e, se tivesse ganho alguma da sensibilidade de que tanto precisou sempre, teria percebido que interrompia uma conversa e retrocedido de imediato nos seus passos de mulher fútil.&lt;br /&gt;Ganhei finalmente ânimo para continuar o que te contava, ainda que não o suficiente para to contar pessoalmente.&lt;br /&gt;Passo em alto os pormenores, basta que te diga que o meu nome está hoje proscrito, nada que o tenha aposto é tolerado onde quer que seja. Terás reparado que preenchi o remetente com iniciais, mas eles não demoram a negar-me também essa identidade acrónima. Sou um pária encurralado na minha própria terra, não posso deslocar-me senão à boleia ou a pé, escondendo-me de quem quer que possa por direito pedir-me identificação. Para comer, as poucas vezes que tive de o fazer, recorri à sopa dos pobres, e, se queres saber, não foi isso a pior coisa que me aconteceu.&lt;br /&gt;Ali mesmo, na praça onde estávamos tu e eu, comecei a entender o meu problema. Falavas do teu interesse nos casos de polícia e eu por simpatia fui espreitar essas páginas. Interessei-me por uma notícia em particular, a de uma mulher que acordara de um coma de dois anos e começara de imediato a exigir ser ouvida pela judiciária.&lt;br /&gt;Era um episódio bizarro. A mulher tinha sido vítima de agressões graves causadas pelo companheiro da altura, um homem que ela mantivera longe do conhecimento de familiares e amigos e que a polícia não pôde identificar. Durante os dois anos em que ela esteve em coma, aos familiares não restou mais do que apresentar queixa contra desconhecidos e sustentar as despesas do hospital.&lt;br /&gt;Um dia a mulher recuperou a consciência e quase toda a memória. Digo quase porque se era certo que tinha bem presente o momento da agressão e o sentimento de vingança ou justiça também era verdade que não recordava coisas importantes como o nome, a profissão, a morada, até a nacionalidade do seu amante e agressor.&lt;br /&gt;É por isto que a neurologia é uma ciência fascinante, a mais fascinante delas. Quando o cérebro se lesiona os resultados podem ser imprevisíveis e surpreendentes. Duma pancada na cabeça pode resultar a morte ou alterações permanentes da integridade física ou da personalidade da vítima. Mas ocasiões há em que de acidentes mais críticos não decorre aos que os sofrem mais do que um mal-estar e talvez alguma cirurgia reconstrutiva, complicada só do ponto de vista médico.&lt;br /&gt;Esta mulher sofrera ferimentos consideráveis no corpo, provocados por bofetadas e pontapés, e fora atingida na cabeça por um objecto metálico, que induzira o coma. Inicialmente os médicos acreditavam que ela não recuperaria da pancada e que se recuperasse haveria sequelas muito graves ao nível das capacidades cognitivas. No entanto, ela despertou como se apenas tivesse decorrido uma noite, pronta a apresentar queixa do comportamento selvagem do seu companheiro.&lt;br /&gt;Neste momento perguntas-te, como costumas, que raio tem isto a ver com o meu afastamento. Pois bem, vou esclarecer-te.&lt;br /&gt;Há três anos saí desta cidade. Sei por que saí, sei para onde fui e sei quase tudo o que fiz. Quase tudo não é tudo. Quando regressei senti que fugia de alguma coisa, mas não conseguia lembrar-me de quê. Tentei retomar a vida anterior e fingir que não existia um hiato na minha memória. Não posso dizer que o consegui totalmente. Nos dois meses que levo aqui, raras foram as noites em que me não acometeram pesadelos terríveis e indecifráveis.&lt;br /&gt;Os contratempos que me aconteceram no sábado foram apenas um corolário da noite da véspera. Mas, se despertas de um pesadelo e percebes que ainda o vives, os sentidos ficam mais alerta e ganhas finalmente disposição para sondar o teu espírito. Naquela manhã tinhas-me ali pronto a enfrentar os fantasmas que quisessem aparecer. Não de forma voluntária, não queria nada daquilo, mas como auto-prescrição para o que me afligia.&lt;br /&gt;De forma que li a notícia, em parte estimulado pelo teu discurso, em parte por curiosidade com as partidas da memória e com aquele caso em particular.&lt;br /&gt;A mulher, como te disse, não conseguia lembrar-se do nome nem de outros dados que permitissem chegar objectivamente ao agressor, mas estava capaz de o descrever com profusão de pormenores. E fê-lo, mal teve um agente da judiciária à cabeceira da cama onde a mantinham para exames.&lt;br /&gt;Não sei se foi o agente que vendeu os pormenores da história ao jornal ou se havia algum repórter presente no depoimento da mulher. Sei que a notícia a dada altura citava as suas palavras e eu, ao lê-las, vi construir-se à minha frente um retrato, como se alguém sentado na nossa mesa o pintasse. Não, um retrato não é a palavra certa, o que estava a ser posto à minha frente era um espelho.&lt;br /&gt;E pronto, já vês onde quero chegar. Talvez me devesse alegrar por ver iluminadas as partes escuras da minha vida, ver, ainda que por olhos alheios, o que a minha memória obliterava. Mas não consigo ter essa grandeza. Sou um homem acossado, vítima da curiosidade e da própria cobardia. Preferia continuar na ignorância. Somos uns tolos em querer lembrar tudo, conhecer tudo. O nosso cérebro faz um trabalho magnífico com o seu jogo de claro/escuro, a luz onde convém, sombras sobre tudo o resto, sobreviver é o que importa. Mas nós sentimo-nos acima da biologia, acima da natureza, acima do instinto, queremos apontar holofotes a tudo, admirar com meridiana clareza o lado escuro da lua. Atraímos as consequências e depois é demasiado tarde.&lt;br /&gt;É demasiado tarde, compreendes? Demasiado tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O teu amigo&lt;br /&gt;Octávio&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Reli a carta apenas para confirmar que não delirava. Depois procurei em casa os jornais de sábado, mas só nos arquivos da edição &lt;em&gt;online&lt;/em&gt; consegui encontrar a notícia de que Octávio falava. Era uma ideia espantosa, a dele. Octávio acreditava ser o agressor daquela mulher.&lt;br /&gt;Tive então consciência de quão profundamente o meu amigo estava perturbado. Não era apenas uma certa disposição para deduzir teorias conspirativas a partir de um conjunto de azares sobrepostos, coincidências espantosas. Era uma apetência para a auto-flagelação, uma imaginação masoquista que adivinhava pecados onde só havia banalidades, coisas indignas de perdurarem na memória pela sua vulgaridade, não por serem abomináveis. Devia ter-lhe acudido naquele sábado infame.&lt;br /&gt;Octávio era inofensivo. Não estava na sua índole infligir sofrimento a ninguém, muito menos no grau descrito pelo jornal. O seu sentimento de culpa, pensei eu, devia ter aflorado por razões radicalmente diferentes. Talvez Octávio sentisse que os três anos de ausência tinham sido uma perda de tempo, um projecto falhado na sua vida. Era um período que o incomodava por não ter frutificado, por não ter representado mais do que um intervalo inútil na sua linha temporal. Um intervalo em que ele se afastara das pessoas queridas, deixara desamparadas amizades, relações de toda a vida. Octávio saíra para obter alguma coisa nova e regressara derrotado no seu propósito.&lt;br /&gt;Eu conseguia compreender que ele andasse obcecado com as razões do seu fracasso, que revisitasse aqueles três anos para descobrir o momento em que tudo começara a correr mal. Mas era para mim uma surpresa total que isto pudesse perturbar a mente de um homem ao ponto de o fazer alucinar. Eu tinha a certeza que Octávio não era um criminoso e estava disposto a jurá-lo.&lt;br /&gt;As notícias seguintes sobre o caso reforçavam a minha crença. Dada a insistência da mulher em que fossem tomadas diligência contra um homem que ela não conseguia nomear mas conseguia descrever, a polícia mandara construir e divulgar um retrato-&lt;em&gt;robot&lt;/em&gt;, não propriamente com a palavra &lt;em&gt;wanted&lt;/em&gt; em cima, mas com um número de telefone para recolha de informações. Parecia-me uma certa precipitação por parte da polícia, mas naquele momento teve efeitos bastante positivos no meu estado de espírito. O retrato confirmava as minhas certezas: só uma imaginação retorcida poderia ver naquele rascunho os traços de Octávio. Um cabelo diferente, um outro rosto, um outro olhar.&lt;br /&gt;Saí a correr de casa com uma cópia impressa da imagem, disposto a esfregá-la na cara de Octávio, depois de o obrigar a receber-me. Incomodava-me o tom dramático da parte final da carta, mais do que as ideias absurdas que insinuava antes. Aquele não era o estilo de Octávio, mas era definitivamente a letra dele. Quando alguém começa a escrever coisas assim temos talvez de lhe conceder alguma importância, se formos verdadeiros amigos.&lt;br /&gt;À chegada ao seu apartamento havia uma pequena multidão e alguns agentes da polícia. Imaginei o pior, mas não imaginei um mal suficientemente grande. Octávio estava cadáver, mas não estava o suicida que eu temi. O seu corpo jazera sob o impacto das balas da polícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns dias depois da minha mágoa e do meu estupor, foram-me dadas explicações. Tinha sido escusado indignar-me e bater no peito. Compreendo que não fosse sensível à eficácia do retrato-&lt;em&gt;robot&lt;/em&gt;, disse-me o agente encarregado de ter paciência comigo, afinal nenhum de nós aceita de ânimo leve que se aponte o pior a um amigo. Nós próprios tínhamos algumas reservas, continuou, as que impõe o regulamento, claro está, mas o senhor Octávio encarregou-se de as desfazer. Recebeu-nos a tiro e vendeu cara a vida, por pouco não tomou nenhuma das nossas. Você sabia, perguntou-me retoricamente, que o seu amigo guardava um pequeno arsenal em casa? Não, eu não sabia, e mantinha desesperadas dúvidas quanto à sua culpa. Mas o agente estava preparado para elas e para o meu espírito debilitado, devia ter alguma pós graduação em psicologia. Sabe, disse-me ele, os meus colegas dispararam para se defender e os que o atingiram estariam agora a braços com os seus escrúpulos se não tivéssemos a certeza de que Octávio era culpado.&lt;br /&gt;Escrúpulos, disse ele, e a mim só me ocorreu que todos os homens eram criminosos em potência e vontade. Havia um exame de ADN, prosseguia o agente, fora recolhido esperma do agressor e retiraram-se amostras do cadáver quente de Octávio, mas eu estava a deixar de o ouvir, absorto em ideias de reparação e vingança.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-1583613898820134898?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/1583613898820134898'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/1583613898820134898'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/05/todos-os-homens-sao-criminosos.html' title='Todos os homens são criminosos'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-8968312319012914849</id><published>2009-04-22T02:08:00.001+01:00</published><updated>2009-04-23T04:43:47.951+01:00</updated><title type='text'>Um terraço em Davos</title><content type='html'>&lt;em&gt;Isto tem de ser tudo tão triste. Sim, é uma afirmação. Passámos já a fase da perplexidade, do questionamento, da recusa. Não há outra forma, nada além da tristeza. E, sabes que mais?, gostamos disto assim. Podemos talvez temperar as coisas com um pouco de raiva, um pouco de revolta, mas no final aceitamos o que tem de ser. Não, a raiva e a revolta não são, sequer, resistência. Tempero não é negação, é calçadeira, funil, lubrificante, é tudo aquilo que ajude a empurrar o que de amargo temos a engolir ou a usar. E depois vem a habituação. Estamos habituados à tristeza, não podemos viver sem ela. Mesmo que consideremos por bizarra coerência a hipótese de deixar de viver, de por métodos artificiais interromper isto que é tão triste. E tão bonito.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;A Montanha Mágica &lt;em&gt;era um livro inútil, mas lembras-te do terraço. E da manta pelos joelhos. Mais acima dos joelhos, que ali fazia realmente frio. Sim, afirmo-o, sei que te lembras. Mesmo quando não te lembravas de nada do livro, recordavas o terraço. Que ideia estranha, e bela, subir a montanha para ficar deitado num terraço com os joelhos cobertos por uma manta.&lt;br /&gt;Vieram depois os malefícios da ciência: ao doente por fim negou-se o enigma, a possibilidade arrebatada de confiar ao ar e à lenta passagem do tempo a resolução de uma dor nas entranhas, de um quebranto, de um mal de viver (que nunca se explica, de qualquer modo).&lt;br /&gt;Isto tem de ser tudo tão triste para que faça algum sentido, seja suportável morrer. Desejável.&lt;br /&gt;Pulmões. Localizemos nos pulmões — porque temos de lhe atribuir um domicílio — o mal. Receita-te o ar raro e puro de um sanatório a mais de dois mil metros de altitude. Eis a tua desculpa para abandonares o chão que pisas e o resto que houver, o próprio tempo em que vives. Deixa na mesa da sala um veemente conjunto de brochuras e planos de viagens e vem até cá cima. Sobe num desses teleféricos de esquiadores (agora com a neve derretida mais vazios e lentos) e apeia-te num ponto donde possas ver este velho edifício, donde não te pareça irreal a esquiva construção que erguemos num momento que nos pareceu feliz.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Acordou com o sol a aquecer-lhe intensamente os ombros nus e a tornar translúcidas as pálpebras. Ainda não tinha aberto os olhos e já tudo era claro, de uma luminosidade rosácea, coada por cortinas de dossel. Era só ela no meio de um vasto leito inundado de sol. Pensou como fracassavam as pálpebras — o corpo inteiro — em opor-se ao mundo exterior. Sentiria frio, se estivesse frio, como agora sente calor e a textura da rocha; ouviria o tráfego intenso, se no seu lugar não existisse um silêncio desolado e ventoso; cheiraria combustíveis e refeições apressadas, em vez de odores silvestres que não sabia identificar; nos seus lábios gretados prender-se-ia o fumo de um cigarro ou o unguento de um batom ou o amargo grão de um café &lt;em&gt;expresso&lt;/em&gt;, se não fosse de uma erva entalada nos dentes o sabor que dominava; e quando abrisse os olhos para receber ainda mais claridade seria penetrada pela devastadora presença de um milhão de vizinhos como agora o era pela súbita ausência de todos eles. O mundo arranjava sempre maneira de atravessar a fina membrana que envolvia a alma, a consciência. Não ganhava nada em permanecer de olhos fechados e recusar saber: o dia tinha nascido e o sol brilhava num céu limpo. Podia apostá-lo.&lt;br /&gt;«Então é assim», pensou, «é isto acordar viúva.»&lt;br /&gt;Era Julho e na encosta não havia qualquer vestígio de teleférico ou ruína de sanatório. Dificilmente naquela serra a neve se aguentava além de uma semana ou duas, mesmo nos invernos mais rigorosos. Mas isso era um pormenor, Helena sabia que a importância não estava nos detalhes. Sentia-se bem capaz de encontrar ali o seu terraço em Davos, a cura impossível para uma enfermidade que se agravava à medida que a ia descobrindo, que a ia nomeando.&lt;br /&gt;Bebera um pouco demais na noite anterior, claro que bebera. Nisso não tinha agido diferentemente. De resto, precisara de vencer alguns medos supérfluos para chegar ali acima.&lt;br /&gt;Não tinha querido demorar-se, era um imperativo estar lá quando acordasse para o primeiro dia sem ele.&lt;br /&gt;Outra no seu lugar teria recorrido a uma agência, viajado para uma altitude mais respeitável, mas quando consultou alguns panfletos percebeu que não era de uma coisa literal que precisava, e a urgência não se coadunava com preparativos. Simplesmente meteu-se com uma garrafa no carro e conduziu uma boa parte da noite.&lt;br /&gt;A notícia da morte surgiu com o espanto em que vêm imersas as primeiras vezes. Morrem milhares de pessoas por hora no mundo e Helena sabia que só quando nos desaparece o primeiro conhecido é que pressentimos como pode ser frio o bafo da velha senhora. O primeiro ente querido morto, pensava ela, é toda uma iniciação, uma reaprendizagem do mundo. Nada do que sabíamos antes se adequa à experiência, centenas de páginas desbaratadas, relatos que nem sequer afloraram o cerne do momento. É simplesmente demasiado estúpido, ilógico, que os que amamos possam morrer.&lt;br /&gt;Helena tinha um conhecimento indirecto de tudo isto (ninguém lhe morrera antes) e reflectia por vezes sobre o tema. Os seus pensamentos, ao mesmo tempo que a preparavam para a novidade absoluta que viria com a morte, ao mesmo tempo que se exercitavam para o instante da infame revelação, reproduziam exactamente o mesmo tipo de autoconfiança de que padeciam os demais humanos.&lt;br /&gt;Ficou destroçada com a notícia.&lt;br /&gt;Num minuto ele estava ali — distante, é certo — e no seguinte não existia. Ah, como queria acreditar na vida eterna, confortar-se pensando que, mais uns anos, e juntar-se-lhe-ia. Ou antes disso, se fosse determinada o suficiente. Havia um lado optimista que ela gostaria de estar apta a explorar.&lt;br /&gt;Não escondia de si própria o facto de que nos últimos tempos estavam tão afastados quanto podem dois seres vivendo nos antípodas estar afastados. No últimos tempos e antes deles. Ele habitava o pensamento dela, sem dúvida, o seu coração, se quisermos usar linguagem pateta, mas não havia como negar os quatro ou cinco anos que ele se mantivera longe do toque dela, longe da vista, na verdade. Para ser exacta, não falavam sequer por telefone há quatro anos e sete meses. Nem valia a pena referir medidas de tempo mais estritas, embora ela tivesse essa contabilidade feita.&lt;br /&gt;Não chegara a haver divórcio. Também não chegara a haver casamento. Ou algo que se aproximasse. Conheceram-se. Conheceram-se num dia de celebração da natureza. Um daqueles dias tão belos e tão perfeitos em que o amor é uma coisa fácil e acontece. Um só olhar e as pessoas apaixonam-se. Ele estava ali, ela estava ali. Ela amou-o à primeira vista.&lt;br /&gt;Era uma excursão organizada. Um grupo pequeno, seis ou sete elementos. Por vezes, pessoas como ela ansiavam por uma possibilidade de conhecer mais intimamente a Natureza e tudo o resto. Não tinha sido sua iniciativa, mas, por Deus, há que tempos pensava numa coisa assim. Agarrou a oportunidade com unhas e dentes.&lt;br /&gt;Era opinião unânime que não lhes podia ter calhado melhor guia, analisassem o assunto pelo ângulo que quisessem. Ele tinha sido a pedra justa no melhor &lt;em&gt;puzzle&lt;/em&gt; do mundo. Debitava um conhecimento enciclopédico — de biólogo, ou quase —, mas ministrado com suavidade, humor, paciência, perspicácia, e personalizado. Ninguém se sentia deixado para trás e ela muito menos. Depois (as mulheres tinham falado disto) havia alguma coisa naqueles cabelos longos, soltos, naquele torso despido da&lt;em&gt; t-shirt&lt;/em&gt; ao fim dos dois primeiros quilómetros, «com a devida permissão do grupo».&lt;br /&gt;Acamparam numa clareira num colo da montanha. Ele estabeleceu os limites do grupo, um conjunto de elementos topográficos assinalava pontos além dos quais não deviam passar, sob risco de quedas, extravios, encontros indesejados com feras. Talvez exagerasse um pouco o seu papel (aquilo não era África!), mas fazia-o com delicadeza e genuína preocupação (talvez aquilo fosse África, para gente como ela). Depois subiu a uma plataforma rochosa com o cantil amarrado à ilharga e um livro grosso na mão. Dali de cima dominava uma vasta paisagem e metia inveja por isso.&lt;br /&gt;Helena demorou três ou quatro vezes mais do que ele a chegar, mas sentiu o que talvez sintam os pioneiros: exaltação e omnipotência. Sim, naquele dia podia fazer tudo.&lt;br /&gt;Estava habituada a ver gente a ler no metro. Não muita, razão por que era excitante observar os que o faziam. Costumava pensar a brincar que aqueles, os que liam, eram os únicos que pensavam, os outros limitavam-se a agir, a dar asas aos instintos. Talvez por isso tenha sentido um pouco de vergonha quando notou que os instintos tinham participado fortemente na decisão de subir até ao promontório rochoso, e que eram ainda os instintos, os instintos de fêmea, que sustentavam uma grande parte da sua curiosidade em relação àquele homem.&lt;br /&gt;Mas havia mais do que desejo. Podia aliás asseverar, sem perjúrio, que o desejo tinha ficado para segundo plano quando minutos depois o conheceu. Agora que pensava no assunto, iria detestar sentir-se viúva de alguém por quem apenas experimentara desejo.&lt;br /&gt;Poucas vezes lhe passara pela cabeça ler Thomas Mann. Quer dizer, poderia ler um dos livros mais pequenos, talvez, mas &lt;em&gt;A Montanha Mágica&lt;/em&gt; estava na mesma prateleira do &lt;em&gt;Ulisses&lt;/em&gt; e do &lt;em&gt;Em Busca do Tempo Perdido&lt;/em&gt;, uma prateleira muito fora de mão nos dias que corriam. No entanto ele começou a falar do livro e a Helena só lhe apetecia ir a correr à biblioteca ou a uma livraria para obter o seu exemplar. Há pessoas assim, entusiasmantes, que contaminam os assuntos, derramam carisma sobre os objectos, transformam em ouro aquilo que tocam ou mencionam.&lt;br /&gt;O ocaso foi demorado e só desceram quando escurecera de facto. Nas semanas seguintes, Helena tentou reconstruir inúmeras vezes aquele período, mas faltava-lhe sempre algum pedaço. Não se lembrava, por exemplo, de como tinham caído nos braços um do outro, e nem lhe passava pela cabeça que isso não tivesse acontecido. Tinha acontecido, não tinha? Como poderia ela apaixonar-se daquela maneira se não tivesse sentido o sabor dos seus lábios, experimentado o seu abraço forte? Não se lembrava.&lt;br /&gt;Disto lembrava-se: da imensa generosidade dele, expressa naquele gesto maravilhoso que foi depositar-lhe o livro na mochila no regresso e dizer-lhe «é para ti, gostava que o lesses».&lt;br /&gt;E ela leu-o. Uma vez, duas vezes, três vezes. Nos quatro anos (e sete meses) que se seguiram àquela tarde, voltou à &lt;em&gt;Montanha Mágica&lt;/em&gt; como as crianças voltam ao colo da mãe.&lt;br /&gt;Iniciou a primeira leitura de uma forma ávida, apressada, queria absorver rapidamente o volume de forma a poder encontrar-se de novo com dele. Sentia aquilo como uma prova, um ritual de passagem. Leria o livro e amá-lo-ia incondicionalmente depois disso. Imaginava-se a telefonar-lhe uma semana depois do acampamento anunciando o fim da leitura e a vontade de discutir várias partes ou toda a obra. Poderia parecer um móbil, aquilo, uma desculpa para se encontrar com ele, mas, sinceramente!, por que precisaria Helena de uma desculpa?&lt;br /&gt;Talvez o erro, o que afastou a possibilidade de um novo encontro, tivesse sido ligar-lhe quando ainda só tinha devorado cem páginas. Que raiva! Soube de imediato que se estava a precipitar, mas não conseguiu impedir-se. Era um abuso querer trocar impressões logo no início da tarefa. Ela própria teria torcido o nariz a alguém assim, com esta pressa, impaciente, incontinente. Ele não atendeu o telefone e Helena percebeu logo porquê. Se atendesse, ela teria notado o seu tom aborrecido, desiludido, e alegrou-a que ele a poupasse a essa humilhação.&lt;br /&gt;Claro que, se ela tivesse podido explicar-lhe que tinha outras razões para o telefonema, as coisas poderiam ter acontecido de forma diferente.&lt;br /&gt;Havia uma folha A4 dobrada no meio do livro, algo que a excitou imenso, um texto incerto, mas que lhe pareceu uma carta e por isso decidiu que era uma carta. Mesmo antes de ler o papel deu consigo a calcular as probabilidades de não se tratar de um esquecimento, de ele ter deixado propositadamente a folha no meio das páginas que lhe pedira para ler. Ligou-lhe sem espreitar o que quer que estivesse escrito naquela folha, obedecendo a um dos princípios positivos da sua educação.&lt;br /&gt;Mas depois, não tendo ele atendido, leu-o de uma assentada.&lt;br /&gt;Nada indicava que lhe fosse dirigido (era uma papel impresso e não havia impressoras na montanha), mas ela não conseguiu libertar-se completamente da ideia de que alguma parte daquele texto ou mesmo todo o texto lhe era endereçado. Por que haveria de o não ser? Naqueles cinco parágrafos estava resumida a sua vida, ela era aquele texto. Ou quase. Mal terminasse de ler &lt;em&gt;A Montanha Mágica&lt;/em&gt; poderia reclamar com toda a propriedade o lugar de destinatário.&lt;br /&gt;Ok: &lt;em&gt;tecnicamente&lt;/em&gt; aquela não era uma carta para si, não poderia ser, fora escrita antes de se conhecerem. Ela não estava louca, não valia a pena insistirem nesse tipo de argumentos. Não conseguia lembrar-se de algumas coisas, era tudo. Mas, por outro lado, o que sabem os técnicos de coisas como o amor? Todas as cartas têm um destinatário definido logo que são escritas? Tudo é assim tão previsível, tão discernível?&lt;br /&gt;Ah, não!… Ela sabia desde Hamlet que há mais coisas entre o céu e a terra do que nos é dado crer. E Helena não amaria um homem que escrevesse palavras daquelas para outra. Mesmo um homem que vira uma única vez.&lt;br /&gt;No entanto, tudo era agora inútil. Quatro anos e sete meses depois de se conhecerem, ele morrera. Estava viúva.&lt;br /&gt;Olhou em volta, espreitou o vale lá em baixo, aconchegou-se no seu promontório e, apesar do calor, puxou para os joelhos a manta de xadrez. Começou a ler: «Um rapaz simples viajava, em pleno Verão, de Hamburgo, sua cidade natal, para Davos-Platz, no cantão dos Grisões.»&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-8968312319012914849?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/8968312319012914849'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/8968312319012914849'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/04/um-terraco-em-davos.html' title='Um terraço em Davos'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-5518234033594991616</id><published>2009-04-20T02:12:00.000+01:00</published><updated>2009-04-21T02:12:53.055+01:00</updated><title type='text'>[Prenúncio]</title><content type='html'>O arquivista foi lá dentro pôr os manguitos. Amanhã será dia de júbilo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-5518234033594991616?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/5518234033594991616'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/5518234033594991616'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/04/prenuncio.html' title='[Prenúncio]'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-1840393543598723616</id><published>2009-04-06T03:20:00.000+01:00</published><updated>2009-04-07T03:23:05.212+01:00</updated><title type='text'>[O tédio do arquivista</title><content type='html'>é quase tão grande quanto o dos leitores, mas enfim, lá se registou &lt;a href="http://arquivomortos.blogspot.com/2009/04/misteriosos-sao-os-caminhos-do-senhor.html"&gt;mais um &lt;/a&gt;conto.]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-1840393543598723616?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/1840393543598723616'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/1840393543598723616'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/04/o-tedio-do-arquivista-e-quase-tao.html' title='[O tédio do arquivista'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-4874001418980198526</id><published>2009-04-06T02:37:00.000+01:00</published><updated>2009-04-07T02:57:43.583+01:00</updated><title type='text'>Misteriosos são os caminhos do Senhor</title><content type='html'>Podia ter esperado pela lotaria e nesse caso a dificuldade seria decidir-se por um destino, embora lhe fossem todos um pouco indiferentes, desde que longínquos. Mas nunca acreditara na sorte, jogava como vivia: sem convicção e a dar o tempo por perdido. Não estava previsto um &lt;em&gt;deus ex machina&lt;/em&gt; na sua história, disso tinha certeza. A escolha era entre alimentar-se de ilusões — e sofrer as consequências — ou sair de cena a tempo.&lt;br /&gt;Com uma mochila quase vazia e um cigarro nos lábios, apanhou o comboio que estava no cais. Não teve o cuidado de ver antes qual o destino da composição, não era já altura de se pôr com esquisitices. Precisava de partir, não de chegar a lado nenhum.&lt;br /&gt;Estava um dia favorável aos meteorologistas: a probabilidade de um erro nas previsões era ridícula, não havia num raio de muitas centenas de quilómetros uma amostra de nuvens e as variações de pressão eram tão diminutas que parecia haver finalmente um equilíbrio na Terra. Era Agosto e os passageiros sorriam.&lt;br /&gt;A carruagem estava atulhada de bagagem, respirava-se um ar de terceiro mundo, com as gentes a aconchegarem sob as pernas e no colo as malas que não cabiam no espaço que lhes estava destinado. Dizia-se que o avião era um meio de transporte mais seguro (ele duvidava), mas parecia evidente que o comboio estava mais à vontade com o excesso de peso. Com um silvo a evocar o que havia de épico nos caminhos-de-ferro, a composição abandonou a estação.&lt;br /&gt;Não houve despedidas sentimentais, ninguém correu os últimos metros da plataforma a acenar, não havia passageiros debruçados nas janelas. Era uma vulgar partida para férias. Muitas das pessoas abandonavam a cidade por oito ou quinze dias. Outras nem sequer isso, regressavam a algum lado depois de uma semana de trabalho ou iam de uma cidade a outra no habitual movimento pendular das sociedades urbanas.&lt;br /&gt;John — era este o nome que acabava de escolher para si — esperaria pela passagem das estações para decidir o próximo passo. O primeiro fora, nessa amanhã, não tomar banho nem fazer a barba. Sentiu que cheirava um pouco dos sovacos, mas não se incomodou, não tardaria a carruagem inteira seria um manancial de exsudações. Talvez dormisse, não via porque não. De que lhe serviria ficar a matutar no que deixara para trás? Estava de saída e desejava que o gesto esgotasse toda a eloquência, toda a significação, toda a necessidade de argumentar, para os outros e para si. Havia uma expressão em latim para estas situações. Como era? &lt;em&gt;Quod erat demonstrandum&lt;/em&gt;. Tenho dito. Encerro o meu caso. Devia ter trazido um chapéu para agora descer sobre os olhos.&lt;br /&gt;Nas costas do banco da frente havia uma bolsa em rede e dentro dela estava um livro. Ele não tinha trazido nenhum, não era de palavras que precisava. Espreitou o seu vizinho à esquerda e teve a certeza de que o livro não lhe pertencia. Era um homem de meia-idade de bigode, com ar de primo de Saddam Hussein, como havia tantos na região. Do outro lado do corredor iam duas mulheres com bastante bagagem, mas era absurdo que a falta de espaço as tivesse levado a usar aquela bolsa para guardar fosse o que fosse. O livro teria ficado esquecido por algum passageiro numa viagem anterior e quem quer que estivesse responsável pela limpeza teve na passagem por ali o seu momento de distracção. Antes isso do que lixo.&lt;br /&gt;Sabia que não devia tocar-lhe, precisava de esvaziar a mente, não de a entreter ou de a atulhar com mais umas páginas de qualquer espécie de sabedoria literária. Por outro lado, não conseguiu reprimir uma certa felicidade adolescente. Não queria um livro, mas imaginava facilmente que em algum momento da viagem, se ela resultasse longa, haveria de sentir a falta de um. Ainda assim, para dar alguma coerência ao que estava a fazer, devia apenas alegrar-se por aquele estar ali — e resistir-lhe. Fazer da sua presença condição suficiente. Tinha um livro, podia ficar descansado quanto a isso — e fazer o seu caminho sem ele. Tomá-lo pela sua dupla condição de tábua de salvação e objecto inútil. Um anjo da guarda, tão reconfortante quanto intangível.&lt;br /&gt;Mas tirou-o da bolsa e abriu-o logo nas primeiras páginas.&lt;br /&gt;Irritou-se. Que raio estava a fazer? Podia permitir-se ceder à curiosidade numa altura destas? Não, claro que não. Mas cedeu, e as palavras manuscritas a esferográfica azul na página da epígrafe foram por momentos o centro do mundo.&lt;br /&gt;«Misteriosos são os caminhos do Senhor», dizia a epígrafe em itálico numa página de abertura do livro. Logo por baixo, alguém bem disposto acrescentara à mão: «Nem sempre. Eu dei uma ajudinha, desta vez. Este livro não veio parar às suas mãos por acaso ou determinação divina. Fui eu que decidi “esquecê-lo” aqui para que você (não necessariamente você, mas alguém) o pudesse encontrar. Considere-o um presente e faça bom uso dele. (Qualquer uso, menos destruí-lo, pode ser considerado potencialmente bom. Lê-lo seria só o melhor.)»&lt;br /&gt;A nota não estava assinada e não era disponibilizado nenhum contacto. Pela lei das probabilidades, isto tornava o autor alguém inalcançável e para sempre ignorante do efeito da sua acção. Aquelas palavras interpelavam um estranho que, salvo espantosa coincidência, jamais poderia agradecer a dádiva. Um estranho cuja reacção, de agrado ou desdém, o promotor da iniciativa tão-pouco poderia suspeitar.&lt;br /&gt;A não ser, claro, que estivesse a viajar no mesmo comboio naquele momento.&lt;br /&gt;John olhou em volta, mas ninguém tinha ar de estar a acompanhar os seus gestos, as suas expressões. Ninguém tinha aspecto de gostar deste tipo de iniciativas, uma espécie de &lt;em&gt;book crossing&lt;/em&gt;, ou lá o que era. Na verdade, tanto quanto podia ver, naquela carruagem ninguém parecia sequer do tipo de se interessar por literatura, e a constatação deixou-o satisfeito com a escolha que fizera ao entrar naquela linha.&lt;br /&gt;Ainda assim, pensou: que aspecto tem exactamente uma pessoa que se dedica a ler e a partilhar livros com estranhos? Releu a nota, como se nela houvesse pistas escondidas. Reparou no tom algo iconoclasta e nos parênteses. Um livre-pensador e um conversador. O tipo (ou a tipa) que escreveu a mensagem teria gostado de contar mais um par de coisas ao seu interlocutor desconhecido. Era alguém que dificilmente continha o discurso. Um tagarela, quiçá.&lt;br /&gt;Que lhe importava isso?&lt;br /&gt;Devolveu o livro à bolsa de rede. Talvez decidisse também ele “esquecê-lo” ali, fazendo suas as palavras manuscritas e tornando-se deste modo um anónimo para quem lhe sucedesse no banco. Afinal, não era isso o que mais desejava? Tornar-se anónimo? Mas ocorreu-lhe que possivelmente só lendo o livro primeiro poderia legitimamente subscrever a nota. Para ser um anónimo daqueles tinha de comungar antes de se libertar.&lt;br /&gt;Melhor fazer o que estava na sua cabeça desde o início.&lt;br /&gt;Levantou-se e foi ver se havia uma carruagem-bar. Passara tanto tempo desde a última vez que andara de comboio que nem sequer sabia se ainda existiam vagões daqueles. Nas carreiras de longo curso havia-os, certamente, mas nas ligações intercidades era possível que fossem agora considerados coisas supérfluas, uma despesa contrária à boa gestão empresarial. No entanto, duas carruagens à frente da sua lá estava o bar, apinhado de gente que bebia, o que sempre era uma surpresa para aquela hora anterior ao almoço.&lt;br /&gt;Havia pessoas, homens e mulheres, com um copo na mão ou a fumar disfarçadamente junto às janelas abertas da carruagem. Não era sumo ou água o que bebiam, e não era tabaco o que fumavam. Dizer-se que o trem tinha sido tomado por uma comunidade &lt;em&gt;hippie&lt;/em&gt;, como parecia, era inexacto e injusto para os jovens militares que também faziam a viagem e bebiam e fumavam e marcavam a sua presença de forma igualmente tribal. John passou pelo meio dos dois grupos para conseguir chegar ao balcão. O &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt;, um daqueles populares que só os ares da capital sabiam formar, um campónio com vocabulário e sotaque urbano, lançava por cima das cabeças olhares reprovadores, mas impotentes. John pediu um martini com cerveja e recebeu uma garrafa para a mistura, não havia cerveja de pressão. O &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt; ia iniciar uma conversa, mas John virou-lhe as costas e foi beber para o canto mais afastado do balcão e dos outros passageiros. Ainda assim, não evitou ser abordado por um tipo com ar de drogado e um sotaque indeciso entre o açoriano e o &lt;em&gt;yankee&lt;/em&gt;, ou talvez uma mistura dos dois.&lt;br /&gt;— Vais beber a cerveja toda, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;John tinha enchido o copo, mas não esvaziara a garrafa.&lt;br /&gt;— É essa a minha intenção — respondeu o mais laconicamente que pôde.&lt;br /&gt;— Mas assim vais estragar o martini! — indignou-se o outro. — Não fica bem doseado!&lt;br /&gt;— E por que te há-de preocupar isso? — disse John em tom baixo e seco.&lt;br /&gt;— Oh, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, não te abespinhes… — O açoriano tinha várias partes do corpo tatuadas e numa das orelhas trazia três brincos, ou talvez fossem &lt;em&gt;piercings&lt;/em&gt;. As roupas eram as previsíveis. — É só que se não a bebesses toda eu podia acabar com ela. Tenho sede, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, é deste calor.&lt;br /&gt;— Acho que o &lt;em&gt;stock&lt;/em&gt; ainda não acabou. — disse John, tentando não simpatizar com o interlocutor.&lt;br /&gt;— Pois, mas não tenho dinheiro, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, gastei-o todo no bilhete — disse o homem, exibindo um rectângulo de papel.&lt;br /&gt;— Lamento.&lt;br /&gt;— Não lamentes, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, dá-me um restinho… Olha, até sei o que estás a pensar, este gajo está todo fodido, não me vai largar e eu não paguei a viagem para isto. Mas a maneira de eu me pôr a andar já é matar um bocadinho a sede, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;. Reconsidera.&lt;br /&gt;Era um &lt;em&gt;junkie&lt;/em&gt; como outro qualquer, mas havia algo singular naquela insistência.&lt;br /&gt;— Se te der a cerveja deixas-me em paz?&lt;br /&gt;— Toda a paz, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;. Não quero outra coisa. &lt;em&gt;Peace&lt;/em&gt;! Julgas que tenho algum orgulho em estar aqui a cravar-te?&lt;br /&gt;John deu-lhe a garrafa, mas o outro não descolou logo.&lt;br /&gt;— Obrigado, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;. Olha que um homem pode matar-se por um copo. Já estiveste no Corvo?&lt;br /&gt;— Pensei que te ias embora se eu te desse a cerveja…&lt;br /&gt;— E vou, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, vou já. É a puta da vida, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;. A droga é fodida e o caralho, mas há coisas piores, man. Um gajo às vezes precisa de falar. Já experimentaste a solidão?&lt;br /&gt;— Era o que ia fazer agora, quando te dei a cerveja.&lt;br /&gt;— Eheheh, és um gajo com sentido de humor. Mas não é isso, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;. Falo de solidão a sério. Não conheces o Corvo… Eu nasci lá, mas emigrei com os meus pais em criança. Fomos para os &lt;em&gt;States&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;— Vais-me contar a história da família mesmo depois de te ter dado a garrafa?...&lt;br /&gt;— Já me calo, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, já me calo. É só uma história de um gajo que conheci. Mas primeiro tenho de contextualizar.&lt;br /&gt;John poderia ter-se mudado para outro lado da carruagem, mas de certeza que o açoriano o seguiria. Sair do bar não era solução, pelo menos enquanto não acabasse a bebida. O comboio deixara a área urbana e aproximava-se da costa. Pelas janelas via-se o mar e por cima dele o céu azul.&lt;br /&gt;— Dois minutos. Acabo o copo e deixo-te sozinho com a tua história — concedeu.&lt;br /&gt;— Baril, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;. Dois minutos é tudo o que preciso.&lt;br /&gt;— Dois minutos.&lt;br /&gt;— Se queres saber, fui deportado para o Corvo.&lt;br /&gt;— Não disse que queria saber.&lt;br /&gt;— Eheheh, pois não, pois não. És um gajo fixe.&lt;br /&gt;John deu um novo gole e virou-se para a janela. O outro continuou:&lt;br /&gt;— Eles dizem &lt;em&gt;repatriado&lt;/em&gt;, mas eu considero-me &lt;em&gt;deportado&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;desterrado&lt;/em&gt;. Lá porque um tipo nasce em determinado lugar é justo que fique com o estigma de &lt;em&gt;ser&lt;/em&gt; daquele lugar? Vivi toda a minha vida consciente nos &lt;em&gt;States&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, como podia eu sobreviver no Corvo? Cresci na América, estudei lá, fiz tudo lá, até o que não devia. Os gajos apanharam-me a traficar umas merdas e não hesitaram um minuto, meteram-me no primeiro avião para as ilhas. Senti-me como os criminosos que eram mandados para o ultramar há uns séculos. No fundo, agora a história repete-se, só que o trânsito é ao contrário.&lt;br /&gt;O desejo de John era manter-se absolutamente neutro em relação a tudo o que o rodeava. Queria ouvir aquele homem com a passividade e o desinteresse de quem não podia evitar ouvir o trânsito na cidade. Mas alguns músculos do rosto traíam-no e o açoriano percebeu que tinha agarrado um ouvinte.&lt;br /&gt;— Quando cheguei ao Corvo pus-me a estudar as marés, como aquele gajo do &lt;em&gt;Papillon&lt;/em&gt;. (Viste o filme? Eu li o livro e vi o filme. Grande cena!) Os cabrões deixaram-me lá sem um tusto, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, tudo o que tinha foi para o sacana do advogado. Mais valia tê-lo estourado em cerveja! E os meus velhos, claro, ficaram fodidos comigo quando souberam no que eu andava metido, e a única coisa que fizeram foi pedir a uns tios na ilha que me dessem um tecto e duas refeições por dia. Nem um dólar para tabaco me enviavam!&lt;br /&gt;— Foi então que conheceste o outro gajo? — perguntou John, como se fosse sua obrigação reconduzir o orador à história que de algum modo aceitara ouvir.&lt;br /&gt;— Não de imediato, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;. Primeiro fiz-me taxista. Taxista no Corvo… Já ouviste coisa mais absurda? — e riu-se com vontade.&lt;br /&gt;— Toda a gente precisa de ser transportada, não? — disse John, vertendo na conversa um pouco do fatalismo que carregava.&lt;br /&gt;— Claro que sim, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;… E então no Corvo… Ok, agora a sério. Um tipo não tem ali que fazer e passa os dias deitado no cimento do cais, à espera que chegue algum barco das Flores com turistas, para animar um pouco as coisas. No início ficava a vê-los saltar das embarcações, a tremelicarem com medo de cair ao mar. Depois deixei-me de bocas e de sarcasmos e resolvi dar-lhes uma ajuda, de vez em quando. Quando dei por mim, estava a conduzir a carripana do meu tio até lá cima ao caldeirão. O velhote recebia umas coroas do gajo das Flores por cada viagem à cratera, mas eu fazia aquilo para me distrair.&lt;br /&gt;— Suponho que foi numa dessas viagens que conheceste o protagonista da tua história — insistiu John.&lt;br /&gt;— Sim, foi. Numa das últimas viagens antes do Outono. O sacana saiu do avião, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, e tratou logo de arranjar um táxi que o levasse ao endereço que trazia anotado. Dá para acreditar? Ainda o estou a ver: o olhar de pânico enquanto se apercebia que tudo o que havia no Corvo estava à distância de uma caminhada e depois era o mar, o grande oceano. Talvez insistisse no táxi para não se entregar de mão beijada. A bagagem não era muita, mas decidir procurar a morada a pé era mostrar-se vencido pela pequenez da terra.&lt;br /&gt;— Não era um turista, pelo que percebo.&lt;br /&gt;— Era um enfermeiro. Não vinha passar uns dias, vinha para ficar uns anos, destacado. Foi isso que o matou, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;. Começou a morrer logo ali, com o reconhecimento do terreno e do destino. Ninguém quer ser definitivo no Corvo. Os que lá nasceram e ficaram estão no seu elemento, não sabem o que é viver de outra forma. Os outros regressam na primeira oportunidade. Há excepções, claro, uns poucos eremitas ou aqueles que fogem dalgum crime ou culpa.&lt;br /&gt;— E os desterrados da América? — John arrependeu-se logo da pergunta.&lt;br /&gt;— Os desterrados não fogem de nada, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, só estão à espera de arranjar dinheiro para bazar dali. Um gajo não se chega a arrepender verdadeiramente da merda que fez, arrepende-se de se deixar apanhar, isso sim. Acho que é da natureza humana.&lt;br /&gt;O açoriano adoptou pela primeira vez um ar sério ao dizer estas palavras. Também ele espreitou pela janela o mar calmo e a areia branca que acompanhava há alguns quilómetros o evoluir sincopado do comboio.&lt;br /&gt;— Claro que se tu pensas um bocadinho no assunto lamentas que as tuas acções fodam a vida dos outros — continuou —, mas se te safasses esquecias isso num instante. Não somos perfeitos, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, não somos perfeitos.&lt;br /&gt;— E o teu passageiro? — quase interrompeu John, como por reflexo defensivo.&lt;br /&gt;— Viciou-se em &lt;em&gt;whisky&lt;/em&gt;. Uma merda o álcool, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, pode foder mais a cabeça do que algumas drogas. O enfermeiro instalou-se e ainda tentou convencer-se de que podia sobreviver. O Outono foi bom, naquele ano, havia sol e temperaturas favoráveis. O barco e o avião chegavam com regularidade e ele pôde encomendar os livros que quis e nas lojas não faltou o &lt;em&gt;scotch&lt;/em&gt;. A merda foi o Inverno. A chuva ininterrupta e o vento deixavam-no melancólico, recolhia-se depois do turno no centro de saúde e ninguém o via mais. Acho que ficava à lareira, com uma garrafa e um livro. No dia seguinte era todo olheiras e água das pedras.&lt;br /&gt;— Não era o único, certamente.&lt;br /&gt;— Eheheheh, pois não, mas eu ainda tinha uma costela corvense, o sacana não estava preparado.&lt;br /&gt;— O que lhe aconteceu?&lt;br /&gt;— A certa altura o Inverno pôs-se mesmo feio. Durante várias semanas, a ondulação do mar não permitia que o barco de reabastecimento se aproximasse da costa e os ventos fortes impediam o avião de aterrar. Mesmo o helicóptero de emergência médica teve de voltar para trás mais de uma vez. Se conhecesses os açorianos, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, sabias que nós somos um pouco como a cigarra. Não ficaremos propriamente conhecidos na história pela nossa sábia gestão de &lt;em&gt;stocks&lt;/em&gt;. As reservas de legumes e fruta começaram a escassear ou a desaparecer, mas com isso todos viviam. O problema estava noutros produtos: a cerveja e o &lt;em&gt;whisky&lt;/em&gt;. Para certas pessoas em certos ambientes o álcool torna-se um bem de primeira necessidade. Ninguém ignorava que o motor do enfermeiro utilizava energias limpas, eheheheh, o homem funcionava a álcool, e na sua ausência começou a ter dificuldades em carburar.&lt;br /&gt;— E a solidão? — indagou John, reconhecendo de imediato o que havia de redundância na pergunta — Não era também esse o tema?&lt;br /&gt;— Não tenho vindo a falar de outra coisa! Diz-se que a solidão não medra nas pequenas comunidades. Que ninguém se sente sozinho quando toda a gente se conhece e todos se amparam uns aos outros. Que nas cidades populosas é que estão os verdadeiros solitários… Blá blá, blá blá… Não acredito nisto, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;. A solidão está dentro de nós, acompanha-nos para onde vamos. E torna-se tanto pior quanto as possibilidades de sair dela são reduzidas, esta é a verdade. Nós não mitigávamos a solidão do enfermeiro, éramos apenas seus companheiros de cárcere. Os seus horizontes estavam coarctados; o seu espaço vital era exíguo e esbarrava em constrangimentos de uma evidência física demolidora. Este era o problema. Os habitantes da ilha não eram um campo de possibilidades afectivas, eram amostras do infortúnio. O enfermeiro não nos via como amparo ou confidentes. Nós éramos para ele o seu espelho, desgraçados como ele. Falar connosco assemelhava-se-lhe a um solilóquio. Não éramos pontes para o infinito, estávamos simplesmente retidos naquele naco de terra como ele.&lt;br /&gt;O açoriano estava lançado e o seu discurso contrastava com a figura que o emitia. John perguntava-se que tipo de vida tivera o seu interlocutor e como se tornara um marginal sem perder uma singular capacidade retórica. Mas achou preferível não aprofundar esta questão, era apenas mais uma das coisas ilógicas de que os seus dias se vinham recheando. Melhor não mexer com o mundo, deixá-lo desfilar como muito bem entendesse. Por ele estava tudo bem que um falhado pudesse ter alguma coisa a dizer e soubesse como o fazer. John esperaria pelo que viesse a seguir e queria que lhe fosse igualmente indiferente. Os seus olhos acompanhavam as dunas e o que se via de mar por trás delas. Era uma visão reconfortante, podia morrer feliz com um horizonte daqueles.&lt;br /&gt;— Não me vais perguntar o que aconteceu? — desafiou o açoriano, com uma leve perplexidade a bailar-lhe no rosto.&lt;br /&gt;— Não — disse um John fleumático. — Mas tu vais-me contar à mesma, não é?&lt;br /&gt;Nesse momento foram impelidos para a frente por uma travagem do comboio, realizada de forma brusca e inesperada. John desequilibrou-se e apoiou a mão direita no ombro do outro, amaldiçoando-se logo de seguida por esta fraqueza. Preferia ter-se estatelado. Os dois olharam instintivamente pela janela, mas não estavam numa estação ou num apeadeiro. A composição detivera-se numa área desolada.&lt;br /&gt;— Por que parámos aqui? — admirou-se o açoriano.&lt;br /&gt;— Talvez o comboio vá adiantado — disse John —, ou então há obras na linha. Também pode ser uma avaria. De qualquer modo, este é um sítio tão bom como qualquer outro para parar.&lt;br /&gt;— Não, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, vamos atrasados. Eu tenho que chegar a horas! — disse o açoriano com uma nota de desespero.&lt;br /&gt;— Não pareces o tipo de pessoa que tem horários a cumprir.&lt;br /&gt;Soou uma voz metálica nos altifalantes, mas com a estática que a envolvia e com o barulho das conversas John não conseguiu perceber a mensagem. Tinha qualquer coisa a ver com a interrupção do andamento, certamente, mas tanto quanto ele pode ouvir até poderia ser um apelo para consumir os produtos à venda no comboio, como acontecia nas viagens aéreas. Disse para si próprio que lhe era indiferente, conquanto não tivesse de regressar.&lt;br /&gt;— Percebeste, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;? — perguntou o outro.&lt;br /&gt;— Nem uma palavra — disse John. — Mas cheira-me que não vais chegar adiantado ao teu compromisso.&lt;br /&gt; — Merda!&lt;br /&gt;O açoriano fez tenções de avançar pela composição para pedir explicações ao condutor, mas esbarrou na porta da carruagem-bar. Por alguma razão, aquele acesso estava bloqueado. Talvez a carruagem seguinte fosse de primeira classe e, nesse caso, a politica da empresa tratava de assegurar que não havia misturas de passageiros.&lt;br /&gt;— Pagas-me uma cerveja? — disse ele quando voltou, notoriamente interessado em acalmar-se. John observou-o. Na testa começavam surgir-lhe algumas gotas de suor, e o seu olhar vagueava nervosamente entre o &lt;em&gt;barman&lt;/em&gt; e a janela. Talvez precisasse mesmo de uma cerveja.&lt;br /&gt;— Traz duas — acedeu John, passando-lhe uma nota para a mão.&lt;br /&gt;O açoriano abriu caminho entre os restantes passageiros. No bar reinava ainda um ambiente festivo e ninguém parecia preocupar-se demasiado com a interrupção da viagem. De resto, ninguém reagira às informações do altifalante, como se o que fora dito não tivesse nada a ver com os passageiros daquela carruagem.&lt;br /&gt;Depois de regressar com as garrafas e beber uma golada de uma delas, o açoriano disse:&lt;br /&gt;— Parece que não vais poder fugir ao resto da história, eheheh.&lt;br /&gt;Apresentava-se mais calmo agora. John não reagiu. A janela à sua frente estava num alinhamento perfeito com a depressão entre duas dunas, e através dela via-se um tapete de areia que entrava pelo mar dentro. Entre o comboio e as dunas distavam uns cem metros, e o mar, plácido, não estava a muito mais de meio quilómetro.&lt;br /&gt;— O enfermeiro vivia bem em Lisboa — retomou a conversa o açoriano, sem que parecesse interessado em avançar para a conclusão do relato. — Um tipo ocupado no meio da multidão, com todo o continente ao alcance dos seus pés, não repara que está só. É aquela claustrofobia das ilhas que nos mostra como somos. As nuvens são tão baixas que nos pesam sobre a cabeça, dobram-nos o pescoço, forçam-nos a olhar para dentro. A insularidade não é em si o mal; o mal é o que ela nos faz, o tempo que nos dá para pensar.&lt;br /&gt;O Corvo ficava naquela mesma direcção, a mil milhas de distância. John voltou-se para o companheiro de viagem.&lt;br /&gt;— E o que lia o enfermeiro? Que marca bebia?&lt;br /&gt;O outro fez uma careta sobranceira e cómica.&lt;br /&gt;— Ahá, afinal estás curioso!...&lt;br /&gt;— Tudo indica que os teus dois minutos foram prolongados. Agradece à CP.&lt;br /&gt;O açoriano riu-se e fez um gesto obsceno para o ar, como se os escritórios da administração fossem ali mesmo, por cima do tejadilho.&lt;br /&gt;— Não sei o que lia (romances, creio) — continuou —, mas bebia de tudo, desde que cheirasse a &lt;em&gt;whisky&lt;/em&gt;. Era como uma receita médica, mal sentia que o efeito estava a passar emborcava mais uma dose. A certa altura andava bêbado o tempo todo, como se sentisse dores permanentes e precisasse de se anestesiar.&lt;br /&gt;— E então um dia o &lt;em&gt;whisky&lt;/em&gt; acabou e o homem afogou-se no mar. — Agora John parecia querer abreviar a história. Talvez não valesse a pena demorarem-se pelo caminho mais tempo. O enquadramento estava feito, a caracterização psicológica era clara, faltava concluir, matar o enfermeiro.&lt;br /&gt;— Foi mais ou menos isso — disse o açoriano —, com a diferença de que quando caiu ao mar já estava morto. O que o desequilibrou foi uma bala na têmpora.&lt;br /&gt;John teve um momento de silêncio. Depois comentou sem mostrar nenhuma emoção:&lt;br /&gt;— Parece um desenlace algo excessivo, nos dias que correm. Por que não tentaria ele uma transferência ou simplesmente ir-se embora?&lt;br /&gt;— Foi apanhado, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, aquilo era um ponto sem retorno. A certa altura já não interessava nada o sítio onde estava. O que interessava — como sempre, aliás —, era iludir a solidão, e era essa a função do álcool. Não pensar, não sentir… Pode ser essa a maior ambição de um tipo.&lt;br /&gt;— Pode? — O tom trairia John, se o outro estivesse interessado no seu interlocutor. Mas o açoriano seguia por caminhos diferentes.&lt;br /&gt;— Pelo meu lado, tomei uma decisão nesse dia: não terminar como ele. Não que eu fosse do género introspectivo, de me pôr a pensar nas questões existenciais, mas pareceu-me conveniente não subestimar o isolamento. Digamos que naquela altura não tinha muitas razões para estar feliz, mas não queria de modo nenhum dar por mim a cismar com o tema. Um gajo tem é de se distrair, aproveitar o tempo que lhe calha e as oportunidades que lhe aparecem.&lt;br /&gt;— Saíste da ilha…&lt;br /&gt;— Sem demora, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;. Como um foguete.&lt;br /&gt;O comboio continuava parado e, exceptuando o impotente barman, não havia vestígios do pessoal da companhia ferroviária. O altifalante estava silencioso. A observação do exterior não dava quaisquer pistas sobre as razões da imobilização, que já durava há largos minutos. Sem uma palavra, John foi até ao seu lugar na carruagem de passageiros e retirou a mochila do porta-bagagem. Hesitou um segundo e depois regressou ao bar. O açoriano bebia a sua cerveja e pareceu contente com o regresso de John.&lt;br /&gt;— Talvez esta viagem tenha terminado aqui — disse John.&lt;br /&gt;O outro olhou-o interrogativamente, mas John encolheu os ombros e encaminhou-se para a porta mais próxima. Abriu-a e desceu os dois degraus até ao cascalho da linha. O açoriano correu atrás dele.&lt;br /&gt;— Eh, onde vais? Ainda não terminei a minha história — gritou.&lt;br /&gt;— Não? É pena, pois o teu tempo acabou — disse John sem se voltar. — A menos que não te incomodem nem a areia nem o sol.&lt;br /&gt;— Vais para a praia? — riu-se o &lt;em&gt;junkie&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;— Suponho que se possa dizer isso, sim.&lt;br /&gt;John começou a caminhar no sentido das dunas, procurando ignorar a vigilância do seu companheiro de viagem. Aquele segurava-se nos umbrais da porta, com o corpo em nervosos movimentos de vaivém, como um urso numa jaula. Depois apeou-se de um salto e correu atrás de John.&lt;br /&gt;— Espera, merda! Que vais fazer?&lt;br /&gt;— Se vens atrás de mim — disse John —, o melhor é que tragas mais cerveja. É provável que venhas a ter sede. — Voltou-se e atirou algumas moedas ao açoriano, que se ajoelhou na areia para as recolher.&lt;br /&gt;O sol só agora saía do seu ponto mais alto e iniciava a lenta marcha para o poente. Os passos de um John quase sem sombra sulcavam a areia por entre as duas dunas mais altas e embrenhavam-se na vasta praia. Ele não tencionava esperar, e também não queria deter-se a pensar se lhe interessava ou não a companhia do outro. Talvez não lhe fosse indiferente, como desejava, saber o que aconteceria: se o açoriano ficava no comboio com o dinheiro para as bebidas, como era previsível, ou se se empenhava em usufruir do seu ouvinte até ao fim, como parecia capaz. Mas John fitava o mar à sua frente e pensava que o primeiro passo para a indiferença era não se questionar sobre o que lhe era ou não indiferente. Apetecia-lhe estender-se na areia e decidiu que era isso mesmo que faria.&lt;br /&gt;O açoriano regressou.&lt;br /&gt;— Vamos trabalhar para o bronze, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;? — perguntou ao chegar com as cervejas, ofegante da corrida.&lt;br /&gt;John não levantou a cabeça.&lt;br /&gt;— Tu escolhes o que vais fazer; eu não tenho nada a dizer-te.&lt;br /&gt;— E se o comboio arrancar sem nós? — perguntou o açoriano, e parecia realmente preocupado com a ideia.&lt;br /&gt;— Lá se vai o teu compromisso — sentenciou laconicamente John.&lt;br /&gt;— És um tipo estranho...&lt;br /&gt;— Sou? Em que medida? — A sua voz estava distante.&lt;br /&gt;— Pareces ter esgotado a pachorra para as merdas, mas não te vi enxotar-me a sério este tempo todo.&lt;br /&gt;— Precisamente porque estou sem paciência para as merdas…&lt;br /&gt;— Mas continuas a falar comigo!&lt;br /&gt;— A conversação é um acto reflexo. Se vires bem, o silêncio é mais difícil e eu também não estou para coisas difíceis. O que não quer dizer que queira conversar contigo.&lt;br /&gt;Talvez esta não fosse a verdade, pelo menos não toda.&lt;br /&gt;— Isso é um pouco confuso, mas &lt;em&gt;okay&lt;/em&gt;, respeito.&lt;br /&gt;O açoriano sentou-se na areia, virado para o comboio, que continuava imóvel junto às últimas dunas.&lt;br /&gt;— Eu começava a gostar dele, do enfermeiro — disse, com um ar pensativo e temeroso.&lt;br /&gt;— Fizeste mal — zombou John mecanicamente. — O segredo é não gostar de ninguém.&lt;br /&gt;— Bem sei, o cinismo e essas merdas todas… — concordou sem ironia o açoriano. — Mas ele podia ter-se safado.&lt;br /&gt;— Claro, se lhe arranjasses uma garrafa. Mas tu não podias fazer isso, não é? Apenas conduzias um táxi.&lt;br /&gt;O outro diferiu a resposta, como se precisasse de algum tempo para assimilar o comentário. Observou de novo o comboio, indeciso, parecendo pendente do que iria acontecer à composição. Depois, não havendo movimentos na linha, a sua voz soou em tom de confessionário, baixa e mística.&lt;br /&gt;— Sim, não podia fazer isso… O que é que eu podia fazer, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;? Ele não parava de olhar para mim com aqueles olhinhos a exigir piedade. Não era como o cabrito, que se o olhamos nos olhos já não conseguimos usar a machada. Era o contrário, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, era um apelo para que não te acobardasses, fizesses o que estava certo. Tu não queres ficar com uma vida daquelas nas tuas mãos, quer dizer, não queres ser responsável pelo prolongar do sofrimento. Era isto que os olhos me diziam, &lt;em&gt;man&lt;/em&gt;, percebes? Como os cavalos moribundos nos &lt;em&gt;westerns&lt;/em&gt;, no momento em que sabem que o tiro é a solução. Enfim, não sei se os cavalos alguma vez o sabem, mas ele sabia, e não me deixava ir embora.&lt;br /&gt; O açoriano fixava agora o infinito e John não mexia um músculo, ocupado a amordaçar todos os sons e todas as frases que queriam brotar de si. Não era &lt;em&gt;cinismo&lt;/em&gt; a palavra certa lá trás, pensou, era &lt;em&gt;niilismo&lt;/em&gt; — uma aspiração proscrita. Devia haver métodos para aceder a tal estado de rejeição, como havia séculos de sabedoria oriental para uma vida asceta. Apetecia-lhe ensaiar uma postura corporal, iniciar ali uma escola que o servisse antes de tudo, egoisticamente.&lt;br /&gt;Manteve-se quieto e em silêncio, à espera.&lt;br /&gt;— Podia ter-lhe passado a arma para a mão, claro que podia. Mas ele não a ia usar, esse era o problema. De maneiras que espetei-lhe um tiro nos cornos e foi assim que o vi sorrir pela primeira vez, enquanto tombava para o mar encapelado, lá em baixo.&lt;br /&gt;O açoriano respirou fundo mas cerrou logo os lábios, talvez ciente de que era efémero o alívio que provinha da confissão. John abriu os olhos para o céu azul. Nada mudara naquele Agosto quente e plácido. Demorou poucos segundos a escolher as palavras e sentiu-se satisfeito com o resultado:&lt;br /&gt;— Sempre conseguiste terminar o raio da história, afinal.&lt;br /&gt;O seu companheiro não respondeu e assentou a cabeça nos joelhos. Era difícil dizer se estava satisfeito por ter falado ou se começava a arrepender-se. Naquele momento ouviu-se o barulho de um motor na parte mais avançada do comboio, onde estaria a locomotiva, e toda a composição estremeceu. O açoriano levantou-se num ápice e desatou a correr.&lt;br /&gt;— Merda!&lt;br /&gt;John não partilhou o sobressalto. Não retomaria a viagem, não de comboio, não naquele comboio. A história do açoriano era como uma rede de pescador e ele não queria deixar-se apanhar em nenhuma rede, muito menos depois de se ter libertado das suas. O mar continuava à sua frente e o Sol parecia imóvel. Isso bastava-lhe. O dia estava dar-lhe oportunidades e ele tinha de continuar a saber aproveitá-las.&lt;br /&gt;Em poucos minutos desaparecera todo o rasto do comboio. A distância e o tempo podiam fazer de todas as coisas, mesmo as mais volumosas e pesadas, uma abstracção. Uma ficção, até. Nada provava que momentos antes um comboio se detivera ali atrás com uma multidão dentro. Só existia o que John via ou ouvia ou apalpava. E naquele momento o comboio não estava ao alcance de nenhum dos cinco sentidos de John. Podia perfeitamente nunca ter existido.&lt;br /&gt;Talvez pudesse fumar um cigarro, agora. Esticou-se para a mochila e meteu a mão dentro de uma das bolsas. Os seus dedos tocaram um volume familiar, o de um livro. Resultava estranho aquele toque. Ele não trouxera um livro e o único que vira naquela manhã estava na carruagem que partira. Puxou-o para fora sentindo uma indesejada inquietação.&lt;br /&gt;Era um volume de capa negra com letras cor de sangue, o mesmo que alguém deixara no comboio para ser encontrado. Como fora parar à sua mochila era um mistério.&lt;br /&gt;Ou não. John perguntava-se se, ao contrário do que dizia a mensagem, aquele livro não lhe estaria destinado. Nesse caso, alguém tratara de assegurar que ele não o perderia. Isto significava que não viajara incógnito e que o mantinham sob vigilância. Era uma sensação desconfortável, mas não inédita. Afinal, era dela que ele fugia. Dela e das vozes que não paravam de lhe martelar a cabeça.&lt;br /&gt;Voltou o livro nas mãos para observar melhor a capa. Antes tinha ignorado o título, mas agora ele mostrava-se, exuberante, com as palavras em relevo. Leu: &lt;em&gt;O Homicídio do Corvo e Outros Crimes&lt;/em&gt;. O nome do autor aparecia em letras mais pequenas e quase não precisou de o ler. Era o seu próprio nome: Ricardo Bettencourt. Abominava aquele apelido, tão tipicamente açoriano.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-4874001418980198526?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4874001418980198526'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4874001418980198526'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/04/misteriosos-sao-os-caminhos-do-senhor.html' title='Misteriosos são os caminhos do Senhor'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-1997556061838875631</id><published>2009-03-25T00:36:00.000Z</published><updated>2009-03-26T00:45:05.213Z</updated><title type='text'>O rio</title><content type='html'>&lt;strong&gt;I&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frio. Uma neblina espessa solta-se do rio e avança pelas margens inclinadas, onde alguém segura os joelhos com as mãos e apoia neles o queixo. É possível adivinhar na névoa toda a sorte de fantasmas, que aproveitam uma tal camuflagem para passearem pelo mundo o duvidoso ectoplasma e os mitos de que se compõem. Melhor: é possível tomar a própria neblina como uma mole contínua de fantasmas, como quando uma película de anémonas translúcidas cobre um pedaço de mar, tornando-o numa coisa vagamente alva e irreal.&lt;br /&gt;Quem assim observa a água escura, e o manto espectral que a vela, junta à respiração do rio a sua respiração, igualmente branca, igualmente vaporosa. Tem os músculos dos ombros retesados e, por fora da camisola de lã, uma camada fina de geada reveste-os — está ali parado há tempo suficiente para isso. Por cima da multidão de fantasmas que vai desfilando, a lua redonda espreita frequentemente, como se viesse testemunhar, mais do que causar, o que de fulgores brancos há numa noite assim. E há muito, até na ondulação febril do rio. A noite toda parece querer anular-se, retirar-se para onde não se lhe exija cumplicidade no que está para a acontecer. Mesmo que agora nevasse, dificilmente a noite seria mais branca ou menos noite.&lt;br /&gt;A superfície da água, ou o que nela desliza, é o que atrai o olhar da figura sentada na margem. Não é um olhar parado, fixo no tremeluzir das pequeníssimas vagas, mas antes uma mirada que varre lentamente o troço de rio visível, de montante a jusante, entre uma curva e outra, desde o amieiro em cima até ao castanheiro gerôntico ao fundo. E o que voga nas águas frias são cadáveres, uma sucessão espaçada de corpos, pequenos, de início, maiores, mais tarde.&lt;br /&gt;A figura na margem recorda-se da infância e de quando as ninhadas indesejadas terminavam as suas curtas vidas dentro de um saco no rio. Por vezes, o saco rompia-se e as crias tinham a sua primeira e única e abortada experiência de natação. Os seus cadáveres entravam na corrente e não mais eram vistos. O que sente agora difere substancialmente da raiva impotente daqueles dias primordiais — não aguarda uma ponta de coragem para se arrojar à água e não é o frio o que teme, se teme alguma coisa.&lt;br /&gt;A comunidade de espectros agita-se à passagem de cada corpo, e se se afasta para as margens é porque alguma coisa emana daquelas águas, novos espíritos que se libertam e ingressam nas hostes sobrenaturais, prontos a subir os lameiros. É fácil imaginar o rio como uma fornalha que alguém alimenta de cadáveres lá em cima para que aqui em baixo possa haver uma neblina destas, composta de almas perdidas.&lt;br /&gt;Um pouco atrás, os terrenos lavrados refulgem e estão duros e os passos que por ali caminham rangem, como se quebrassem pequenos ramos de cada vez que um pé toca o chão. A figura na margem ouve-os aproximarem-se, lentos, cuidadosos, tão silenciosos quanto é humanamente possível nas circunstâncias. Não os receia, mas ainda não é altura de lhes dar atenção: o desfile não terminou, falta um corpo, o maior, o de um homem adulto. Seria um grande momento na vida daquela terra se ele viesse deitado numa pira em chamas, as pessoas haveriam de acordar e assomar às janelas e espreitar o rio pasmadas, pensando para si próprias que um dia as lendas são suplantadas pela realidade. Mas o corpo que falta vem apenas deitado sobre a própria água, de bruços, como o de um afogado comum.&lt;br /&gt;Os passos atravessam agora a erva enrijecida e num minuto deter-se-ão junto à primeira figura, no mesmo minuto em que o corpo que falta passa ali mesmo debaixo dos olhos de quem vê. E do casal que neste momento se encontra sob a geada apenas a figura inicial, o elemento masculino, vê. A mulher acabada de chegar toca sem convicção o torso frio do seu companheiro e esfrega a camisola de lã, mas não vê. Olha inquieta as mesmas águas, senta-se ao lado dele, mas não vê. Apenas fala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Tive um sonho estranho e depois acordei e não estavas ao meu lado.»&lt;br /&gt;«Como sabias que eu estava aqui?»&lt;br /&gt;«Não foi difícil. Bastou olhar pela janela, a noite está claríssima. E já sabia para onde olhar.»&lt;br /&gt;«Conheces-me, não é?»&lt;br /&gt;«Quem mais seria louco o suficiente para vir espreitar o rio numa noite fria como esta?»&lt;br /&gt;«Sim, nunca deixo de me encantar com este local.»&lt;br /&gt;«Encantar? Não me pareces encantado quando aqui vens. Ou antes, sim, se dermos à palavra o seu significado mais hipnótico. Pareces um sonâmbulo, alguém atraído por um feitiço qualquer. E não me digas de novo que adoras a serenidade disto, tu não estás sereno, só gelado.»&lt;br /&gt;«Não sejas dura. O rio relaxa-me — é verdade! —, esqueço tudo quando me sento na sua margem. Se pudesse, abandonava a cidade e vinha viver para aqui.»&lt;br /&gt;«O rio deixa-te obcecado, isso sim. Mas já tivemos esta conversa muitas vezes e, se queres ter uma mania, por mim tudo bem. Se esta for a tua maior esquisitice não vejo razão para temer pelo nosso futuro. Conquanto não penses em enterrar-nos aqui, claro. Tudo o que passe de um fim-de-semana nesta desolação deixa-me doida.»&lt;br /&gt;«És um animal urbano. O mais belo espécime da metrópole.»&lt;br /&gt;«E tu se tivesses juízo esquecias essa treta das raízes. Se pensares bem, não pertences aqui. Os aldeãos riem-se nas tuas costas quando te ouvem dizer que te sentes em casa de cada vez que entras na aldeia. Já te viste ao espelho? Não és um rústico, meu rapazinho, jamais o foste. És apenas mais um macho a viver a sua crise da meia-idade. Dourar as memórias de infância é uma compensação que a psicologia explica.»&lt;br /&gt;«Sim, &lt;em&gt;Mr. Freud&lt;/em&gt;, tudo o que você queira. Fui feliz aqui, é só. E tu também gostas disto, não escondas.»&lt;br /&gt;«Não mais do que dois dias, já te disse. Ao terceiro definho e ao quarto, se arranjar forças, penduro-me nas traves da tua adega.»&lt;br /&gt;«Credo! A minha mulher sabe ser mórbida.»&lt;br /&gt;«Realista, querido. Realista.»&lt;br /&gt;«Há bocado não te ocorreu que podia ser outra pessoa aqui na margem? Era fácil teres-te confundido, com o nevoeiro e isso tudo. Dizem que há lobisomens cá na terra e esta é uma noite mesmo adequada para eles. Eu podia apenas ter ido à casa de banho.»&lt;br /&gt;«Isto é demasiado sossegado e pacífico para esse tipo de coisas.»&lt;br /&gt;«Achas?»&lt;br /&gt;«Sim, não me assustas. Mas há uma coisa que me preocupa e esta é bem plausível: mais um pouco deste gelo e amanhã acordamos os dois no hospital. Se acordarmos.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas figuras na margem levantam-se, corpóreas, densas, sólidas. Encetam a caminhada de regresso à casa, lado a lado, os ombros tocando-se ao sabor do relevo do terreno. O homem ainda volta o rosto para trás, para o rio, e segue com o olhar, por um instante, o curso da água. A mulher dá-se conta, mas já disse o suficiente por agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa é uma vulgar casa de quinta, afastada o suficiente do perímetro da aldeia para que o quotidiano do povoado não a contamine. Há outras assim, mas ficam do lado oposto, na entrada. A esta só vêm as visitas ou quem tenha afazeres junto ao rio, e não há muito que fazer para estes lados. Um ou outro pescador nostálgico a caminho da represa arrasta por aqui os seus passos, de dia. À noite a casa é deixada no esquecimento.&lt;br /&gt;É um edifício tosco e robusto que não disfarça a idade, mas algumas obras no interior e no telhado deram-lhe um conforto que poucos nas redondezas conhecem. As paredes sofreram muitas noites gélidas como esta, mas nenhuma neblina, no seu percurso do rio para os montes, encontrou barreiras como as que agora a casa oferece. As antigas frinchas nas portas e janelas foram resolvidas com silicone quando as esquadrias foram substituídas. Sob as telhas novas jaz agora um protector manto de lã de rocha.&lt;br /&gt;Há uma fúria visível na forma como a névoa investe contra a casa e a envolve, procurando poros que já não existem. Poder-se-ia dizer que acabou de se levantar uma brisa, se o ar não estivesse parado e se tudo fosse tão simples de explicar. Os espectros da névoa esmagam os seus rostos contra os vidros deixando neles cristais de gelo. Isto a noite ainda consegue: desenhar os seus hieróglifos, as suas cifras, à espera que sejam lidos antes do sol nascer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;II&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém consegue distinguir uma alma da outra só olhando a neblina, sobretudo quando esta não passa de uma gaze contínua, branca, ondulante, que não facilita ao olhar a sua decomposição em partes. É como observar as estrelas sem que o espectador se tenha munido antes de uma carta estelar. Quem pode asseverar que pontos luminosos fazem parte de que constelação? Alguém que ignore a cosmologia antiga mas esteja dotado de suficiente espírito crítico pode com facilidade rir-se da coisa esotérica que é considerar os astros organizados em figurinhas imutáveis. As constelações são uma convenção útil para os viajantes, mas um jogo de infinitas possibilidades para quem as observe sem preconceitos. &lt;em&gt;Una os pontos e descubra a figura&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Ao vulto que se abriga na sombra criada pela parede do antigo combarro ocupam-no estas considerações, ainda que só por uma delas tenha feito o caminho até ali. Do local onde se encontra, ligeiramente sobranceiro à casa, desfruta das duas panorâmicas por igual. À sua esquerda, em baixo, a maré branca de espectros lambe a casa da quinta. Por cima dela, uma larga cúpula estrelada poderia entretê-lo longas horas como o fazem os quebra-cabeças à venda na loja da aldeia.&lt;br /&gt;São dois tipos diferentes de apelos aqueles que representam para ele um céu nocturno e o levantamento das almas. Desenhar os seus próprios mapas no firmamento é uma missão, mas também uma tarefa infinda, que tem de reiniciar permanentemente. Não há maneira de aceitar num dia os diagramas obtidos na véspera. Nada é assim tão definitivo, nenhuma conclusão sobre a forma das coisas é satisfatória ou válida por mais de umas horas. Mas, ali, do lado de fora da casa, o vulto conhece as suas prioridades nesta noite, aquilo para que foi convocado.&lt;br /&gt;Um caçador experiente não estaria mais preparado do que aquele homem para aguardar, discernir, identificar, perceber o momento exacto em que tem de agir. Está um pouco confuso com o aspecto que têm hoje os mortos, unidos como siameses pelo flanco, sem que se perceba onde começa um e termina o outro. Gosta mais da forma clássica como eles se costumam apresentar, individualizados, identificáveis na sua deambulação como se pode identificar um vivo pela forma de andar. Mas compreende a união de esforços, aquela ânsia de se fundirem numa mesma manifestação de dor que faz deles, aos olhos da aldeia — se a aldeia tivesse olhos para os seus mortos —, um mero, efémero, transitório banco de nevoeiro a assolar a casa da quinta.&lt;br /&gt;Na sua face, em todo o seu corpo, não há um músculo flácido. Tem a paciência de um santo de barro e a concentração de um predador. Não importa que não possa distinguir na neblina ninguém em particular: ali estão todos os entes que interessam, e o todo é maior que a soma das partes.&lt;br /&gt;Dentro da casa, visíveis a espaços através de uma janela de portadas abertas, o homem e a mulher sentam-se na cama, despem as roupas quentes que os abrigaram na descida ao rio. A temperatura no interior, com a caldeira a trabalhar em pleno, é de molde a favorecer a nudez, e ambos ficam nus. No entanto, o casal demorará algum tempo a reagir à pele disponível do outro. Antes de entrarem na cama, exercitarão outros campos da intimidade, outras rotinas, como se ignorassem os instintos. É possível que um casal discuta, se agrida, que um extermine o outro sem aceder ao convite de um sexo exposto. O predador cá fora não é impelido pela perversão voyeurística, ignora o lado erótico do que vê, mas sabe que a intimidade também é isto, esta capacidade que os corpos têm de não existirem um para o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Sabes, por vezes gostava que chovesse eternamente.»&lt;br /&gt;«E a que propósito vem isso agora?»&lt;br /&gt;«Não um dilúvio, apenas uma chuva contínua, que soasse sempre nos telhados e escorresse pelas janelas de cada vez que espreitássemos a rua.»&lt;br /&gt;«E nos encharcasse até aos ossos de cada vez que tivéssemos de sair à rua…»&lt;br /&gt;«…Um filtro entre os nossos olhos e o mundo. Ou um escudo, uma barreira. A chuva devolve-nos a nós próprios. Quando a ouvimos à noite, no sofá ou na cama, sentimo-nos autorizados a recolhermo-nos, não perdemos tempo a encontrar desculpas para ficar em casa.»&lt;br /&gt;«Tu &lt;em&gt;nunca&lt;/em&gt; ficas em casa, nem quando chove!»&lt;br /&gt;«Achas?»&lt;br /&gt;«Não é uma questão de opinião, são dados estatísticos.»&lt;br /&gt;«Exageras.»&lt;br /&gt;«&lt;em&gt;Conhece-te a ti próprio&lt;/em&gt;…»&lt;br /&gt;«Eu gosto da chuva! E ouço-a quando cai à noite.»&lt;br /&gt;«Porque ela tem a bondade de continuar a cair até que regresses e te deites. Não és um homem que aprecie a chuva de fim de tarde, não na tua própria casa.»&lt;br /&gt;«O que queres dizer com isso?»&lt;br /&gt;«Nada, apenas que talvez tenhas exagerado um bocadinho o teu interesse pela chuva e pela vida doméstica.»&lt;br /&gt;«Não falei em vida doméstica. Referia-me à necessidade de introspecção, de uma vida espiritual que se sobreponha à pressão gregária.»&lt;br /&gt;«Ah, bom…»&lt;br /&gt;«…»&lt;br /&gt;«Que foi?»&lt;br /&gt;«Posso gostar da chuva e do que ela induz?»&lt;br /&gt;«Podes, claro que podes. Olha, eu gosto de ti de qualquer forma, mas tu só és introspectivo quando vens para aqui. No geral, és um tipo como os outros, especialista em adiar seja como for o momento de recolher.»&lt;br /&gt;«Estás-te a queixar de alguma coisa?»&lt;br /&gt;«Eu? De nada, querido, não me queixo de nada. Era um risco muito grande para nós ter-te em casa cedo...»&lt;br /&gt;«Ironizas.»&lt;br /&gt;«Não, que coisa! Falo a sério. Está tudo muito bem como está. Simplesmente defendo que sejas mais honesto contigo próprio. Tu só reparas no clima e nos elementos quando vens para aqui e eu fico contente com isso. Não me apetece aturar um tipo bucólico no dia-a-dia. Prefiro um tipo ausente.»&lt;br /&gt;«Eu sou um tipo ausente?»&lt;br /&gt;«Na medida certa, não me entendas mal. Bem sabes como detesto metafísicas e estados de alma.»&lt;br /&gt;«Sim, és uma pragmática, sempre foste.»&lt;br /&gt;«Mas flexível o suficiente para continuar a gostar de ti quando te enches de uma falsa nostalgia aqui na terrinha.»&lt;br /&gt;«Falsa? Custa-te acreditar que eu tenha tido uma infância rural e que &lt;em&gt;tenha gostado&lt;/em&gt;?»&lt;br /&gt;«Custa, querido, custa. Eras filho único do professor destacado da capital, que ruralidade seria a tua?»&lt;br /&gt;«Professor que casou com uma mulher do campo…»&lt;br /&gt;«A tua mãe, criada com as tias na cidade… Não me venhas dizer que &lt;em&gt;a tua mãe&lt;/em&gt; era uma mulher do campo!»&lt;br /&gt;«Ah, não? E o que era ela?»&lt;br /&gt;«Não te digo, se não ainda nos zangamos.»&lt;br /&gt;«Ok, posso não ter tido uma infância igual à dos outros rapazes daqui, fui um privilegiado, mas seria estúpido negares que vivi vários anos em contacto directo e diário com a vida rural.»&lt;br /&gt;«Cinco anos…»&lt;br /&gt;«E…?»&lt;br /&gt;«Em cinco anos nem bosta de vaca deves ter pisado. Nesse aspecto, já sou mais rústica do que tu foste, não falho um poio!»&lt;br /&gt;«Engraçadinha. E os verões que aqui passei?»&lt;br /&gt;«Que têm? Toda a gente passou o Verão nalgum lugar. Visitar muito um país não faz de nós estrangeiros.»&lt;br /&gt;«Estás irredutível. O Verão era um período muito longo, antigamente. Muita coisa acontecia…»&lt;br /&gt;«…»&lt;br /&gt;«Muita coisa, mesmo.»&lt;br /&gt;«Suponho que sim. Curiosamente, nunca te ouvi contar nada dos verões que aqui passaste. A tua relação com a terra, tanto quanto eu a conheço, remonta aos cinco anos míticos da infância. O berço e o desmame — nada mais.»&lt;br /&gt;«Queres que feche as portadas?»&lt;br /&gt;«Hum?»&lt;br /&gt;«As portadas das janelas. Queres que as feche ou preferes acordar com a luz do dia?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;III&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa vista de longe parece o rescaldo de um incêndio de Verão, quando sobra o fumo no lugar das chamas. O casal que copula no seu interior ignora que a névoa e as janelas iluminadas (o braseiro) provocam este efeito visual — como ignora, de resto, tudo o que seja olhar a sua vida de um ponto de vista exterior. Quão excitados ficariam o homem a mulher se pudessem observar os seus corpos irrequietos através dos olhos daquele que monta vigília lá fora? Seria a visão do próprio corpo, envolvido com o do parceiro sexual, um estímulo ou um obstáculo? Não o saberão, e a única testemunha do acto não pretende contar-lhes o que vê, ainda que se tenha surpreendido com este tipo de reflexões.&lt;br /&gt;Para afastar pensamentos inúteis, o homem no combarro cofia uma barba crespa e passa em revista algumas memórias, as mesmas que o motivam a estar ali e a fazer o que tem de fazer. Isso reforça-lhe a convicção e deixa-o por fim impaciente.&lt;br /&gt;O casal terminou. Cada um deles demora pouco mais de dois minutos a acomodar-se no seu lado da cama, tentando que o resto da noite lhe reserve a sua quota parte de uma existência autónoma. Não os aborreceu o cumprimento da rotina — desfrutaram dela —, mas ambos, por razões diferentes, dão as boas-vindas ao sono e ao que ele trás de esquecimento, de território inviolável. Se acordassem juntos de manhã, como todos os dias, teriam o seu instante de perplexidade, naquele momento em que o cérebro reage à presença intrusiva do corpo do outro.&lt;br /&gt;Aquele que vela na noite clara tem finalmente a sua oportunidade para aliviar a tensão dos músculos. Não foi pelos propósitos dele que as portadas do quarto ficaram abertas, mas isso serviu-os mais do que ao desejo hipotético da mulher de um amanhecer luminoso no campo. Fica uns instantes a certificar-se de que os corpos foram vencidos pelo sono, que não se acendem de novo as luzes, e depois avança com passos experimentados, descendo a distância que o separa da casa. A neblina envolve-o e é como se vultos brancos lhe pousassem mãos sucessivas nos ombros.&lt;br /&gt;Dos dois indivíduos deitados, aquele que tem a respiração mais regular é a mulher, só ela aparenta um sono profundo. O filho do professor agita-se, dorme como se a cada instante fosse despertar de um pesadelo. Há cães a uivar pela aldeia como bastardos dos lobos que por vezes satisfazem a fome nos cercados e nos quintais. O homem da barba crespa detém-se na porta do quarto, enternecido com o panorama e a banda sonora. Nas mãos tem a mesma machada pequena de cabo macio que providencia pinheiros de Natal a várias casas da terra.&lt;br /&gt;Depois de habituar os olhos à penumbra, o homem avança em direcção à cómoda, onde se encontra uma fotografia antiga numa moldura de feira. Há um retrato da mesma pessoa no salão comunitário da aldeia, mas este é definitivamente mais fiel à natureza do indivíduo. O primeiro é institucional, severo, e permite que um meio sorriso de circunstância, socializante, disfarce o verdadeiro carácter do retratado. Este, pelo contrário, mostra alguém descontraído, sem necessidade de construir uma imagem respeitável, alguém cujos olhos muito claros aparentam afabilidade mas exibem na verdade alucinação e perversidade. Disso o homem das barbas não tem dúvidas.&lt;br /&gt;As suas memórias insistem em confluir, sustentam o gesto que prepara. Nelas, ele e o filho do professor, o professor dos retratos, caminham em cada manhã de Verão para a margem do rio. É um ritual, mas não de banhistas ou de adolescentes que aprendem a pescar. Chegados à beira da água, os dois rapazes ficam sentados ou de pé, muito quietos, apenas fixando a superfície mansa do rio. Não seguram canas e fios de sediela com anzóis na ponta e quando se despem não é para nadar. Por trás, alguém se aproxima e coloca ambas as mãos nos ombros nus deles, fazendo-os estremecer. Pelo menos aquele que será o homem das barbas crespas estremece, ainda que não saiba como resistir à autoridade que lhe pesa no ombro. O filho do professor parece tão alucinado quanto o pai, e reage como um autómato submisso a cada palavra que aquele sussurra.&lt;br /&gt;No início parecia uma brincadeira. Mas até alguém com um entendimento tão particular do mundo como o futuro homem das barbas poderia perceber que não havia brincadeiras inocentes. No entanto, era já tarde quando o descobriu, quando a explosão de felicidade de saber-se distinguido pelo professor deu lugar à compreensão, inicialmente vaga, de que fora escolhido simplesmente por ser de todos o mais fácil — não por outros méritos ou virtudes.&lt;br /&gt;Saber-se depois apenas o primeiro de uma série não lhe devolveu a auto-estima. Não desejara integrar-se na sua geração &lt;em&gt;daquela&lt;/em&gt; maneira. É certo que os que vieram a seguir a ele tinham sido dotados pela natureza de melhores mecanismos, ferramentas que lhes permitiam detectar a armadilha mais cedo, mas inexplicavelmente era também já demasiado tarde para eles quando as suas mentes juvenis concluíam o raciocínio revelador. O professor era uma aranha que apanhava todas as moscas que passavam suficientemente perto.&lt;br /&gt;O primeiro a afogar-se deveria ter sido ele, o homem das barbas, se tivesse arranjado coragem para tanto, se não se tivesse aconchegado no facto confortável de ser o proscrito da aldeia, o tolinho. Mas foi esta a sua escolha, ficar a vê-los lançarem-se um a um ao longo de meia dúzia de anos, sem se debaterem nem porem em prática os rudimentos que lhes permitiriam boiar ou mesmo nadar para a margem. De repente, na aldeia, não eram apenas os cães e gatos indesejados a desaparecer nas águas, porém jamais o alarme soou, nem um só aldeão achou desmesurada a taxa de mortes por afogamento. E apenas houve verdadeira consternação geral quando, num dia libertador, foi a vez do professor vogar de cabeça para baixo na superfície escura do rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Podes deixá-las abertas. Vai-me saber bem acordar com a luz do dia. É diferente a luz daqui.»&lt;br /&gt;«Pois é… Os meus verões eram períodos de luz imensa e felicidade pura…»&lt;br /&gt;«Ninguém diria, pelo teu tom de condenado. Tens a certeza de que é das tuas memórias que falas?»&lt;br /&gt;«Não percebo a tua dificuldade em aceitar que passei aqui bons tempos.»&lt;br /&gt;«Não conheço esses teus tempos. Fartas-te de aludir a quadros alegres mas fica tudo na tua cabeça. Não sei nada de como eram as tuas férias. És o mais vago dos saudosistas. E é verdade que pareces querer convencer-te a ti próprio do pouco que dizes.»&lt;br /&gt;«É que não é assim tão fácil contar! A ti parecer-te-á tudo banal, vulgar. A música explica isto melhor, ou a pintura. Sim, teria de pintar um belo quadro impressionista. As palavras não chegam.»&lt;br /&gt;«Por que não tentas? Experimenta-me e talvez tenhas uma surpresa. Ainda vais descobrir em mim coisas que não imaginas…»&lt;br /&gt;«Que coisas?»&lt;br /&gt;«Sei lá… Olha, dons, uma certa vocação para entender o mundo.»&lt;br /&gt;«Tu não &lt;em&gt;entendes&lt;/em&gt; o mundo: limitas-te a aceitá-lo. Com um certo cinismo, devo dizer. Falta-te um pouco de poesia.»&lt;br /&gt;«Que tu às vezes tens a mais…»&lt;br /&gt;«É impressão minha ou estamos a discutir?»&lt;br /&gt;«Que ideia! Claro que não.»&lt;br /&gt;«Então pára com essa animosidade.»&lt;br /&gt;«Animosidade?!...»&lt;br /&gt;«Por vezes sinto-te hostil, e hoje mais do que nunca.»&lt;br /&gt;«É só uma impressão tua. Mas talvez seja melhor pararmos com esta conversa.»&lt;br /&gt;«Sim, estou cansado.»&lt;br /&gt;«Oh… Muito, muito cansado?...»&lt;br /&gt;«Hmmm…? Bem, não &lt;em&gt;tão&lt;/em&gt; cansado…»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um só golpe é desferido. Brutal, mortífero, mas um só. A machada fica presa nos ossos do crânio, derramando sangue e massa encefálica nos lençóis de linho, mas não volta a ser usada. Ainda actuam sobre o homem das barbas as forças que toda a vida o refrearam. Teve o seu momento, usou-o, mas não lhe foi permitida uma carnificina. A exuberância está-lhe vedada, é uma pessoa contida, centrípeta, avessa à eloquência. Fez o que tinha de fazer, é só, e agora regressa para dentro de si.&lt;br /&gt;Os primeiros ventos do alvorecer fazem a neblina desprender-se da casa, retomando finalmente a ascensão pela encosta de pinheiros. Só na superfície do rio parece ainda haver restos da sudação nocturna. A mulher levanta-se, um pouco enojada, a sacudir do cabelo alguns salpicos escarlates. Tira da gaveta da cómoda o maço de notas que ali colocou previamente e estende-o ao homem das barbas crespas. Este recusa-o, e por um momento ela acha, aborrecida, que o tipo a vai deixar ali sozinha com o cadáver.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-1997556061838875631?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/1997556061838875631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/1997556061838875631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/03/o-rio.html' title='O rio'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-5014396659204689679</id><published>2009-03-23T01:22:00.000Z</published><updated>2009-03-24T01:32:17.737Z</updated><title type='text'>[Amanhã]</title><content type='html'>Amanhã arquivar-se-á um rio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-5014396659204689679?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/5014396659204689679'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/5014396659204689679'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/03/amanha.html' title='[Amanhã]'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-2998465419901213652</id><published>2009-03-18T03:37:00.000Z</published><updated>2009-03-19T03:46:14.613Z</updated><title type='text'>Sem raízes</title><content type='html'>Foi à cozinha buscar um copo de água e o luar fez todo o caminho desde o cimo da serra até à janela e atravessou-a, banhando os mosaicos, as paredes, os balcões, a porcaria da cozinha completa. Sentiu-o no rosto mesmo antes de levantar a cabeça para o receber em cheio, como uma epifania. Tinha de reconhecer que a casa beneficiava de uma bela vista, à noite, quando a cidade quase desaparecia e só a luz dos postes era visível, pirilampos que pontilhavam a encosta até meio, rareando até deixarem de existir quando se aproximavam do cume. A casa ficava numa colina e a parte que ela habitava era no segundo andar, pelo que conseguia facilmente ignorar as ruas feias em baixo. De dia tudo era diferente, as formas e as cores das vivendas e dos prédios, mesmo ao longe, eram perceptíveis, impunham-se, relegando para uma insuportável subalternidade a serra que lhes servia de fundo.&lt;br /&gt;Tinha as costas suadas debaixo da camisola e não vivia os seus melhores dias. O emprego, que detestava mas tinha de suportar, estava por um fio, a mãe voltara para o padrasto, o namorado andava de novo deprimido, afogado em cerveja e charros, e ao cair da noite viera-lhe o período. O que lhe apetecia, a coisa certa de fazer, era ir para a varanda gritar, mas não tinha uma varanda. Não tinha mais do que a grande, generosa janela da cozinha, uma agradável surpresa arquitectónica numa casa em quase tudo desconfortável e disfuncional.&lt;br /&gt;Puxou para ali um dos cadeirões da sala e logo a seguir os seus olhos repousavam na superfície da lua, prestes a desaparecer por detrás da cumeada. «A vida pode ser uma coisa mesmo estúpida», disse para os seus botões, «se somos levados a pensar nela mais do que um minuto.» O ocaso lunar estava a exercer um efeito balsâmico sobre ela, mas nada de definitivo, nada que durasse, sequer. Uma tirada mais ou menos metafísica deste género parecia anunciar uma trégua, a ponderação. Mas dentro de momentos não haveria luar, e tudo o que ele tinha de bom estaria a banhar outros territórios.&lt;br /&gt;Horas atrás, fizera uma das coisas mais inesperadas dos últimos tempos. A única vez que decidira comprar um presente para si própria numa viagem ao estrangeiro adquiriu um &lt;em&gt;poster&lt;/em&gt; que reproduzia um quadro famoso. Nada de especial, apenas um &lt;em&gt;souvenir&lt;/em&gt; de algo que ela realmente gostara: a viagem e o quadro. Estava disponível no museu por um preço simpático, e nem era muito o seu género: uma paisagem da Flandres com uma luz que ela hesitava em classificar de artificiosa ou rara. Um fenómeno que, a acontecer, não estaria ao alcance de ninguém presenciar duas vezes numa mesma vida. A caixa de secção triangular, que albergava dentro o &lt;em&gt;poster&lt;/em&gt; enrolado e que acompanhou a bagagem de quase toda a sua vida adulta, era uma espécie de fantasma, uma presença subtil encostada e esquecida a um canto em todas as casas que ela habitou. O humor irritadiço daquele dia implorava medidas drásticas, e pendurar pela primeira vez aquele poster numa parede pareceu-lhe uma decisão suficientemente radical, um gesto que relegaria para segundo plano todos os demais assuntos. Claro que, depois de ter colado os pedaços de &lt;em&gt;Tesa&lt;/em&gt; na parede e de ter fixado neles as esquinas da paisagem, percebeu o simbolismo do que fizera e teve o seu cúmulo de irritação: desenrolara a bandeira e declarara com isso ter escolhido um território, um local onde fixar raízes.&lt;br /&gt;Não era verdade. Não queria fixar raízes, nem ali nem em lado nenhum. Fizera uma coisa fútil, nada mais. Mas uma coisa fútil que agora a fazia sentir-se traída. Estaria a baixar os braços? Tinha, inconscientemente, desistido de esperar coisas melhores para si?&lt;br /&gt;Faltavam ainda uns dois minutos para a Lua desaparecer totalmente quando ouviu um barulho vindo da entrada, nas suas costas. Ia virar a cabeça para aquele lado mas decidiu que não podia ser distraída, não agora. Tinha direito a mais dois minutos de êxtase. Desfrutou-os arrependida de não ter trazido os &lt;em&gt;headphones&lt;/em&gt;. De certeza que lhe ia saber bem acompanhar o lento afundar do satélite com um &lt;em&gt;requiem&lt;/em&gt; de Mozart, ou, melhor ainda, com uma daquelas composições para violoncelo de Bach. Não saberia dizer o nome de nenhuma das peças de que gostava, mas sabia em que faixa as encontrar nos CDs pirateados que guardava numa bolsa vermelha, portátil. (Nunca adquirira para os CDs uma estante — nenhuma mobília para nada, na verdade —, mas pensou com ironia e mágoa que talvez o fizesse agora, numa altura em que começava a deixar-se &lt;em&gt;instalar&lt;/em&gt; na casa.)&lt;br /&gt;Mas não houve música naquele funeral lunar. Apenas o som longínquo e fantasioso das galáxias na sua repulsão mútua. Ou o roncar surdo que a Terra não deixaria de fazer ao rodar no seu eixo. Talvez o sibilo da luz, os fotões a rasgar o vácuo, e o uivar desconhecido dos ventos solares. Se, claro, algum destes sons lograsse penetrar a barreira que envolvia o Planeta, a eterna e inútil algaraviada de ondas de rádio, que haveriam de fazer estourar a cabeça a quem quer que estivesse lá fora à escuta. Demasiado barulho no Cosmos, pensando bem.&lt;br /&gt;A cozinha regressou à penumbra habitual e as trivialidades do mundo puderam de novo reclamar atenção. Houvera um ruído e ela tomava agora consciência do sobressalto que ele induzira. Tinha sido como se alguém deixasse cair um saco pesado do ombro e o encostasse em seguida sem subtileza à sua porta da entrada. Os vizinhos não raro depositavam coisas no seu lado do patamar, mas guardavam uma hipócrita distância cordial, ainda assim. Levantou-se e foi espreitar pelo óculo da porta, com a sua lente olho-de-peixe. Não havia ali fora nada de assinalável. Lá estavam as grades de cerveja, as botijas de gás e a bicicleta do costume. Tudo o que contornava para entrar em casa. Tudo afastado da porta à justa, como habitualmente.&lt;br /&gt;Abandonou o assunto e pegou no telemóvel, que deixara no modo de silêncio. Nenhuma mensagem, nenhuma chamada perdida. Aborrecia-se, mas não partiria de si a iniciativa de falar com alguém. Estavam todos demasiado ocupados a dar cabo das suas vidas, não ia ser ela a interrompê-los.&lt;br /&gt;Deus, como lhe apetecia um cigarro! Tinha procurado nos locais habituais, mas não encontrou nenhum maço. Havia duas coisas que pareciam levar sumiço naquela casa: os cigarros e os pacotinhos de chá. De cada vez que pegava no volume de tabaco ou na caixa do chá quase jurava que as quantidades eram inferiores ao &lt;em&gt;stock&lt;/em&gt; que julgava ter, e dava-lhe um gozo mesquinho considerar que isso acontecia sobretudo depois de a casa ter sido limpa. Gostava de imaginar que estava a ser roubada pela mulher-a-dias, aquela tipa lésbica que ela aceitara contratar uma vez por semana para fazer as tarefas que detestava, como aspirar e limpar a casa-de-banho. Um destes iria confrontar a mulherzinha com as suas suspeitas, só para ver o que resultava dali. Não para já. Quando se cansasse de a provocar andando pela casa sem camisolas, em &lt;em&gt;soutien&lt;/em&gt;, a espreitar pelo canto do olho os níveis de desejo da mulher. Não disfarçava, a tipa, mas também não esboçava qualquer reacção, qualquer tentativa de engate, de sedução. Dir-se-ia uma verdadeira profissional, consciente dos limites da decência e das suas obrigações laborais. E na realidade fazia o serviço com zelo e resultados mais do que satisfatórios. O que a irritava. Atribuir-lhe hábitos cleptomaníacos era uma forma de ver uma nódoa num pano onde talvez não houvesse nenhuma. Não havia nada de reprovável na mulher, excepto se a pessoa fosse preconceituosa em relação ao lesbianismo, e isso ela não queria que fosse verdade. Bastava-lhe como defeito o irritar-se facilmente com os outros, como com a mãe e o namorado. Lembrar-se de novo naqueles dois fê-la atingir o limite: chegava de remoer pensamentos, era definitivamente hora de fumar.&lt;br /&gt;Apanhou um blusão de ganga no quarto e vestiu-o por cima da camisola fina de alças. Estava calor, mas não quereria andar pela rua àquela hora com os ombros à mostra. A tabacaria não ficava longe de casa, só que bairro não era propriamente respeitável. Confirmou no relógio do fogão que ainda ia a tempo de apanhar o estabelecimento aberto e meteu as chaves no bolso das calças. Riu-se da idiotice que foi pegar mecanicamente nos óculos de sol, pousados no móvel da entrada. Devolveu-os ao local, ainda que bem lhe apetecesse usá-los, escudar-se neles dos olhares alheios, do bairro, da cidade, da própria vida exterior ao seu pensamento. Estava a ficar misantropa e não via por que contrariar-se. Abriu a porta do apartamento — e ali estava ele, já cadáver.&lt;br /&gt;A porta veio para dentro com inusitada facilidade e bateu-lhe na cara, fazendo um pequeno arranhão debaixo do olho esquerdo que não tardaria a sangrar. Só quando olhou para baixo e viu o corpo percebeu que não fora ela que empregara demasiada força. Livre do trinco, nada impedira a porta de se abrir de par em par pela simples acção do peso que a ela se encostava. Depois deste raciocínio, seguiu-se a associação do que via ao som que ouvira antes. Ele, quem quer que fosse, chegara ali vivo, caíra de joelhos no patamar e depois abatera-se contra a porta. Ela teve ainda um segundo para se censurar pela quantidade de raciocínios lógicos e frios de que era capaz antes que as emoções tomassem conta de si. E depois as emoções vieram, e abalaram-lhe o corpo como um choque eléctrico prolongado. Sentiu-se tremer, cambalear, e notou que o ar lhe escapava dos pulmões sem que fosse renovado. Queria gritar, pontapear o cadáver intruso, fugir, fazer alguma coisa, mas apenas foi capaz de desmaiar por cima do corpo.&lt;br /&gt;Esteve inconsciente uns três minutos, o suficiente para que o sangue do outro atravessasse a sua camisola e lhe humedecesse a pele da barriga. Abriu os olhos quando sentiu aquilo e recordou-se logo do que estava a suceder. Achava-se mais calma agora, mas ainda assustada. Levantou-se com esforço, tentando não tocar no cadáver. Não por asco, mas porque alguma parte do seu cérebro, uma parte que ela intoxicava com livros policiais, decidia que era melhor não deixar vestígios seus num morto.&lt;br /&gt;«É o mais bizarro tapete para se ter à entrada de casa», pensou, tentando usar o humor para controlar os nervos. Nunca quisera forrar a casa de peles e agora ali estava algo que fazia o escalpe de um urso numa sala parecer um adereço inocente. Não conteve uma gargalhadinha nervosa e olhou através da porta aberta o outro lado do patamar. Os vizinhos não davam sinal de si e ela ainda não sabia se isso era bom ou mau. Ia agradecer ajuda para lidar com o assunto, é claro, mas custava-lhe ser apanhada em situação tão embaraçosa. Para mais porque que não poderia explicar o sangue na camisola sem revelar a sua fraqueza, o quão delicada e susceptível afinal era.&lt;br /&gt;Havia que chamar a polícia, isto parecia-lhe evidente. Mas não podia ficar ali à espera que os agentes chegassem antes dos vizinhos. Tinha de lhes dar conhecimento, aos vizinhos, e evitar que eles se pusessem a pensar coisas se simplesmente se deparassem com o cenário. Bater à porta da frente, eis uma coisa que ela não se imaginara a fazer em circunstância nenhuma. Odiava a ideia de ter de se mostrar obsequiosa com os imbecis que tinha por vizinhos. De resto, nunca se permitia qualquer familiaridade com as pessoas, quaisquer pessoas, que habitavam os mesmos edifícios onde ela vivia. Criar laços era o mesmo que criar raízes.&lt;br /&gt;Mas ninguém imagina que um dia lhe venham morrer à entrada de casa. Estas eram circunstâncias excepcionais, o contacto era necessário, e nada de relevante ou permanente teria de resultar dele. «Não se fazem amizades quando há um cadáver aos pés», pensou, sem ter a certeza de que este era um aforismo válido. Por que não teria o homem falecido de encontro à outra porta, que, já agora, ficava logo ao cimo da escada?&lt;br /&gt;Digitou o cento e doze no telemóvel sem carregar na tecla verde e, passando desequilibradamente por cima do morto, foi até ao outro lado do patamar. Falaria primeiro com os grunhos. Encostou os nós dos dedos à porta para bater e, para sua surpresa, esta abriu-se. Não se tinha dado conta antes, mas a porta dos vizinhos estava apenas segura por uma ponta do trinco, cuja mola estaria certamente fraca. Encolheu os ombros e de seguida meteu um pouco a cabeça na abertura e chamou, com uma voz hesitante que tentava mostrar-se natural, controlada. Não obteve qualquer resposta. A casa parecia vazia, nenhum ruído dos que denunciam a presença de pessoas se notava. Desconhecia os hábitos dos vizinhos, sobretudo aqueles que não se metiam com a sua vida, por isso não fazia ideia se era normal eles deixarem a porta mal fechada na sua ausência. De qualquer modo, era estranho. Pior, com um cadáver do outro lado, era assustador. Precisava de se certificar de que não havia mesmo ninguém e deu uns passos no interior do apartamento.&lt;br /&gt;Era simétrico em relação ao seu. À esquerda ficava a sala e não havia ninguém. Chamou de novo. A cozinha, do outro lado, estava igualmente oculta por trás da reentrância da casa de banho. Tinha de se atravessar a porta com a padieira em arco para ver todo o compartimento. Mas não precisou de o fazer. Mal voltou para ali o olhar divisou os pés descalços de alguém tombado e uma poça de sangue em expansão lenta nos mosaicos brancos. Levou a mão à boca e abafou um grito. Depois, regressou a correr à sua casa, em pânico. Que merda era esta? Estava a acontecer um massacre mesmo debaixo do seu nariz?&lt;br /&gt;Quis fechar a porta de casa, mas o cadáver que ali se encontrava impedia-a. Empurrá-lo para fora era a coisa sensata de se fazer, mas a mais fácil, já que o corpo estava quase todo dentro do apartamento, era dobrar-lhe as pernas e fechar a porta com ele lá dentro. Foi o que fez, não tinha forças nem tempo para arrastar aquele volume. E também não estava a pensar direito. Queria proteger-se, mais nada. Entrara em casa como num &lt;em&gt;bunker&lt;/em&gt;, ainda que neste caso a melhor defesa talvez fosse a fuga para a rua. Era bem possível que andasse um assassino à solta ali no edifício. Ficar longe de um equivalia a ficar longe do outro.&lt;br /&gt;Pela segunda vez em não muitos minutos, espreitou pelo olho-de-peixe, agora por motivos bem mais fortes. A quietude lá fora acalmou-a apenas o suficiente para não ter um ataque de histeria ali mesmo, naquele momento. Sentou-se no chão, a tremer, encostada à porta, ao lado do morto. A sua respiração era ofegante, mas tudo o resto parecia silencioso.&lt;br /&gt;De repente, uma voz. Ao longe, indistinta, algo metálica, mas uma voz. «Que é isto?», interrogou-se ela, «que merda de &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt; é este?» Calou-se, à escuta. A voz tornou-se insistente, parecia vir de baixo, talvez do piso inferior.&lt;br /&gt;Estava aterrada.&lt;br /&gt;Ao passar as mãos pelo cabelo num gesto nervoso apercebeu-se que a voz vinha do telemóvel que ainda segurava na mão direita. Com a atribulação tinha carregado na tecla de chamar. Era o número de emergência o que o ecrã exibia, e a operadora estava a insistir com quem quer que tivesse feito a chamada. Esta descoberta concedeu-lhe um momento de alívio e ela relatou para o aparelho, atropeladamente, o que lhe estava a acontecer. Do outro lado pediram-lhe o endereço e disseram-lhe para não sair de casa. Em cinco minutos estaria ali uma patrulha da polícia. Que se trancasse e encostasse algum móvel à porta.&lt;br /&gt;«Um móvel», forçou-se a pensar, «tenho de encontrar um móvel». Não havia muito a que chamar mobília na casa. Tirando o frigorífico e a máquina de lavar, que não conseguiria mover, restavam peças soltas e leves, coisas descartáveis que adquirira confiante na sua incapacidade de se fazerem estimadas. Como nos policiais, e à falta de alternativa, resolveu entalar uma cadeira no puxador da porta.&lt;br /&gt;Mesmo este expediente simples apelava a um uso significativo das suas forças. Para colocar a cadeira em posição, teve, de novo, de mexer no cadáver, e ao fazê-lo o rosto do morto ficou voltado para si.&lt;br /&gt;E então reconheceu-o: era o vizinho.&lt;br /&gt;Num primeiro momento não soube o que pensar. Depois deixou-se confortar por uma pequena sensação de vitória, de superioridade. O vizinho, o arrogante do vizinho jazia aos seus pés, depois de num pânico de morte se ter dirigido à porta &lt;em&gt;dela&lt;/em&gt; para lhe pedir ajuda a &lt;em&gt;ela&lt;/em&gt;. Ainda testou mentalmente a virtude e o interesse deste pensamento, mas de seguida achou que talvez se devesse envergonhar de o ter tido.&lt;br /&gt;Espreitou de novo pelo buraco da porta. Não havia sinal do assassino, o que era animador, nem da polícia, o que era desesperante. Já tinham passado os cinco minutos prometidos pela operadora e outros cinco que ela dera de bónus. Claro que estava disposta a esperar o que fosse necessário, mas gostaria de fazer notar que alguém ali fora poderia não pensar o mesmo.&lt;br /&gt;Sempre a excitou menos a ideia de encontrar Deus do que a de encontrar extraterrestres, mas talvez devesse começar a rezar. Entre uma probabilidade e outra, sempre era preferível falhar a aposta na fecundidade do Universo. E a demora da polícia começava a ser do domínio do Eterno, um campo que ela sempre negligenciara.&lt;br /&gt;O que poderia atrasar tanto os agentes? Estabeleceu nova ligação com o serviço de urgências. Não queria incomodar, mas o seu vizinho estava a ficar frio e rígido e tudo indicava que a esposa na casa ao lado o estava acompanhar na última viagem. E não havia ali ninguém para lhe garantir que o serviço estava completo, que os criminosos tinham abandonado o local. Tanto quanto sabia, a próxima da lista poderia ser ela.&lt;br /&gt;Estremeceu com a ideia.&lt;br /&gt;A telefonista reconheceu o nome e o número e disse-lhe que todos os apartamentos da morada que ela indicara tinham sido inspeccionados e nenhum corpo fora encontrado. De resto, se se tratava de uma brincadeira, já bastava. «Mas como», disse ela, tentando manter a voz baixa, «se eu ainda não saí de casa, e muito menos o meu vizinho?»&lt;br /&gt;No mesmo momento em que argumentava com a operadora percebeu que estava estabelecido um equívoco. Com o pânico, tinha fornecido o endereço errado, o do antigo apartamento. Sempre gostara de confundir as suas sucessivas direcções, mas esta tinha sido uma péssima altura para o fazer. O deslize representava agora um contratempo sério, eventualmente fatal.&lt;br /&gt;Ainda assim, havia nisto um lado positivo.&lt;br /&gt;Respirava com dificuldade e sentia o coração oprimido. Os membros tremiam-lhe descontroladamente. Um assassino acoitava-se algures no edifício, à espera da próxima vítima, que poderia ser ela. Mas, e isto tinha importância, ninguém a poderia acusar de ter fixado raízes — o equívoco estava ali para o provar. Não estava salva, mas estava orgulhosa. Morria, mas morria sem raízes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-2998465419901213652?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2998465419901213652'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2998465419901213652'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/03/sem-raizes.html' title='Sem raízes'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-6988943656531824101</id><published>2009-03-12T00:43:00.001Z</published><updated>2009-03-13T00:45:12.438Z</updated><title type='text'>[Do debate que a obra, aham, atiça]</title><content type='html'>Discute-se hoje intensamente* se “&lt;a href="http://arquivomortos.blogspot.com/2009/03/256.html"&gt;256&lt;/a&gt;” é um conto fantástico** ou um conto psicológico. O autor, antes de passar à história, gostaria de deixar uma palavra de ânimo aos que participam no debate: Entretenham-se, sim, mas não se aleijem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;*Repare-se como o arquivista evita identificar o universo onde, diz ele, se discute a obra.&lt;br /&gt;**Não &lt;em&gt;nesse&lt;/em&gt; sentido, generoso leitor.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-6988943656531824101?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/6988943656531824101'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/6988943656531824101'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/03/do-debate-que-obra-aham-atica.html' title='[Do debate que a obra, aham, atiça]'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-3733427655483687837</id><published>2009-03-10T03:01:00.003Z</published><updated>2009-03-11T03:55:57.862Z</updated><title type='text'>[Da necessidade de ler para aferir]</title><content type='html'>O conto agora arquivado ("&lt;a href="http://arquivomortos.blogspot.com/2009/03/256.html"&gt;256&lt;/a&gt;") tinha um outro título — “A ameaça” — que foi preterido. Mas da justeza da escolha só pode aferir quem tiver a paciência de ler o texto até ao fim, perdoe-se ao arquivista a maçada do pedido implícito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-3733427655483687837?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/3733427655483687837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/3733427655483687837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/03/da-necessidade-da-leitura-para-aferir.html' title='[Da necessidade de ler para aferir]'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-5812107456792187782</id><published>2009-03-10T02:40:00.001Z</published><updated>2009-03-11T02:55:29.821Z</updated><title type='text'>256</title><content type='html'>&lt;strong&gt;I&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem acorda e a janela está do lado errado. É o que acontece quando se muda de casa com demasiada frequência, quer dizer para si próprio. Mas o sarcasmo ocorre apenas ao nível do pensamento, e é estranho que ele tenha lugar no meio da confusão e da vertigem para que o homem despertou. Não conseguiria verbalizar uma palavra, está ainda meio inconsciente e a janela não só se encontra do lado errado como tem movimentos bizarros para uma janela. Claro que todos os movimentos seriam bizarros numa janela, mas estes são-no particularmente. Pequenos acenos de quem se quer fazer anunciar. «Cu-cu! Estou aqui-iii...» O homem pensa que deveria rir-se mas os sentimentos que o tomam são de inquietação, angústia, quase pânico. O seu cérebro semi-inconsciente consegue a proeza de se dividir em dois: um que observa e concebe comentários adequados e espirituosos e outro que se ocupa das emoções que, no entanto, a situação origina. Os centros nevrálgicos não concordam entre si e o homem depende dos dois.&lt;br /&gt;Lembra-se de uma época em que abria os olhos a meio da noite e as sombras ou as formas que povoavam o quarto eram os mais convincentes fantasmas. Durante segundos, entre um misto de exultação e medo leve, não tinha dúvidas de que, afinal, espíritos e criaturas quiméricas análogas existiam mesmo. Mas uma parte de si começava quase simultaneamente a rir-se e a decifrar com desilusão o armário, a cadeira, a camisa escura pendurada na porta branca.&lt;br /&gt;O que lhe está a acontecer agora é semelhante mas difere em grau e duração. O que noutra época era superfície, observar o céu ensolarado com o rosto submergido menos de um palmo em águas translúcidas, é agora abismo, trevas profundas onde se recorta um rectângulo de luz ténue dividida em quadrados. A auto-ironia é um bote salva-vidas, mas o seu casco escuro esbate-se num oceano negro e afasta-se parecendo subir numa lentidão sem retrocesso enquanto ele se afunda. O medo, pelo contrário, mantém-se por perto, rondando com golpes rápidos de barbatanas ou tentáculos.&lt;br /&gt;Juraria que passaram uns bons quinze minutos desde que abriu os olhos na escuridão do quarto, mas, tirando estar a perder a réstia de bom-humor e a sentir um cagaço crescente que o faz suar e humedecer os lençóis, nada se alterou verdadeiramente. Uma janela fora de sítio e a incapacidade de a entender. Uma janela oscilante e ameaçadora. Terrivelmente ameaçadora.&lt;br /&gt;«Quando vai isto terminar?», interroga-se o homem, mas não consegue mexer um dedo. Os minutos passam e a única coisa que ele consegue pensar, com certeza e terror, é que não se lembra de uma janela naquele lado do quarto. Havia uma janela daquele lado, é claro que havia, mas não &lt;em&gt;neste&lt;/em&gt; quarto. Uma janela do seu lado esquerdo é uma coisa antiga, velha de anos e páginas viradas. Hoje não tem um quarto com uma janela do seu lado esquerdo. Tanto quanto se lembra, há muito que acorda com o sol a lamber-lhe uma persiana do lado direito. Sim, vislumbra uma possibilidade de confusão: há noites de sono tão perturbado que ao acordar o cérebro demora a recompor-se e a ordenar cronologicamente os quartos onde um tipo dorme ao longo da vida. Mas isso deveria demorar segundos, não esta eternidade demente.&lt;br /&gt;Num compartimento contíguo ouve-se subitamente uma espécie de melodia de elevador. Notas suaves como as de uma caixa de música, mas em crescendo até se tornarem irritantes. O homem reconhece o som mas não identifica logo a sua origem. Descobre que a melodia o faz suar mais e tremer, embora não se dê conta de movimentos na roupa da cama. A ser um sonho, é a merda de um pesadelo como nunca teve. Tão real e aterrador e ao mesmo tempo tão indecifrável e de evolução lenta.&lt;br /&gt;O som persiste e o homem sabe que deveria fazer algo quanto a isso. É um ruído que insta à acção, solicita um gesto. Mas que porra pode ele fazer, ali neutralizado e a tremer como varas verdes? Ainda não decifrou o primeiro enigma e já se lhe depara outro. Uma janela do lado errado e agora um timbre que exige uma resposta… Um timbre? O que quer dizer com &lt;em&gt;timbre&lt;/em&gt;? Lembra-se de duas coisas com timbre: uma concertina velha e um telefone com instintos predadores. A escolha mostra-se de repente fácil: há uma janela antiga e um telefone conhecido a tocar insistentemente.&lt;br /&gt;Este raciocínio parece funcionar como uma chave que o liberta das correntes que o mantinham amarrado à cama. Não lhe agrada nem um pouco associar &lt;em&gt;aquela&lt;/em&gt; janela e &lt;em&gt;aquele&lt;/em&gt; toque de telefone, mas não tem como fugir-lhes. São as únicas coisas aparentemente reais na escuridão atroz do quarto. Levanta-se num impulso e descobre que o fez para o lado errado da cama. Na noite anterior encontraria daquele lado a saída do quarto, mas hoje está ali uma janela e terá de contornar a cama se quiser atravessar a porta e chegar ao telefone, instalado na sala adjacente. Nada disto está certo, a arquitectura da casa e um telefone a tocar ali ao lado, mas nada disto lhe é desconhecido. Deitou-se por volta da meia-noite no apartamento onde vive há anos e acordou antes de o sol nascer algures num local remoto. Teria bebido?&lt;br /&gt;Levanta o aparelho do descanso sem que lhe tivessem ocorrido propriamente resoluções. Pensa e age como se não existisse sozinho no seu corpo e na sua mente. Quer abanar a cabeça e assentar as ideias, descobrir que tudo não passa de um estúpido pesadelo, mas os seus passos, os seus gestos e as suas decisões desenrolam-se com independência. É só ele ali naquela casa errada, mas ele é múltiplo.&lt;br /&gt;Do outro lado da linha está uma voz nervosa, com palavras confusas. O mundo demora a materializar-se nesta noite de sobressalto. No meio da algaraviada distante, etérea, retém uma frase que o estarrece: «Foge, desaparece daí já, eles vão dar cabo de ti!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;II&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pousa o telefone mas continua a ouvir a voz. Não um eco do aviso: o que ouve é o seu próprio raciocínio a processar-se como o prolongamento de um discurso alheio. Os pensamentos são seus mas as palavras que lhes dão forma soam na sua cabeça com a mesma voz que instantes antes lhe falou ao telefone. Até a semântica lhe parece um atributo do interlocutor que acabou de desligar. Vai demorar algum a tempo a perceber que a voz que ouviu no telefone era a sua. Primeiro dá-se conta que as coisas estranhas que lhe estão a acontecer — a localização errada da janela, o toque familiar e irritante do aparelho, a voz perturbada e o aviso ameaçador — não são de facto estranhas, apenas &lt;em&gt;passadas&lt;/em&gt;. Quer dizer, não necessariamente passadas, no sentido de decorridas, já vistas, mas pertencentes ao rol de coisas que tiveram um tempo e uma razão para acontecer. São ainda quase só peças vagas, periféricas, de um &lt;em&gt;puzzle&lt;/em&gt; maior, mas o homem tem um vislumbre do retrato que elas formam. Não se trata de um&lt;em&gt; dejà-vu&lt;/em&gt;, mas de uma espécie de memória. Ainda não talvez de um acontecimento, mas certamente de uma probabilidade.&lt;br /&gt;Se a sua intuição estiver certa, não lhe resta outra coisa senão pôr-se a milhas e sem demoras. Mas há uma resistência a vencer. Temos sempre dificuldade em acreditar nas coisas absurdas, mesmo que elas sejam o que de mais real e palpável se nos oferece no momento.&lt;br /&gt;Sai da sala e, sem acender qualquer luz, vira à direita, levando o seu pânico para uma escuridão ainda mais densa. No dia de ontem teria batido com o nariz numa parede ao segundo passo, mas hoje está ali uma outra porta, a da cozinha, a de uma cozinha ampla e antiga que existiu há muitos anos. O compartimento de chão em mosaicos gordurosos é a sua confirmação. Aquela cozinha ratifica uma crença indesejada, a fé de quem não queria testar fé nenhuma. Preferia que não estivesse ali, não existisse, mas agora que não consegue mover-se sem se segurar nas paredes, titubeante, uma parte de si agradece que algumas velhas certezas se façam presentes. Há uma ameaça terrível a recuperar o tempo perdido, mas há também um frigorífico recheado de cervejas. Ainda não o abriu, mas sabe que tem de estar recheado de cervejas, caso contrário a sua intuição falhou e o que está a acontecer não pode estar a acontecer.&lt;br /&gt;Não se deixa uma bebida a meio e um pesadelo não se vive pela metade. O gesto que o reconforta (beber uma cerveja gelada) é o gesto que o condena: entrou no jogo. Poderia ter tentado regressar à cama e dormir, esperar que tudo passasse. Mas entrou no jogo. Mordeu o isco. Bebeu a cerveja até ao fim (os dedos trémulos a derramarem parte do líquido pelos queixos) e com ela ingeriu o fel.&lt;br /&gt;«Foda-se, tenho de fugir!» Não acordar, não afastar o véu de um pesadelo. Fugir. Recuar perante o abominável, desaparecer antes que &lt;em&gt;eles&lt;/em&gt; dêem cabo dele. Eles. Os habitantes de um tempo que regressa. Escapou-lhes uma vez. Tem de o tentar de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desce as escadas do prédio de três em três e irrompe na rua como se saísse para a luz do dia. Os candeeiros alaranjados são como sóis, ferem-lhe a vista. Cruza os braços sobre os olhos.&lt;br /&gt;— Eh, amigo! Saiu agora da urna? É só a iluminação pública, o sol ainda tarda.&lt;br /&gt;O tipo que diz isto está sentado de encontro à parede da fachada, com um cigarro nos dedos e um ar nervoso, que tenta disfarçar. Não é um sem-abrigo, as roupas estão desalinhadas mas não gastas ou rotas. Está bêbado.&lt;br /&gt;Samuel, ofegante, olha para a esquerda e para a direita, vai desatar a correr para um dos lados da rua e tem poucos segundos para escolher o melhor caminho.&lt;br /&gt;— Se fosse a si, não ia por ali. As coisas estão demasiado quentes para aqueles lados. — O homem aponta com o queixo. Tem uma garrafa enfiada num saco de papel, pousada ao seu lado. Mexe-se para procurar uma melhor posição e tomba a garrafa. — Merda! Já não era muito e agora foi-se. Tem um cigarro?&lt;br /&gt;Samuel olha-o no último instante e estaca: o homem segura uma pistola na outra mão.&lt;br /&gt;— Você é um deles? — pergunta, como se as palavras estivessem ali atrás dos dentes à espera que ele abrisse a boca para elas saírem.&lt;br /&gt;— Um deles? — o bêbado afasta a garrafa com o cano da pistola. — Claro que sou um deles. Não sei se isso é bom para si ou não, mas claro que sou um deles. Não se nota?&lt;br /&gt;— Deveria notar-se? — Samuel está confuso e fala sem pensar. Acabou de acordar com o pior telefonema da sua vida e tem medo e uma grande dificuldade em assentar as ideias. Não consegue perceber que parte da sua vida foi um sonho e quando o sonhou. Sabe apenas que o passo seguinte é fugir. Desaparecer de circulação.&lt;br /&gt;— É parte do contrato notar-se — diz o outro. — Você não veste um hábito se não for um padre, não é? Isto é o meu hábito — acrescenta, encostando a pistola ao peito.&lt;br /&gt;Samuel repara nas letras fluorescentes do blusão do homem. Há também uma fita com um distintivo a pender-lhe do pescoço.&lt;br /&gt;— Polícia…&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eles&lt;/em&gt; são a polícia? Que merda fez exactamente para que o persiga a polícia?&lt;br /&gt;— Parabéns! Você é perspicaz! — zomba o outro. — Vou acabar por simpatizar consigo. — E continua: — Já consegue abrir os olhos? Se quiser posso eliminar alguns destes lampiões. — Aponta vagamente a pistola a um dos postes de iluminação.&lt;br /&gt;Samuel abana a cabeça.&lt;br /&gt;— De que adiantaria isso? — pergunta retoricamente, a alimentar uma conversa que não quer manter.&lt;br /&gt;— De nada, é verdade. De resto, não temos tempo, é melhor que nos ponhamos a andar. — O agente faz um esforço para se erguer.&lt;br /&gt;— &lt;em&gt;Nos&lt;/em&gt; ponhamos? — questiona-o Samuel.&lt;br /&gt;— Porra que você está cheio de perguntas! Ouça: não sei de si, mas eu tenciono estar longe quando as coisas acontecerem.&lt;br /&gt;Samuel está cheio de perguntas, a abarrotar delas. Em cada minuto que passa o &lt;em&gt;stock&lt;/em&gt; cresce e ameaça vergá-lo sob o seu peso.&lt;br /&gt;— Sim, era isso mesmo que eu ia fazer. Desaparecer daqui. — E Samuel faz tenção de andar em passo rápido no sentido descendente da rua.&lt;br /&gt;O homem do blusão e do distintivo é um enigma, não um portador de respostas. Um enigma supérfluo, algo com que ele não devia perder tempo. Mas o polícia não parece disposto a ser apenas um acidente.&lt;br /&gt;— Espere, ajude-me a levantar.&lt;br /&gt;Samuel hesita e acaba por se virar.&lt;br /&gt;— Não tenho tempo. Se não me vai prender, deixe-me ir.&lt;br /&gt;— Prendê-lo? Mas se foi você que nos chamou…&lt;br /&gt;— Eu chamei-o?&lt;br /&gt;O agente está de pé.&lt;br /&gt;— Sim. Rua da Trindade, número 256, certo?&lt;br /&gt;Samuel ouve-o recitar a morada e identifica a ladainha, mas ele não habita aquele endereço. Não há anos. No entanto, olha em volta e reconhece a Rua da Trindade. Que merda se está a passar?&lt;br /&gt;— Você parecia assustado, quando ligou, há meia hora. Ainda está, aliás, mas quem não anda assustado por estes dias? É por causa daquilo, não é? — E volta a apontar o cimo da rua com o queixo.&lt;br /&gt;— Aquilo?...&lt;br /&gt;O agente não o ouve.&lt;br /&gt;— «Uma vizinhança calma», diziam na esquadra. «Mandamos reforços logo que possível.» Conversa! Eu bem sei com que reforços posso contar… Conhece aquela loja das bombas de gasolina, as da rotunda? Ali estão os meus reforços. Centilitros deles nas prateleiras, em belas garrafas!&lt;br /&gt;— Está-me a dizer que eu telefonei à polícia? Posso perguntar porquê? — De súbito uma esperança, agarrar uma pista.&lt;br /&gt;— Eu acho que você sabe por quê — diz o agente.&lt;br /&gt;Antes que ele possa retorquir, ouve-se um tiro e o polícia cai de costas no chão, um buraco no peito e sangue a jorrar. Samuel fica paralisado por alguns instantes. Depois sai do torpor e olha para todos os lados, a cabeça recolhida nos ombros, à espera de outros disparos. Não consegue ver o atirador, mas percebe que a urgência de fugir acabou de duplicar. Esta ameaça tem uma forma, e disso vem um certo conforto: saber de que se foge, do que é preciso proteger-se. A seus pés, ao lado do corpo caído, está a pistola do agente. Samuel baixa-se para pegar na arma como se o fizesse por um instinto de repente activado. Agarra-a e repara que o polícia abre os olhos naquele momento.&lt;br /&gt;— Julga que isso o vai ajudar? Não pode escapar, amigo. Não pode escapar. — Depois destas palavras, o ferido desfalece. Terá morrido ou apenas desmaiado? Samuel está tomado pelo pânico, sai dali a correr subtraindo-se à obrigatoriedade moral de socorrer os necessitados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;III&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega ao fundo da rua sem que se ouçam mais disparos. Nenhum som de passos o persegue ou quebra o silêncio da noite. Não se abrem janelas curiosas nem soa qualquer ambulância ao longe. Apenas o ruído abafado das sapatilhas que calçou à pressa e uma respiração ofegante, a sua. A Trindade era uma rua comprida e, tirando o absurdo de ele se encontrar ali, continua igual. Demorou quatro minutos a chegar ao cabo, à rotunda, onde havia, há, uma loja de conveniência, aberta vinte quatro horas por dia. Quatro minutos o distanciam de um tiro que provavelmente lhe era dirigido. Uma distância ínfima. Talvez não seja suficiente o resto da noite para o afastar do que o persegue. Talvez uma vida não seja tempo suficiente para isso, mesmo que consiga sair sempre da trajectória das balas. Mas tem de procurar ganhar distância, não há outra coisa a fazer.&lt;br /&gt;Na loja, com o seu comprido balcão de bar, misturam-se os últimos noctívagos, gente tomada pela insónia, e uns poucos que amaldiçoam a necessidade de madrugar. É um cruzamento de quotidianos com sentidos díspares. Num dia normal, Samuel entraria ali esbaforido, aterrorizado, a relatar o crime que acontecera à sua frente momentos antes. Mas este não é um dia normal. Ele não sabe ainda o que é, só que tem de o temer. Não dirá nada a ninguém: um corpo abatido pode ser coisa simples de explicar, mas tudo o resto é indizível.&lt;br /&gt;Faz a curva e corre ao longo da vitrina. Tem de continuar a fugir, mesmo que não saiba para onde, nem durante quanto tempo. Pelo canto do olho espera ver olhares vagamente curiosos, uma indiferença mal interrompida, uma pausa no desinteresse. Porém, a vitrina é uma janela com vista exclusiva para Samuel. Ao darem pela sua passagem, as pessoas amontoam-se no interior junto ao vidro, dezenas de olhos focados nele. Quando pensa que quase explode de inquietude descobre que a noite tem ainda mais alguma coisa reservada para ele. Desejaria ter contornado a rotunda pelo outro lado, mas vai tarde. Ao chegar à porta, alguns braços detêm-no e puxam-no para dentro da loja.&lt;br /&gt;— Como estão as coisas lá em cima? — pergunta um dos homens.&lt;br /&gt;Samuel tem a língua paralisada. Os sustos somam-se vertiginosamente e ele não imagina como pode o seu coração bater mais depressa sem rebentar.&lt;br /&gt;— Calma — diz outra voz —, o homem está em pânico. Deixem-no respirar um pouco.&lt;br /&gt;Servem-lhe um copo de água e fazem-no sentar numa cadeira. Samuel preferiria uma bebida alcoólica forte.&lt;br /&gt;— Já começou? — voltam as perguntas, ansiosas.&lt;br /&gt;— Perdão, não sei de que falam — balbucia Samuel.&lt;br /&gt;— Como não sabe? Você não vem de lá? — insiste o grupo.&lt;br /&gt;— De &lt;em&gt;lá&lt;/em&gt;? Onde é lá? — Esta é uma puta de uma noite de enigmas e perplexidade, pensa Samuel. Tem de fugir e as perguntas e as bizarrias não param.&lt;br /&gt;Os homens entreolham-se.&lt;br /&gt;— De certeza que não sabe? — É um homem entroncado que fala, talvez o gerente. — Acalme-se um pouco e diga-nos o que viu?&lt;br /&gt;— Pode servir-me um &lt;em&gt;brandy&lt;/em&gt;? Não consigo pensar direito.&lt;br /&gt;Samuel precisa de tempo, de recuperar algum controlo. Precisa de ganhar a iniciativa, ser ele a fazer as perguntas e a obter respostas. Toda a gente sabe alguma coisa mais do que ele e no entanto estão todos ansiosos por esclarecimentos que ele não tem.&lt;br /&gt;Alguém lhe passa um grande copo de balão com um líquido espesso para as mãos. Ele procura dinheiro nos bolsos, uns bolsos que lhe parecem estranhos, como se tivesse vestida roupa emprestada. Apenas sente a pistola do polícia e alguns papéis.&lt;br /&gt;O gerente dispensa o pagamento com um gesto breve. Interessa-lhe algo diferente.&lt;br /&gt;— Tem alguma informação para nós? Todos vimos como você vinha a correr de lá de cima. Alguma coisa deve ter visto.&lt;br /&gt;— Ouçam, eu acabei de acordar… — ia dizer na cama errada e na noite errada, mas conteve-se a tempo. Não sabe em quem pode confiar (como poderia sabê-lo?) e nem sequer sabe quando acordou ou quando começou a sonhar. «Não será isto um pesadelo?» — Venho do número 256, a meio da rua, e só tive tempo de chegar aqui.&lt;br /&gt;— Do número 256? — dizem várias vozes em simultâneo.&lt;br /&gt;Após um instante de hesitação, todos se afastam. Samuel não consegue perceber que tipo de sentimento provoca a menção do número da sua porta (da &lt;em&gt;sua&lt;/em&gt; porta quando a Rua da Trindade era a &lt;em&gt;sua&lt;/em&gt; rua), mas nota alterações nos semblantes em volta, um breve sobressalto e um recuo. Alguns rostos parecem-lhe enojados, outros assustados e outros ainda apiedados. Não encontra neles, com o seu espectro de expressões ambíguas, resposta a nada.&lt;br /&gt;A noite encerra dois tipos de medo: o seu e o da população. São de alguma forma coincidentes. Coexistentes. O seu é um terror subterrâneo, entranhado, instigador. Sente-o profundamente, brada-lhe do âmago. É fruto de uma ameaça que quase consegue palpar mas não consegue descrever ou nomear. Não fora de uma certa conjuntura, que reside algures nos campos da memória, ou daquilo que ele julgava ser memória, passado. O outro é um sentimento colectivo, mas alheio a si, Samuel, com origem numa geografia vaga que a expressão &lt;em&gt;lá em cima&lt;/em&gt; designa e delimita. É um medo aparentemente conhecido e partilhado na mesma medida por todos os que o rodeiam. Apenas ele não o sente, ignora-o, ainda que penda igualmente sobre a sua cabeça. «Como se articulam?», pergunta-se Samuel. «Como se articula, para lá de uma coincidência absurda, o meu medo e isto que domina as pessoas nesta noite? Sonho ainda? Alguma vez deixei de o fazer? Não saí da Rua da Trindade, há muitos anos, senão em sonhos?» Demasiadas questões.&lt;br /&gt;— Morreu um polícia — acrescenta de súbito Samuel, sem perceber minimamente por que o faz. Não controla todas as suas acções, vivem nele várias vontades e consciências.&lt;br /&gt;Os homens voltam a olhá-lo por breves segundos, mas já não se interessam por ele. Remeteram-se a uma apatia colectiva que transforma a loja numa espécie de museu de cera. Não ocorrem conversas e os movimentos são mínimos, quase só os da respiração. A televisão está desligada e os jornais permanecem dobrados a um canto do balcão. Não há jogos de tabuleiro e os copos e as chávenas estão pousados sobre as mesas. A sala inteira aguarda, suspensa.&lt;br /&gt;— Por favor — insiste Samuel —, seria possível alguém dizer-me o que se passa?&lt;br /&gt;Não obtém qualquer resposta. Os olhares voltam-se para ele como se voltariam para um carro que passasse na rua, por reflexo condicionado. Depois todos regressam à quietude anterior.&lt;br /&gt;Samuel bebe o resto do &lt;em&gt;brandy&lt;/em&gt; e isso traz-lhe um ligeiro conforto. «Pelo menos ninguém aqui quer ajustar contas comigo», pensa. E ao pensar isto a Rua da Trindade torna-se-lhe ainda mais familiar. É disso que se trata, eles querem ajustar contas. Agora que verbalizou a ideia, ainda que interiormente, reconhece com um pouco mais de clareza a fonte do seu medo, a razão por que deve fugir, desaparecer.&lt;br /&gt;Os homens da loja já não o seguram, seria portanto a altura de retomar a evasão, mas demora-se mais uns instantes, como se prolongasse um prazer raro. Talvez não tenha tão cedo gente do seu lado, ou, pelo menos, pessoas com um ânimo neutro, sem uma animosidade particular em relação a ele.&lt;br /&gt;Há meia hora atrás, enquanto dormia (se puder considerar com alguma firmeza que entretanto acordou), e mesmo antes de se deitar, quando a sua vida se desenrolava muito longe da Trindade, não imaginaria que pudesse desembocar numa situação destas, que se transformasse num acossado. No entanto, encarnou o papel sem lhe resistir suficientemente, como se estivesse há muito pronto para se sentir assim, como se vivesse finalmente uma inevitabilidade apenas adiada.&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;brandy&lt;/em&gt; e a quietude da sala entorpecem-lhe os sentidos, cabeceia um pouco na cadeira onde o sentaram. Sabe que é um erro interromper a fuga desta maneira, permitir que os seus perseguidores ganhem terreno. Não deveria conceder-se o luxo da pausa, agir como se se conformasse com o destino, cordeiro voluntário para a imolação. Levanta os olhos e é deste modo que vê os circunstantes: seres passivos que almejam temerosamente uma resposta sobre o insondável ou aguardam o seu terrível advento com uma resistência pouco mais do que nominal. O seu reflexo no espelho que cobre uma das paredes irmana-se ao de todos os outros, e isso incomoda-o. Assusta-o, ainda mais, aquela comunhão e por isso odeia-a. Ver-se assim misturado, o seu pânico nivelado pelo pânico dos outros, desperta uma raiva antiga dentro de si. Mas de repente o espelho estilhaça-se e ele reage como uma mola bruscamente livre da força que a submete.&lt;br /&gt;Vários tiros de pistola semeiam o caos no estabelecimento e derrubam meia dúzia de corpos. Samuel sente a proximidade dos disparos, o seu corpo estreme com eles, mas escapa incólume. Olha em volta e vê cada homem tombar como se fulminado pelos seus olhos no momento em que os pousa neles. A sensação é tão vívida que ele se obriga a fechar os olhos, embora continue a adivinhar os impactos das balas à sua volta. Sente de novo a energia que o abandonara, a adrenalina que o medo lhe injectara em sequência do telefonema. Corre em direcção às traseiras, subitamente na posse de todo o conhecimento geográfico do bairro e dos seus edifícios. Deixa o caos da loja e sai através do armazém para uma rua estreita e escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;IV&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falharam. Se era a si que procuravam atingir, &lt;em&gt;eles&lt;/em&gt; falharam. Pela segunda vez. Mas porque teriam eles falhado, se o tinham ali à mão?&lt;br /&gt;Há tanta coisa a compreender nesta noite. Tem consciência que para compreender é preciso açaimar o medo, mas o medo é o motor que o faz agir. Terá, portanto, de conseguir raciocinar no meio do medo.&lt;br /&gt;Ao fim de oitenta metros de corrida o beco inflecte para a direita e termina de encontro a um muro de tijolo. Ele lembra-se deste muro de tijolo. Nada disto deveria existir já na sua vida, mas tudo existe nos exactos locais que a memória vai redescobrindo. No entanto, reconhecer o muro não o descansa. Um muro no fim de um beco encurrala quem, fugindo, topa com ele. Samuel está encurralado. A memória não o ajudou suficientemente e agora sente-se encostado a um muro à mercê do pelotão de fuzilamento. Volta-se, mas não há nada atrás dele além do eco dos seus passos.&lt;br /&gt;Todavia não o descansa não haver mais ninguém no beco. Aquilo de que ele tem de fugir está presente mesmo que ele não vislumbre os fautores. É de certeza uma questão de minutos até eles se materializarem e tornarem física a ameaça e inevitável o castigo. Não pode, por isso, perder tempo a tentar adivinhar por onde surgirão e a forma que adoptarão. O seu único pensamento deve ser a fuga. A qualquer custo, por qualquer processo. Fugir. Mesmo que venha a descobrir ser isto um sonho, tem de fugir. Não há outra forma de garantir a segurança, a sobrevivência. Fugir, mesmo que de um pesadelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Nunca pára de crescer o número daqueles por quem rezamos — diz o velho sentado no terraço da casa, às escuras. Samuel assusta-se com ele, mas a quietude da figura fá-lo acreditar que dispõe de alguns instantes para avaliar a situação.&lt;br /&gt;Acabou de galgar o muro de tijolo e atravessar a correr o jardim decrépito e sujo que constitui o pátio traseiro de um edifício oitocentista.&lt;br /&gt;— …A não ser que paremos de nos relacionar com o mundo — prossegue o outro. — Eu fi-lo, quando percebi que as minhas orações se começavam a parecer com as de um sacerdote desmedidamente piedoso: demasiado ambiciosas na sua amplitude, e, portanto, inúteis.&lt;br /&gt;Samuel encosta-se ao tronco de uma árvore. Provavelmente o velho não o viu e está a falar consigo próprio. Parece-lhe ter a idade e o perfil que favorecem estes devaneios.&lt;br /&gt;— Também é certo que só rezamos por quem abandonámos: a oração é irmã do remorso. Quando oramos confessamos que nos permitimos perder ou afastar alguém. Eu rezo muito. Demasiado. Você já começou a rezar?&lt;br /&gt;Samuel recebe as palavras como projécteis. Alheou-se por momentos do fio condutor do discurso e a última frase soa-lhe a ameaça, como se o velho lhe apontasse uma caçadeira lá do alto e estivesse prestes a dispará-la.&lt;br /&gt;Reage empunhando a pistola do polícia. Surpreende-o a facilidade e a qualidade da sua reacção, mas ao mesmo tempo sente-se confortável por tomar em mãos a sua própria defesa. É muito melhor esta espécie de instinto belicoso do que ceder permanentemente ao filho da puta do medo. Não é que tenha deixado de o sentir, mas agrada-lhe contrapor-lhe alguma espécie de iniciativa.&lt;br /&gt;— Não, eu não rezo — diz, segurando a arma a tremer.&lt;br /&gt;— Ah, não acredita no juízo final.&lt;br /&gt;Será o velho um deles? O seu aspecto é inofensivo, sentado na cadeira de baloiço como se tivesse tombado por cima dela e já não conseguisse levantar-se. Mas Samuel dificilmente poderá confiar em alguém.&lt;br /&gt;É imperioso que continue o seu caminho, mas de cada vez que o abordam renova-se nele a esperança de uma pista, um sinal, algo.&lt;br /&gt;— Deveria rezar? — Tem de haver nos idosos uma sapiência qualquer. Samuel decide que pode escolher outra hora para ser assertivo. Agora gostaria de ouvir o velho sobre isto.&lt;br /&gt;— Ou evitar encontros — diz-lhe o velho. — Um dia afastamos aqueles que foram postos no nosso caminho e acabamos a rezar por eles. Mas suponho que evitar encontros é algo que não está nas nossas mãos, não fomos programados para evitar encontros.&lt;br /&gt;O velho não se distingue dos outros. Fala por enigmas e apenas adiciona dúvidas à sua incerteza. No entanto, Samuel imagina que há-de ser uma coisa boa chegar àquela idade e sentarmo-nos no terraço com vontade de rezar pelos que perdemos. Aceitaria um convite para subir ao terraço e arrastar uma cadeira para junto do velho, ficar por ali uns minutos a tentar perceber quem precisa de uma oração sua e a dizê-la com convicção. Vê-se facilmente a cair de joelhos e mãos postas, ainda que neste momento tenha dificuldade em adivinhar por quem o faria.&lt;br /&gt;— Os tolos andam temerosos por estes dias — diz o velho. — É você um deles?&lt;br /&gt;Que coisa estranha ver-se questionado desta maneira. Há um &lt;em&gt;eles&lt;/em&gt; também para Samuel?&lt;br /&gt;— Poderia não sê-lo? — pergunta por sua vez. É uma outra forma de tentar encontrar o caminho: prosseguir por exclusão de partes.&lt;br /&gt;— Quando um homem segura uma arma como você o faz e não tem intenção de nos assaltar a casa dir-se-ia que receia alguma coisa.&lt;br /&gt;— Como sabe que não tenciono assaltar-lhe a casa? — pergunta Samuel.&lt;br /&gt;— Ainda não fez, não é? Permito-me apostar que não o quer fazer.&lt;br /&gt;— Não, não quero — diz Samuel. — Na verdade, há muito que devia estar longe daqui. — E baixa a arma.&lt;br /&gt;— Vivemos dias estranhos. Mas talvez você possa subir aqui um pouco e descansar antes de retomar a corrida. Diz-se que a hospitalidade é outra forma de nos redimirmos.&lt;br /&gt;Eis o convite. Sim, talvez Samuel possa subir ali um pouco e puxar uma cadeira para o lado do velho. Ainda não se afastou o suficiente para sentir qualquer espécie de sossego, mas há uma calma agradável a envolvê-lo neste jardim desleixado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;V&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acorda meia hora depois, de novo alagado em suor. Foi uma ideia estúpida ter-se sentado ao lado do velho. Em que estaria a pensar? Há uma ameaça pendente sobre a sua cabeça e ele demora a desaparecer dali, quando desaparecer é condição essencial para sobreviver.&lt;br /&gt;— Um homem não deveria ter segredos… Ou amigos — diz o velho, como se Samuel não tivesse estado ausente por meia hora. Mantém a mesma imobilidade ligeiramente balanceada pela cadeira e o mesmo olhar pousado sobre um horizonte imperscrutável. — Os primeiros não resultam de escolhas que se possam fazer: simplesmente caem-nos nos braços, e no momento em que tomamos consciência de que são segredos já só podemos tentar minimizar os seus efeitos. Quando pedimos a alguém segredo sobre algo que de facto o seja, estamos na verdade a pedir indulgência ao destino e cumplicidade no crime ao confidente. Não há segredos felizes: nenhuma coisa que precise de ser silenciada é benévola ou motivo de verdadeiro júbilo. Foi feita contra alguém ou teme a acção de outrem.&lt;br /&gt;O maxilar do velho move-se por mais algum tempo após estas frases, em silêncio e iluminado pela luz escassa da janela nas suas costas, como se ruminasse alimentos ingeridos anteriormente ou treinasse palavras mais eloquentes. Depois retoma o discurso:&lt;br /&gt;— Quanto aos amigos, os únicos que resultam inofensivos são os que menos prezamos, os que desaparecem antes de abrirmos a boca sobre os segredos. Os outros, os que ouvem e garantem ser túmulos, revelam rapidamente a sua vocação de censores ou delatores, mesmo que penitentes. Ninguém ouve com indiferença o que quer que seja sobre passos em falso. O erro e o azar afligem e pedem condenação e purga. Os amigos só a nós oferecem silêncio — e apenas se puderem ir a correr, para seu alívio, largar a infecção nos ouvidos, para eles indulgentes, de terceiros. Quem descobre ter um segredo deveria estar imediatamente disposto a perder os amigos.&lt;br /&gt;Samuel ouve sem interromper. O velho parece e soa como um contador de histórias, de histórias plenas de moral, severas como antigos padres ascetas. No entanto, as palavras que ele profere encerram uma outra moral ou pelo menos a ausência de ortodoxia. Não é a velha filosofia católica o que ouve.&lt;br /&gt;— Em tempos cometi um crime — continua o velho. — Vi uma oportunidade de negócio e agarrei-a com unhas e dentes. Não era uma coisa legal, mas não havia nada de muito mau no assunto. Ou pelo menos eu assim o julgava. Passados poucos dias descobri que o meu negócio provocara a ruína de um homem e que este, desesperado, decidira cometer suicídio. Não usei as minhas mãos para matar aquele homem. Na verdade, nada do que se passou com ele teve a minha intervenção directa. Eu lidei com dinheiro, e de uma forma abstracta. Não havia notas para contar nem nomes ou rostos. Apenas acções e números de contas bancárias, códigos. E, antes de tudo, uma inconfidência fatal; uma pequena traição empresarial que eu aproveitei em benefício próprio.&lt;br /&gt;Fora deste terraço há medo. Samuel sentiu-o por todos os lados que passou. Ele próprio transporta uma carga insuportável desta emoção. Acordou com ela e viu-a confrontada, sem benefício, com a versão dos outros que se cruzaram com ele. É um homem em fuga porque sabe que por trás do medo vêm aqueles que o infligem, os que anseiam causar-lhe danos ainda maiores do que o medo. No entanto, Samuel subiu a um terraço e permitiu-se dormitar, como se permite agora sentir curiosidade por uma história. Tem a certeza definitiva de que a fuga é algo urgente, inevitável, inadiável. Mas ouve-se encorajar o velho a continuar a sua história.&lt;br /&gt;— Aconteceu-lhe alguma coisa? Quer dizer, a sua fraude foi descoberta? Culparam-no por aquela morte?&lt;br /&gt;— Porque haveriam de o fazer? Pensei que tinha dito que não matei aquele homem… Nada foi descoberto. Mas, sim, eu sabia que a sociedade estava pronta para me julgar e condenar. A lei nada poderia fazer quanto ao suicídio, mas o juiz que tivesse a oportunidade de me deitar a mão pelo resto certamente arranjaria maneira de agravar a pena. A justiça não é alheia à moralidade da época. Eu próprio não fui alheio à moralidade da época. Em poucas semanas estava a rezar frequentemente pela alma do suicida e pelo conforto dos seus herdeiros espoliados. Em vez de gastar o dinheiro que ganhara, comecei a frequentar a igreja, ajoelhando anonimamente sem horas certas e sem conhecer as orações adequadas.&lt;br /&gt;O velho interrompe-se. Samuel fica a observá-lo a espaços pelo canto do olho. As árvores no jardim abanam os seus galhos como se por entre elas se perseguisse um grupo de foliões. Quase se ouvem os seus risos abafados e maliciosos, mas é apenas o vento da madrugada a levantar-se.&lt;br /&gt;— Ao cabo de dois meses sem tocar no dinheiro — prossegue o velho —, já não aguentava o segredo dentro de mim. Precisava de o contar a alguém, de aliviar a consciência. Confessar-me a um padre não me servia, não era a absolvição ou o castigo o que eu buscava. Na verdade, precisava de um cúmplice, alguém com quem partilhar a culpa. Um confessor não aceita carregar parte do nosso fardo: apieda-se ou julga-nos, mas, depois da retórica, deixa-nos intacta a carga nos ombros. Um amigo pode fazê-lo, isso era o que eu pensava. Um amigo pode ouvir-nos e pôr-se no nosso lugar. Fazer-nos sentir por instantes que foi um crime a dois, confortar-nos com a cumplicidade. Que não atravessamos sozinhos o deserto, alguém caminha connosco, mesmo que o sol o não fustigue tanto.&lt;br /&gt;— Tinha amigos assim? — pergunta Samuel.&lt;br /&gt;— Não há amigos assim — responde secamente o velho. — Se tem algo para fazer, esqueça os seus amigos ou implique-os desde o princípio. Caso contrário, eles abandoná-lo-ão. Mas isso não é o pior. O pior é aquilo que você lhes pode fazer a eles…&lt;br /&gt;Novo silêncio. Samuel mantém-se atento à escuridão, agora ameaçada pelas primeiras pinceladas de luz a nascente. O velho hesita um pouco, está indeciso sobre qual a finalidade do seu discurso. Ou Samuel é que o imagina deste modo, a ponderar que moralidade há-de encerrar a narrativa.&lt;br /&gt;— Deveria ter ido procurar um padre — diz num sussurro o velho. Depois repete-se em tom mais alto e determinado. — Deveria ter ido procurar um padre. O meu amigo não aceitou que a minha confissão não tivesse uma consequência. Acima da amizade estava a moral ou a justiça, uma destas coisas a que ele acreditava dever obedecer cegamente. Eu não desejara a morte daquele homem, nem a infelicidade dos seus herdeiros. Não tinha como saber a dimensão das implicações do meu negócio. Ocorrem dezenas deles por ano sem que passem de percalços, chatices para os lesados. Porque deveria aceitar crucificar-me por uma vez terem as coisas corrido pior do que era previsível? Não havia da minha parte motivação, intenção, nada que fizesse daquela morte algo útil. Lamentava-a, pesava-me na consciência, mas apenas desejava que compreendessem o meu remorso, não que exigissem a minha cabeça por ele.&lt;br /&gt;— O que fez o seu amigo? — pergunta Samuel.&lt;br /&gt;— A princípio, instou-me a assumir a minha responsabilidade, mas jurou silêncio. Ao cabo de pouco tempo, queria ser a voz da minha consciência, voltava ao assunto sem descanso, impedindo-me de o tentar esquecer. Num mês estava a ameaçar entregar-me à polícia. Declarou que não podia ser cúmplice de uma coisa assim. E o pior é que eu tive a certeza de que ele o faria, que me delataria.&lt;br /&gt;— Fê-lo?&lt;br /&gt;O velho ignora a pergunta.&lt;br /&gt;— Naquela altura, ir a tribunal não teria sido uma tragédia insuportável. Dois ou três anos na prisão e a censura social. Mas, se estamos dispostos a achar-nos inocentes, nenhuma tragédia pessoal nos parece insignificante. O meu amigo e eu tivemos um acidente de carro, à noite, numa estrada desolada. Ele ficou gravemente ferido e eu apenas atordoado. Havia uma quinta com telefone a poucas centenas de metros, mas eu sentei-me na berma até que os primeiros carros da manhã dessem com o cadáver dele.&lt;br /&gt;— Deixou-o morrer?! — sobressalta-se Samuel.&lt;br /&gt;— Na minha cabeça — diz o velho — continuávamos em discussão. Procurei, pela noite fora, tentar garantir que não me denunciasse. Suponho que o consegui.&lt;br /&gt;Samuel mexe-se com desconforto na cadeira. Deveria dizer alguma coisa, mas não sabe o quê. Não tem a certeza de perceber o que acabou de ouvir. Nesta noite bizarra não tem a certeza de nada, nem sequer se acordou para um pesadelo ou continua a sonhar um. O medo, aquele medo pânico de há pouco, regressa lentamente, como um formigueiro que sobe pelas pernas.&lt;br /&gt;O velho ainda não acabou a sua história.&lt;br /&gt;— As minhas orações tornaram-se mais demoradas: havia uma nova família a precisar delas. — Dá um impulso na cadeira e esta range nos balanços iniciais. — A inutilidade da oração torna-se evidente quando damos conta que aqueles por quem rezamos se somam como chumbo a um lastro sem que nunca nos sintamos autorizados a alijar uma parte da carga. Organizamos as preces segundo uma hierarquia ou uma cronologia, mas não substituímos ou esquecemos ninguém, ninguém logra subtrair-se à necessidade de que intercedamos por eles. Rezamos cumulativamente e ninguém se salva.&lt;br /&gt;O velho suspira e Samuel alivia o colarinho. Talvez devesse saltar agora e correr sem olhar para trás, mas o velho pousa-lhe a mão sobre o braço.&lt;br /&gt;— Conheci a que viria a ser minha mulher no funeral do meu amigo, e isso foi determinante. Eles não se conheciam (a minha mulher fora apenas acompanhar uma prima), mas não pude deixar, um dia, de lhe contar as circunstâncias daquele acidente e por que razão eu ajoelhava todas as noites antes de me deitar.&lt;br /&gt;Subitamente, um grito atravessa a noite. Samuel, assustado, volta o rosto para o lado de onde provém o som e nota que o velho faz o mesmo.&lt;br /&gt;— Terá começado? — pergunta o velho, mostrando pela primeira vez alguma curiosidade pelo mundo exterior.&lt;br /&gt;Samuel reconhece a pergunta, já a ouviu antes nesta noite.&lt;br /&gt;— O que há para começar? Que raio está para acontecer? — Nota que tem os pêlos dos braços arrepiados e um aperto no peito que parece esmagar-lhe o tórax.&lt;br /&gt;O velho ignora-o. Depois de soar o último eco do grito e de ele ter ficado um pouco à escuta, recupera a narrativa com o seu ar indiferente, distante.&lt;br /&gt;— Estivemos juntos três anos e eu amava-a. Mas também ela não resistiria aos meus segredos. Vi-o nos seus olhos quando apenas começava a falar-lhe e os cadáveres ainda não estavam revelados. Vi a censura a despontar. Uma centelha, a chama que atearia a grande fogueira se eu o permitisse.&lt;br /&gt;«Se eu o permitisse»… A atenção de Samuel oscila nervosamente. Está suspenso da noite, das suas ameaças, mas não consegue evitar ser ouvinte da estranha história do tipo ao lado de quem aceitou sentar-se. Não só pelo magnetismo que uma biografia destas pode exercer: sente-se preso a um código pelo qual os anfitriões, este género de anfitriões, detêm a prerrogativa de dar por terminados os encontros. A não ser que o medo da ameaça exterior possa mais, não sairá daquele terraço enquanto não for dispensado.&lt;br /&gt;— Talvez ela, que também me amava, não fosse a correr à polícia — continua o velho. — De resto, eu não cometera mais do que uma fraude, uma vulgar fraude: o que veio a seguir estava fora do meu poder de decisão, ultrapassava a minha vontade, não o poderia ter evitado.&lt;br /&gt;— Na noite do acidente — atreve-se inesperadamente Samuel — quem conduzia?&lt;br /&gt;O velho roda a cabeça e observa-o com surpresa. Depois ignora a pergunta.&lt;br /&gt;— Nunca contei tudo à minha mulher, tive de terminar antes.&lt;br /&gt;Samuel gostaria que não lhe fosse revelado todo o significado daquele «terminar antes», mas o velho não tem contemplações.&lt;br /&gt;— A censura é a antecâmara do ódio. Eu não podia aceitar que a minha mulher me odiasse. Mas o meu silêncio alimentava as suas dúvidas e ela insistia nas perguntas. Depois de ter iniciado as revelações ela já só esperava o pior, mesmo que eu lutasse para a deixar de fora de tudo o que ocorrera. Durou uma semana este braço de ferro. No final, estávamos ambos exaustos e eu simplesmente não tive forças para evitar que ela engolisse o frasco inteiro de &lt;em&gt;Lexotan&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;O velho cala-se finalmente e oferece a Samuel o ar de quem acabou de proferir palavras nunca ditas. Mas ouvi-las é um privilégio que Samuel gostaria de ter podido dispensar. A noite tem estado a fornecer-lhe cadáveres suficientes, não sente necessidade de a condimentar com defuntos alheios. Não é improvável, aliás, que Samuel tenha o seu próprio passamento pronto a servir — e isso deveria fazê-lo concentrar-se exclusivamente em trocar-lhe as voltas. No entanto, aguarda, com consciência do absurdo da situação, um sinal que lhe permita abandonar o terraço sem indelicadeza. E o seu sinal ocorre, enigmático:&lt;br /&gt;— Agora vá — diz o velho. — Tenho as minhas orações pendentes e não tarda você tem de iniciar as suas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VI&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa é um labirinto. Depois de atravessar a sala mal iluminada, com um longo tapete coçado a cobrir as tábuas do soalho, depara-se com várias portas fechadas. A escolha daquela que conduz a algum caminho de saída não é intuitiva. Parece ser um daqueles edifícios em que os compartimentos se ligam uns aos outros sem corredores a fazer a distribuição. Porém, quando abre a porta mais próxima de si, é um corredor aquilo que encontra. Não consegue ver-lhe o fim, menos pela sua extensão, que não é curta, do que pela falta de luminosidade. Tacteia ambas as paredes em busca de um interruptor, mas não encontra tal mecanismo. De qualquer modo, um corredor há-de conduzi-lo a algum lado, basta que o percorra até ao fim. Além disso, se alguém o tiver seguido até ali, é bom que a visibilidade seja a menor possível.&lt;br /&gt;Antes de avançar, imobiliza-se à escuta. A casa está em silêncio e do terraço não vem mais do que o leve ranger da cadeira de balanço do velho. Não comete o erro de pensar que os seus perseguidores lhe perderam o rasto, sabe que isso não é possível, a não ser por um prazo curto. Pergunta-se o que fará o velho quando eles chegarem. Despistá-los-á por cortesia para com um ouvinte paciente ou demorá-los-á com um nova recapitulação da sua história? Uma destas duas coisas ser-lhe-ia muito útil. Mas talvez o velho se limite a ignorar quem chega, sem sequer os observar enquanto eles sobem ao terraço e descobrem como entrar na sala. Ou, pior do que isso, pode ser que lhes mostre voluntariamente o caminho que Samuel tem de descobrir às suas custas.&lt;br /&gt;Ao longo do corredor sucedem-se portas altas de duas folhas e, entre elas, grandes quadros com molduras. Samuel ignora todas as portas. Prefere verificar o que existe no outro extremo, desejavelmente uma escadaria que o leve até à rua. O que quer que seja que exista naquele ponto da casa está por trás de duas portadas de madeira. Ele apalpa o fecho e abre-as de par em par, descobrindo que não chegam até ao chão. É uma janela voltada para um saguão, um pátio interno que apenas deixa ver um pouco de céu, já a adoptar tons lilases. Um cálculo rápido indica-lhe que terá de contornar aquela zona central do edifício. Ajudado pela escassa luz que agora ilumina o corredor, decide escolher a porta da esquerda e entra numa sala cujo mobiliário está coberto por lençóis brancos. «Má escolha», pensa. O caminho de saída há-de atravessar compartimentos em uso. Recua e abre a porta do lado oposto.&lt;br /&gt;Depois de tactear a parede, descobre, desta vez, um interruptor. Liga-o o tempo suficiente para tomar conhecimento daquela divisão da casa. Há uma porta aberta ao fundo, à esquerda, na parede onde ele imaginaria estar o caminho de saída. O compartimento apenas tem janelas para o saguão, pelo que ninguém no exterior terá dado conta da luz que ele acendeu. De resto, outros habitantes da casa poderiam ser responsáveis por uma luz acesa… Este pensamento fá-lo estacar. Por que está ele de repente convencido de que não existem outros habitantes na casa? Não se trata de um palpite. No momento em que o pensou teve a certeza disto: a casa não tem outros habitantes. A sua preocupação com as luzes era não só legítima como assente num inexplicável conhecimento factual. Aliás, as revelações sucedem-se como se acabasse de despertar de um estado amnésico. A planta da casa surge-lhe com nitidez na memória, como se tivesse estado ali antes. Depois desta divisão, lembra-se, tem de atravessar dois outros compartimentos, estes sim sucessivos, sem um corredor a ligá-los. Pensa-o com a segurança de um morador. Sabe que no terceiro compartimento, uma sala com grandes vidraças sobre a rua, existe uma escadaria de mármore com balaustrada em madeira. E que no fundo da escada o espera um vestíbulo com as paredes recobertas de espelhos. Não entende como sabe isto tudo, mas confirma em cada passo o seu conhecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desce a escada e abre devagar a porta da rua. Lá fora está uma pequena multidão. Samuel tem um sobressalto e retrocede, mas pela frincha da porta percebe que as pessoas estão totalmente silenciosas e imóveis, com os olhos postos no cimo da rua. Há uma claridade intensa vinda daquele lado, mas não pode ser o Sol, o Sol não nasce ali. O passeio parece uma parada de manequins, com faces lívidas iluminadas. O aspecto geral da multidão resulta aterrador. Samuel tem de sair à rua para poder ver aquilo que prende o olhar das pessoas e as mantém suspensas.&lt;br /&gt;Arrisca um passo e espreita à sua direita, mantendo todavia uma parte da atenção sobre eventuais movimentos no passeio. Lá em cima tudo está inundado de uma luz laranja, dir-se-ia que a cidade arde. A luz avança, aproxima-se lentamente, e do seu âmago chega um rumor em crescendo. Mais uns segundos e Samuel percebe que se trata de gritos, gritos lancinantes a pouco e pouco mais próximos e perceptíveis. A multidão também ouve os gritos e nos seus rostos vão-se formando esgares, ainda que ninguém quebre o silêncio deste lado da rua. Ninguém excepto uma voz, atrás de si:&lt;br /&gt;— Está a começar.&lt;br /&gt;Samuel volta-se. No umbral da porta está o velho e o seu aspecto agora resulta-lhe familiar.&lt;br /&gt;— O que está a começar? — pergunta Samuel. — Que porra de noite é esta?&lt;br /&gt;— Não sabes? — Samuel não deixa de reparar que o velho mudou a forma de tratamento. — Talvez eles te possam responder, os tolos. — E o velho aponta a multidão estática no passeio.&lt;br /&gt;Samuel lança-lhes um olhar inquieto e esperançado, mas as pessoas permanecem imóveis por mais uns instantes. Depois, como que obedecendo a um sinal inaudível, voltam-se simultaneamente e fogem em pânico pela rua abaixo. Samuel hesita entre acompanhá-los ou esperar mais algum tempo para compreender. Dá-se conta que foi isto o que quis a noite toda: compreender. Na sua cabeça há um enorme &lt;em&gt;puzzle&lt;/em&gt;. Um conjunto grande de peças está lá depositado ou foi surgindo desde que acordou, mas falta ordená-las, dar-lhes um sentido.&lt;br /&gt;— Talvez não haja um sentido ou não existam as peças todas — diz o velho, como se lhe lesse os pensamentos. — Alguns de nós passam a vida a tentar compreendê-la, à vida, ou pelo menos a tentar compreender por que fazemos o que fazemos, mas faltam-nos sempre peças para completar o quadro.&lt;br /&gt;Samuel não consegue decidir o que pensar ou fazer. Tudo é demasiado absurdo. Aquela luz, as pessoas, o velho e a sua conversa.&lt;br /&gt;— Os tolos acreditam que aquilo é o Inferno, e todos se sentem culpados o suficiente para o temer — diz o velho. Depois ri-se: — “Abençoados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus…”&lt;br /&gt;— Isto, esta luz… O que está a acontecer? — insiste Samuel.&lt;br /&gt;— Quem sabe? — diz o velho encolhendo os ombros. — A mim parece-me um fenómeno considerável. Talvez sejamos apanhados por ele, talvez não.&lt;br /&gt;— Você não tem medo? — pergunta Samuel.&lt;br /&gt;O velho vira-se para o clarão no cimo da rua e fica a olhá-lo em silêncio durante algum tempo. Depois abana a cabeça.&lt;br /&gt;— Sabes em que é que eu acredito? — diz o velho. — Em deixar tudo como está. Em não querer compreender.&lt;br /&gt;Entra na casa batendo a porta atrás de si. O número 256, em algarismos recortados numa placa metálica enferrujada, solta-se de um dos apoios e fica a balançar algum tempo, como um pêndulo de um relógio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-5812107456792187782?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/5812107456792187782'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/5812107456792187782'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/03/256.html' title='256'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-7199348280780174482</id><published>2009-03-09T03:16:00.001Z</published><updated>2009-03-10T03:18:13.967Z</updated><title type='text'>[Faça-se constar]</title><content type='html'>Não é um acontecimento, mas a ficha n.º3 está pronta (há umas semanas, aliás) e vai ser arquivada amanhã, depois de o mangas-de-alpaca verificar a sua conformidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-7199348280780174482?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/7199348280780174482'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/7199348280780174482'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/03/faca-se-constar.html' title='[Faça-se constar]'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-2966006624152538029</id><published>2009-03-02T23:59:00.004Z</published><updated>2009-03-03T02:07:32.867Z</updated><title type='text'>Uma necessidade minha</title><content type='html'>Eu agora estou a morrer e não será errado supor que a conversa que tivemos criou as condições necessárias para isso. Falámos durante muito tempo de coisas como suicídio e eutanásia e quando terminámos eu resolvi pôr-me a caminho. Foi como quando o assunto é cemitérios e alguns sentem uma vontade enorme de se ir passear entre os túmulos. Até podíamos ter feito apostas, ao jeito tradicional, ele certamente teria gostado, mas eu tinha outras ideias e é justo ilibá-lo delas. No início do meu percurso passámos de facto por lá, por S. Matias, e ele derrubou com pontapés os copinhos de cera vermelha sobre as campas. Também desenhou umas suásticas no granito dos mausoléus e não me apetece parar aqui para mencionar a origem do carvão que usou. Eu fiquei cá fora a olhar a lua meio cheia e depois mijámos lado a lado nas portas da capela mortuária, um edifício horrendo onde as pessoas se comprazem a despedir-se dos mortos. Em seguida olhámo-nos nos olhos e saímos dali como se não fosse preciso revelar mais nada. Mas era. Ele ia para casa preparar a ressaca e eu ia fazer o que tinha de fazer, sem que ele o soubesse.&lt;br /&gt;As coisas por vezes são muito simples de perceber, mas não parecem. Eu não tinha bebido mais do que ele, não é isso. Nem menos, também não é isso. Na nossa conversa pusemos o dedo na ferida e a minha ferida é imensa. Morrer, tínhamos decidido, não é simplesmente uma consequência de estar vivo. Não é uma determinação de Deus, ou uma implicação da Natureza. Morrer é uma necessidade nossa. As coisas são todas um bocado aborrecidas e perseguem-nos, disse ele, e um dia precisamos de nos livrar delas. Não são só os tetraplégicos ou os que sofrem de doenças degenerativas e merdas dessas que merecem o direito de morrer a seu bel-prazer, disse, e eu não achei a expressão de mau gosto. Nós, os saudáveis, continuou, também devíamos ter uma palavra a dizer sobre o assunto. Se eu amanhã decidir morrer, disse ele em tom grandiloquente e com um toque de presunção, o mundo não fica melhor, mas eu fico. É aliás por isso que o suicídio é condenado, e aqui concordámos, as pessoas têm inveja dos que se vão. Havia sarcasmo nas palavras ditas, claro que havia, mas também uma verdade pouco usada, que ele vincou depois de desistir do copo e assestar os beiços na garrafa para fazer face à urgência: a puta da vida ou é chata ou é um problema. Acabar com ela é o supremo acto de inteligência. E após isto brindámos a vários suicidas famosos e, porque tínhamos lido um artigo no jornal, à reputada Clínica Dignitas, que considerámos a obra maior do povo helvético.&lt;br /&gt;Não vou dizer que teria dispensado em quaisquer circunstâncias os cuidados de profissionais. Se tivesse oportunidade de escolher, a eutanásia seria a minha prioridade, e nem preciso de me explicar mais do que isto. Mas, lamentavelmente para mim, o suicídio era o máximo a que podia aspirar. Dispunha de liberdade de movimentos e de locomoção, não pendia sobre mim nenhum diagnóstico fatal. Pese a ter decidido que no que tocava a viver já tinha o suficiente, nada me habilitava aos privilégios da morte assistida. De resto, a Pátria não estava para mesuras dessas, a receita admitida não mudara muito em décadas de evolução e estava apenas reservada aos capazes: havia a caçadeira, a farmácia, a corda, uns penhascos e, fruto da engenharia, um ou outro viaduto. Escolhi um destes. Na verdade, o único que existe no nosso distrito.&lt;br /&gt;Não era o primeiro a ter tal ideia e até admito que o exemplo dos pioneiros foi determinante. Menos de um ano depois de a obra ter sido inaugurada, após um período inicial em que se imaginava que de uma tal construção apenas podiam vir coisas boas para a comunidade, os cidadãos começaram a lançar-se lá de cima com uma regularidade impressionante. Dir-se-ia que, de súbito, estava encontrada uma nova medicina para a depressão. Não um tratamento, evidentemente, mas algo que punha uma pedra sobre o assunto. Uma pedra tumular. Era um voo e peras, aquele que esperava os candidatos, mais de noventa metros do tabuleiro até ao leito rochoso do rio lá em baixo ou até aos lameiros nas margens. Depois do salto inaugural, que não falhou o alvo, o distrito, uma parte dele, pelo menos, teve um suspiro de alívio. Se as coisas corressem mal, havia agora uma solução, e ela precisava apenas de um pouco de gasolina para ser posta em prática, a suficiente para levar um carro até lá cima.&lt;br /&gt;A topografia da região é ingrata. O distrito é plano, uma depressão chata (lá está) entre duas sucessões de colinas que não apresentam escarpas de jeito. Antigamente, um tipo que se quisesse lançar das alturas mais depressa rebolava pelas encostas ou tombava de socalco em socalco do que servia de prova viva a uma qualquer experiência sobre a gravidade. Os suicidas da terra podiam, é claro, encher um pouco mais o depósito do automóvel e ir fazer o serviço em províncias vizinhas, mas suponho que todos gostam de morrer na sua terra. O viaduto veio resolver uma série de dificuldades, e a de circulação não foi a mais importante.&lt;br /&gt;Quando a primeira notícia surgiu no jornal vinha envolvida numa pergunta retórica: como tinha sido aquilo possível, que desespero poderia levar alguém a parar o carro numa estrada, subir ao parapeito e lançar-se de uma altura medonha. Pela minha parte, limitei-me a invejar o indivíduo. Ele não só encontrara uma solução para os seus problemas como tivera a coragem suficiente para a pôr em prática. E, de caminho, mostrara um espírito precursor, o que ia dar uma fantástica ajuda a quem tivesse de lhe escrever o epitáfio.&lt;br /&gt;Para ir um pouco mais atrás, ao princípio das coisas, devo dizer que a minha mulher não era muito mais aborrecida do que a maior parte delas. Tinha até os seus momentos, mas nada que entusiasmasse muito ninguém, nem sequer a mim. Pelo meu lado, também não reivindicava dotes ou privilégios. Era como numa anedota: duas nulidades encontram-se no meio da rua e o que mais podem fazer se não declararem amor à primeira vista, casarem e procriarem? Só que não procriámos. Fizemos tudo direitinho até ao momento de procriar. E aí falhámos. Não houve um lampejo de razão, não desceu sobre nós uma língua de fogo ou o que quer que aconteça de místico em alturas destas. Simplesmente passámos ao lado. Passámos ao lado sempre que havia o risco de nos perpetuarmos numa terceira pessoa. Não era bom senso, era falta de motivação, não estar a ver que interesse poderia suscitar o produto da nossa união. Pensando bem, talvez fosse instintivo, intuitivo, uma destas coisas que nos protegem de embaraços e chatices. Mas não quero ser juiz em causa própria, muito menos agora que o fim chega — nada seria mais decepcionante do que não ter um Juízo Final por estar já tudo dito, e, sacrilégio, ter sido eu a dizer tudo.&lt;br /&gt;Não era um acordo, cada um fazia-o por si. Quero dizer, odiávamo-nos e infligia-mos sofrimento um ao outro, porque achávamos, cada um pelo seu lado, que era a coisa certa de se fazer. Mas não combinávamos nada. Ela enlouquecia-me e eu enlouquecia-a, era esta a ordem das coisas, encarávamos a tradição com uma certa solenidade, a solenidade do dever.&lt;br /&gt;E um dia ela resolveu aprender a tocar piano. Creio que foi a maneira que encontrou de dizer que podia passar bem sem mim, que havia um mundo de actividades em que se podia meter para simplesmente dedicar o dia a ignorar-me. É evidente que a obsessão por me ignorar apenas exacerbava o papel central que eu desempenhava na vida dela. Mas esta contradição assentava-lhe bem e até senti um pouco de carinho quando o descobri. Se ela afinasse e tivesse uma noção mínima do tempo, do ritmo, se dominasse a ideia de compasso, se pelo menos tivesse aprendido uma das melodias juvenis e bucólicas que pousava em cima do piano e a tocasse de forma a esquecer-me deveras enquanto durava a música, julgo que me teria apaixonado verdadeiramente por ela.&lt;br /&gt;Mas os seus dedos limitavam-se a martelar as teclas, sem sentido, ou com muito pouco dele, e havia alguma coerência neste desconcerto. Não estávamos feitos para nos amarmos, mas era um luxo julgar que nos podíamos ignorar. Ela tinha que me infernizar a vida e dominava a técnica com mestria.&lt;br /&gt;Num primeiro momento, um tipo pensa em eliminar aquilo que o aflige. Confesso sem problemas que os meus pensamentos mais antigos eram sobre o homicídio. Antecipava o gostinho, o cheiro a sangue, os ossos esmagados. Começava o dia esperançado que, pela noite, estaria transformado num verdugo. Li sobre o assunto, vi filmes. Mas não o fiz. Poupei-a. Era demasiada eloquência para um assunto menor.&lt;br /&gt;Em vez disso, arranjei um hobby que mostrava de igual modo que eu tinha uma obsessão por ela. Uma obsessão pela maior inutilidade da minha vida. Procurei amantes que me fizessem chegar tarde e perfumado a casa, com baton na camisa. Agradava-me deitar-me ao lado dela de madrugada e sentir-lhe a raiva a palpitar debaixo da pele, enquanto ela fingia dormir profunda e descansadamente, indiferente, depois de ter rejeitado a ideia absurda de partir a louça toda na minha cabeça. Punha-me a olhá-la e não nego um certo embevecimento, estava de certa maneira orgulhoso do que tínhamos conseguido. O divórcio deixava-a de fora da equação e nenhum de nós queria isso.&lt;br /&gt;Estou para aqui a falar e até parece que ela é a razão. Não existe uma razão e não existir uma razão é o que isto tem de poético. Morrer é uma necessidade minha, só isso. Ela podia ter dito, como disse, um dia deixo-te, e continuar a arrastar por ali os chinelos manchados de gordura que isso não me faria levantar do sofá. Por outro lado, não haveria nada que ela pudesse fazer que me demovesse de ter subido até cá cima. É o que tem de chato a vida. Não interessa se depositamos grandes esperanças ou esperanças nenhumas naquilo com que passamos o tempo.&lt;br /&gt;A imagem dela velha e gorda e ainda mais estúpida, como vai ficar não tarda nada, não torna a coisa mais urgente. Eu podia perfeitamente caminhar para lá e para cá no parapeito com esse pensamento na cabeça que, como um funâmbulo, não ia sentir sequer desequilíbrio ou vertigem. Das reflexões e das memórias não vem nenhum vento inoportuno, nenhum impulso que me faça ponderar se aceito o empurrão ou se me agarro a um poste, por espírito contraditório.&lt;br /&gt;Mas não vou desdramatizar esta hora. Quando me estatelar lá em baixo vai-me doer de certeza (eu disse que preferia a eutanásia, a morte doce). Bem posso abrir os braços e tentar orientar o voo, embelezá-lo, que o resultado é o mesmo. Desta altura, até podia cair na água, que o impacto continuaria a ser brutal. Tenho é esperança que tudo seja muito rápido. Imediato, de preferência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-2966006624152538029?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2966006624152538029'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2966006624152538029'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/03/uma-necessidade-minha.html' title='Uma necessidade minha'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-467134858225728163</id><published>2009-03-01T23:59:00.001Z</published><updated>2009-03-03T02:05:38.253Z</updated><title type='text'>[Determinação]</title><content type='html'>Não será particularmente intenso o zelo burocrático desta repartição, mas ainda assim estipula-se uma periodicidade semanal, com maior ou menor pontualidade, para a adição de fichas ao Arquivo. Amanhã acrescentar-se-á a ficha n.º2.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-467134858225728163?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/467134858225728163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/467134858225728163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/03/determinacao.html' title='[Determinação]'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-2317525922457601297</id><published>2009-02-23T23:23:00.005Z</published><updated>2009-03-03T02:05:50.331Z</updated><title type='text'>[Um arquivo de contos]</title><content type='html'>Este blogue é uma panaceia e uma profilaxia. Uma panaceia para a frustração de escrever para a gaveta e uma profilaxia contra a soberba de uma edição de autor. Logo, não é algo que se distinga assim tanto da referida gaveta — ou de um caixote do lixo.&lt;br /&gt;Não é, por pouco, um arquivo morto, mas assume tudo o que pode haver de esclarecedor e fúnebre em tal designação — o artifício literário do título não pretende contrariar o carácter ancestral desta sorte de arquivos.&lt;br /&gt;O “s” lá em cima transforma um nome num gesto para tornar o cabeçalho mais descritivo (narrativo) do que designativo. Porque as fichas que entram naquelas gavetas tratam de personagens que têm em comum uma certa maneira de estarem mortas ou de a isso serem candidatas. Mortas para a vida ou para a sociedade, para a sanidade, para a consciência, para os afectos. Mortas, enfim.&lt;br /&gt;Há também uma transparência intrínseca no título, já que este blogue não dialoga, de moto próprio, com a actualidade ou com a realidade. Pelo menos não mais do que aquilo que a ficção (boa ou má) faz. É de contos que aqui se trata, de arquivar contos à medida que eles forem sendo escritos e considerados terminados. Mortos.&lt;br /&gt;O primeiro está &lt;a href="http://arquivomortos.blogspot.com/2009/01/fim-da-linhagem.html"&gt;aqui &lt;/a&gt;em baixo. R.I.P.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-2317525922457601297?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2317525922457601297'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/2317525922457601297'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/02/um-arquivo-de-contos_23.html' title='[Um arquivo de contos]'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1092340203894576516.post-4321240708161846967</id><published>2009-02-23T23:12:00.000Z</published><updated>2009-02-23T23:27:13.569Z</updated><title type='text'>Fim da linhagem</title><content type='html'>Ele punha-se a dizer que não havia nada mais lindo do que um cão e esperava que eu me enternecesse como ele se enternecia. Já sabes que eu não suporto animais, dizia-lhe, não lhes quero mal, mas não os suporto. Ele ignorava os meus argumentos e continuava a olhar para onde quer que lhe apetecesse olhar, compondo o seu ar de miúdo sabidolas e independente. Tenho uma solução para ti, respondia, como se eu fosse um problema a precisar de uma solução. Depois, ia-se a ver, e, ainda que ele não pensasse assim, a solução não era para mim mas para o meu problema, porque pesando bem as coisas eu não era um problema, eu tinha um problema. Pomos-lhe uma caixa em cima com um buraco para ele espreitar e já não podes dizer que é um bicho, insistia, passas a ter uma encomenda como mascote. E ria-se. Lá em baixo na rua deslizava uma caixa de papelão levada pelo vento e era aquilo o que lhe dava matéria para discursar. A noite marcava o início do Inverno; o frio, a chuva e o vento tinham finalmente unido esforços para fazer descer a estação à nossa latitude, depois de um Outono seco e com temperaturas altas. A ideia vinha de um filme, ele não tinha imaginação para coisas destas, mas a mim ocorria-me o mesmo ao espreitar o alcatrão molhado, onde a embalagem de um aparelho de televisão fazia o percurso aleatório das últimas folhas das tílias, como se andasse por ali, debaixo da caixa, o agorafóbico cão de &lt;em&gt;The Price of Milk&lt;/em&gt;. Eu estava disposta a manter-me ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe eu, no filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo, via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido em farpas, ainda que ele se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isto era evidente, mas a mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas. Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha. Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância. A doença não era para ele um mal que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nosso que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da fé e a determinação de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me deixasse tratar da &lt;em&gt;minha&lt;/em&gt; vida na &lt;em&gt;minha&lt;/em&gt; casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto, que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes, vai-te foder, vai-te foder. Talvez eu devesse estar agradecida por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar, lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à auto-comiseração e quando o fazemos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto, vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase tanto quanto o odiava. Sempre que entro aqui, dizia ele, abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte, recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar. Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou não teve autorização do pai para mexer em nada, redecorar o que quer que fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução, a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu apartamento lhe podia lembrar o património familiar, era apenas eu que me parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós, os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança, em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda, retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes que quiseres, com a condição que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava. Não estranhei quando uma noite me pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo não fora uma necessidade de última hora derivada de uma avaria no carro, era uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia tinha sido emitido o relatório clínico e ele tinha-o lido, mas na sua mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim, mas eu não estava disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se propunha. Não seria eu que abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo estivesse convencida como ele de que se eu velasse à cabeceira da cama, em nome de todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo lograria conceber naquela noite. Havia ainda, talvez, outras razões para aquele seu desejo, mas eu preferi ficar a ver o dia aparecer na janela e não pensar no assunto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1092340203894576516-4321240708161846967?l=arquivomortos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4321240708161846967'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1092340203894576516/posts/default/4321240708161846967'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arquivomortos.blogspot.com/2009/01/fim-da-linhagem.html' title='Fim da linhagem'/><author><name>Rui Ângelo Araújo</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
