Terça-feira, 24 de Agosto de 2010

Alterações climatéricas (18)

Velas benzidas

Era agradável estar a ler ao jantar quando a luz falhava. Reuníamo-nos doze numa mesa que mal dava para seis, mas eu de algum modo conseguia espaço para pousar o livro ao lado do prato. Não sermos obrigados a utilizar os dois talheres ajudava.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes da luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.

Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

Alterações climatéricas (17)

Fazer horas


Nove horas, e eu não me estava a sentir nada bem. O Inverno tinha terminado e agora entrava aquela parte do ano em que de boa vontade me entregaria a um processo criogénico que me mantivesse afastado do mundo até ao Outono. Mas, infelizmente, métodos de conservação a frio que se aplicassem a humanos (vivos) eram ainda pura invenção de filmes, tanto quanto eu sabia.
Acontece que aquela noite estava a ser particularmente cálida (o aquecimento global, esse, já tinha sido inventado e vigorava). Nos meses anteriores descuidara-me com o ginásio mas, em compensação, dedicara atenção ininterrupta à comida, pelo que tecnicamente me enquadrava na classe dos gordos sebosos, aquela espécie de pessoas que aparentemente se desfaz em água quando os termómetros sobem, mas que na verdade sai intacta das saunas.
A maior parte das vezes, nas ocasiões em que por certa razão me faltava a coragem de ir para casa, enfiava-me em restaurantes ou cinemas climatizados. Em alternativa dava voltas no carro — com o ar condicionado ligado. Se fosse tarde, ia até a um bar ou a um cabaret com ambiente controlado. Por ambiente aqui refiro-me ainda à temperatura, não me interessava quem estava ou deixava de estar.
Mas eram nove horas e não havia nada perto, nada que eu conhecesse ou em cuja vitrina se lessem as palavras-chave: ar condicionado. Talvez eu pareça um bocadinho obcecado por estas duas palavras, um tarado do controle climatérico, mas se estivessem na minha pele, ou antes, sob a espessa camada adiposa que me reveste e causa inveja às focas, perceber-me-iam.
Encontrava-me à beira do desespero, caso contrário jamais teriam entrado num lugar daqueles: um edifício de arquitectura fascista com um átrio demasiado iluminado e não suficientemente fresco. Tentei sossegar-me observando os cartazes, como se me interessasse saber o que prometia o fim de temporada. Mas o suor continuava a escorrer e confesso que ali me senti um tudo-nada menos à-vontade para suar.
Às nove e cinco as portas do auditório abriram-se, exibindo uma penumbra auspiciosa. Foi como se alguém me empurrasse: num ápice tinha comprado o meu bilhete e localizado o lugar correspondente, adiantando-me à simpatia do assistente de sala. Deixei-me cair aliviado no assento H11.
Durante um bom pedaço fui o único ali dentro. Estavam uns agradáveis vinte graus e a música ambiente não era pretensiosa. Pude finalmente respirar. Do átrio vinha o distante arengar de uma pequena multidão de connesseurs. Ainda demorariam alguns minutos a invadir o espaço onde eu me encontrava. Que, em todo o rigor, era mais deles do que meu.
Já não precisava de abanar o programa à frente da cara — achava-me menos febril e começava a relaxar —, pelo que me permiti passar os olhos pelas páginas. Não ignorava que ia subir qualquer coisa ao palco (afinal, estava num teatro) e pensei que me poderia distrair antecipando o que ia ser representado.
Apostava numa comédia, uma daquelas que apesar de tudo deixam os espectadores em paz na sua cadeira (se é que havia espectáculos desse género). Seria simpático que o destino, por uma vez, me concedesse dois desejos na mesma noite: ar fresco e descontracção.
Sem surpresas, descobri nas primeiras linhas (no próprio título: “Nada além do silêncio”) que estava a pedir demais. Não era uma comédia o que ia ali acontecer, mas uma peça que convidava o espectador à mudez total, exigia concentração absoluta.
Estava disposto a tentar. Não porque me tivesse despertado qualquer interesse o espectáculo, mas porque não tinha escolha. Tão cedo não poderia entrar em casa e lá fora estava demasiado quente para andar à procura de alternativas refrescantes.
Para meu espanto (e desconforto), a tribo ruidosa que preenchera o foyer viria a revelar-se afinal duma disciplina férrea no que tocava a obedecer ao guião e manter-se silenciosa. Descobri, por isso, nos minutos seguintes, que o meu corpo tinha uma incrível capacidade de produzir barulhos. Desde os tempos em que na adolescência me forçavam a assistir à missa que não dedicara tal atenção às entranhas.
Não era a cadeira a ranger de cada vez que me mexia, nem o roçagar das roupas enquanto cruzava e descruzava as pernas, cruzava e descruzava os braços, ajeitava o traseiro na cadeira. Era o corpo em si mesmo, as articulações, o estômago, os pulmões, o pâncreas, os intestinos. No caso deste último órgão importa esclarecer que não me refiro às suas manifestações mais embaraçosas, embora me tivesse dado conta da pior maneira como o silêncio dos outros pode ser estimulante neste domínio.
O próprio coração se tornava inconveniente, batendo como martelo em bigorna. Sentia alguma ansiedade, não escondo, agravada pelo desejo de não ser naquela sala um elemento destoante. Eu era, sobretudo naquela noite, um candidato privilegiado a síncopes, arritmias e outras maleitas do músculo cardíaco, mas jamais imaginei que uma coisa tão do nosso íntimo pudesse ressoar de tal forma e denunciar, como que ao telégrafo, a nossa miserável forma física. Se estivesse ali instalada uma daquelas máquinas dos cuidados intensivos, com o gráfico dos sinais vitais e o bip correspondente, ninguém ficaria mais informado da minha condição. Particularmente aqueles que, ao meu lado, de início confundiram o meu ritmo cardíaco com as pancadas de Molière.
Uma das coisas que a vida das grandes cidades tem de positivo é que, por exemplo, quase sempre nos podemos peidar sem escrúpulos. Há demasiado ruído a envolver as pessoas, demasiados candidatos a culpados. Também não é pelos odores que alguém se trai: o tempo que demora a identificar uma fonte específica no meio de tantas emanações permite que o indivíduo saia airosamente do local do impacto. E é assim com outros aspectos da fisiologia. A civilização é possível apenas nas cidades porque só elas providenciam a camuflagem e a diluição necessárias à nossa biologia animal.
Mas com o que ninguém conta (eu não contava) é com uma sala insonorizada, uma assistência silenciosa e os caminhos de fuga obstruídos. Ao fim de algum tempo a reflectir sobre estas coisas (ainda não me conseguira concentrar na peça), dei por mim a suar novamente, apesar do bom funcionamento do chiller da casa. Todo eu, mesmo no estádio mais apático da existência, era uma fonte de ruído com tendência para uma progressão aritmética dos decibéis. Ali, por Deus, dei-me conta que nunca sentira tanta necessidade de produzir colateralmente barulhos: era a garganta seca a precisar com urgência de ser aclarada, era um engarrafamento numa das dobras do intestino a pedir que se abrisse ao trânsito alguma via alternativa, eram as fossas nasais que pareciam acometidas de súbita alergia ao próprio oxigénio que respirava, o pâncreas a borbulhar, a bílis do fígado a ser expelida como spray das moscas ou cerveja de pressão, os pulmões a bufar como foles de forja, os sucos gástricos em ebulição… Toda a mecânica do meu corpo estava sob escuta de um gigantesco estetoscópio que pendia sobre mim e se ligava à aparelhagem sonora do auditório. Creio que não preciso de insistir que sentia um ligeiro mal-estar.
À minha direita na fila havia dez pessoas, à esquerda uma dúzia. Tinha-me sido perguntado se preferia «um lugar junto à coxia», mas, idiota, recusei, porque não me ocorreu logo o significado da palavra (se era tão mau como soava, eu queria ficar longe). «Não, pelo contrário», respondi à menina dos bilhetes, a pensar absurdamente em cocheira e lições de equitação, crinas entrançadas e entremeadas de bosta
Medi discretamente os dez espectadores da direita, tentando não parecer desesperado nem distraído da concentração que nos era pedida. Os primeiros cinco eram obstáculo que até eu podia vencer, com mais ou menos pedidos de perdão, mas a partir daí as coisas complicavam-se: um casal volumoso e um par de muletas encostadas ao assento da frente. Mesmo que tivesse tomado suficiente balanço, havia o risco de ficar entalado no H5 ou no H4. E, se acaso lograsse prosseguir, dificilmente teria os reflexos necessários para segurar as canadianas do H3 antes de caírem ao chão com estardalhaço.
Resolvi ficar. Talvez concentrando-me no palco conseguisse estabilizar os meus sinais vitais em valores suportáveis pelos restantes espectadores. Na verdade, ainda não houvera demonstrações de desagrado nem olhares piedosos. Ainda não atingira um estado lastimoso (embora me sentisse assim). O espectáculo começara há quinze minutos.
Distribuídos pela cena como num tabuleiro de xadrez, os actores pugnavam pela exacta imobilidade das peças de marfim ou madeira que evocavam. Distinguiam-se daquelas pelos movimentos dos queixos quando falavam, o que, em benefício da imitação, acontecia raramente. Olhá-los deu-me o sono.
De imediato outra campainha soou na minha cabeça: podia acontecer-me tudo menos adormecer. Não por mim, eu agradeceria um sono reparador, mas pelos circunstantes. Apesar de não estar a ter uma boa noite, ainda palpitava no meu peito um sentimento de solidariedade. Devia evitar a todo o custo ressonar.
As coisas tinham ficado mais graves. Precisava agora de me distrair do meu corpo e do palco. Mudar com frequência o peso de uma nádega para a outra não era suficiente. Tive saudades das salas de cinema multiplex, com as suas pipocas e coca-colas, concebidas para oferecer alternativas ao que se passava na tela e no nosso interior.
Levei a mão ao bolso para tirar o telemóvel e ver as horas. Ajudaria saber que caminhávamos a passos rápidos para a recta final do drama — tanto quanto seria fatal descobrir que o desenlace ainda tardaria. Com este receio, e lembrando-me a tempo da exuberante fonte de luz que era o ecrã do meu aparelho e do efeito que causaria naquela sala obscurecida, detive-me. Descobri, no entanto, com felicidade, que entre os objectos que guardava no bolso havia um caramelo. Era o meu deus ex-machina, a atenuante inesperada para o nervosismo.
Tirei-o com dois dedos, num momento em que começava a arfar, e preparei-me para o desembrulhar no colo. Era conhecedor dos perigos daquele acto, sabia que tinha de realizar a tarefa com a maior delicadeza se pretendia manter as atenções longe de mim. Pensei naquilo como uma terapia ocupacional, a receita antiga para espíritos inquietos. E se o meu espírito estava inquieto!
Contudo, mal toquei no papel, percebi que cometia um erro. Aquilo ia arrastar-se por tempos infindos. A paciência dos que me rodeavam e a minha seriam ofendidas. Não é possível desembrulhar um caramelo num teatro sem provocar um pequeno colapso nervoso numa plateia atenta. A forma rápida ainda é a melhor, mas indigna as pessoas em volta porque parece revelar um à-vontade desaforado e um total desprezo pela peça. Se escolhermos a maneira vagarosa, a do temor e do respeito, concedemos a todos uma tortura lenta, como se fervêssemos em lume brando uma vingança remota.
Infelizmente, estava incapaz de me deter. Depois de descolar a primeira ponta do papel, fazendo levantar as primeiras sobrancelhas e atraindo os primeiros olhares censórios, não haveria retorno. Devolver o caramelo ao bolso seria um gesto igualmente ruidoso, agravado psicologicamente pela inerente sensação de derrota. Mantê-lo nas mãos sem qualquer avanço era como uma condenação a morrer à sede dentro de um rio. Restava continuar.
O encenador não encomendara uma sonoplastia para a peça e incumbira os actores de sussurrarem as deixas. Talvez por isso, surpreendentemente, o meu caramelo de início não soou aos ouvidos dos restantes como um caramelo, mas como algo sobrenatural, um ruído do além que vinha dos calabouços do edifício e preenchia todos os interstícios da sala. Era como se criaturas moles e dengosas se arrastassem pelos soalhos a livrar-se de uma pele escamosa ressequida. Percebi em volta as expressões interrogativas, que se prolongaram por bastante tempo, e a certa altura eu próprio vivi o ruído como se ele não procedesse das minhas mãos, mas fosse parte integrante da (in)acção no palco.
Depois a fonte do ruído foi perfeitamente identificada e, quando o último milímetro quadrado de papel se descolou da massa castanha entretanto derretida, eu estava a segundos de ser linchado com a minha própria gravata por aquela gente sofisticada e cortês.
De qualquer modo, eram onze e meia. A esta hora o assassino da minha mulher teria de certeza acabado o serviço e eu poderia finalmente regressar a casa.


Ou:
De qualquer modo, eram onze e meia. A esta hora a minha sogra teria de certeza ido embora e eu poderia finalmente regressar a casa.

Ou:
De qualquer modo, eram onze e meia. A esta hora o amante da minha mulher teria de certeza ido embora e eu poderia finalmente regressar a casa.

Sexta-feira, 23 de Julho de 2010

Alterações climatéricas (16)

À espera do dealer

Ali estão eles, mais uma vez. Chegam numa pressa patética, como se fossem as pessoas mais ocupadas do mundo, e depois sentam-se nos bancos da rua, impacientes mas apáticos. De vez em quando, um deles levanta-se e sai novamente disparado, a oscilar muito os braços, como se se tivesse lembrado de uma coisa importantíssima que tivesse deixado por fazer. Mas regressa, e volta a imobilizar-se num dos bancos, ou numa esquina qualquer da rua.

Não olham para nada em particular. Estão apenas ali, à espera, com as suas carinhas grotescas, uma trupe de circo de horrores. Parecem predestinados para o vício. Há algo de feio neles que é anterior às porcarias que metem no organismo. Talvez a droga prefira gente assim.

Outros, certamente, ficam ainda mais desfigurados por andarem naquilo. Enruga-se-lhes a pele, ganham bexigas ou crostas, caem-lhes os dentes, tornam-se corcundas ou defeituosos dos membros. Uma espécie de leprosos, mas destes nem Cristo se apiedaria.

É a hora do almoço e ele está a observá-los da janela do primeiro andar. A rua é pedonal e tem umas arvorezinhas que dá gosto ver. Mas também atrai a escória da sociedade e não é fácil ignorar o que se passa lá em baixo. Como aquela prostituta velha, que atravessa por ali para chegar ao seu posto de ataque. E para regressar a casa. Ah, como ele gostaria de almoçar um dia desfrutando apenas dos jacarandás em flor.

O tempo ameaça trovoada (quase se sente a electricidade) e ele pergunta-se quais serão os requisitos para um dilúvio. Deus já lavou a terra uma vez à força de muito chover, porque não repetir o feito? Para o caso que o incomoda, não seria preciso um caudal bíblico — uma forte monção estaria bem. Chuva a cântaros em cima daquela gentalha durante uns dez minutos e a rua ficaria desimpedida o tempo suficiente para ele acabar de almoçar à janela sem ter de assistir às misérias do mundo.

Mas no fundo sabe que isso não acontecerá. Tem sido assim a semana inteira, a ameaça pendente, anunciada na televisão, mas nunca concretizada de um dilúvio purificador. Os drogados à espera do dealer, que mais tarde ou mais cedo aparece. A prostituta no seu vaivém. Ele esperançado num gesto divino. E a tarde entrando afinal solarenga, zombeteira. Dá vontade de praguejar.

Lá vem ela, a puta velha. E os anormais a olhar. Já não têm forças para uns piropos — o que seria o mínimo de esperar de gente da sua laia. A verdade é que também não têm dinheiro para a mulher (vai todo para o vício) — nem para aquele destroço têm dinheiro. E se tivessem faltar-lhes-ia o vigor, não seriam homens suficientes, com o organismo todo corroído e as partes mirradas.

Olá, agora vêm as adolescentes, as putinhas do bairro. Estas, meus amigos, não são para os vossos dentes, nem em sonhos. Tão puras que elas parecem, tão virginais. Bem, na verdade não parecem nada disso e no que a ele concerne deixava-as ir no dilúvio junto com os outros todos. O bairro inteiro está precisado de uma purga e ele não vê razão nenhuma para deixar estas meninas de fora. Talvez haja, pelo contrário, razões maiores para eliminar aquela fonte de pecado. Sim, se tiver de ser cem por cento honesto, aquele grupinho tem feito mais pela perdição da sua alma do que os junkies e as putas adultas todos juntos. Oh, Deus, como tem ele lutado por vencer a tentação. E como tem sido derrotado nessa luta.

(Ainda assim, agradece todos os dias fervorosamente estar livre do vício de outros, daqueles que não resistem aos rapazinhos.)

Resolve atacar a sobremesa antes que venha de novo o impulso onanista, que tanto o tem consumido física e espiritualmente. Enquanto come a tarte de morangos, segurando talheres em ambas as mãos para as ter ocupadas, reza, reza furiosamente. Quer invocar Deus, fazê-lo presente, mais presente do que o peões do Demo que desfilam debaixo da sua janela, mais presente do que o tem sentido nos últimos tempos, ou do que alguma vez o sentiu. Mastiga com voracidade e pronuncia as palavras sagradas de boca cheia, abana o torso para a frente e para trás como um judeu.

Talvez não lhe tenham ensinado as fórmulas correctas. Ainda ontem viu um filme que o surpreendeu ao mostrar-lhe um ritual muçulmano diferente, uma forma de rodopiar sobre si próprio até ao êxtase, como em certas danças tradicionais. Talvez a culpa não seja dele, mas dos rituais católicos, que carecem de misticismo e eficácia.

De qualquer modo, são horas de ir embora. O tempo para o almoço já passou e os deveres não podem ser adiados. Era bom que a chuva viesse de uma vez e lavasse a rua e com isso a sua alma. Mas tudo indica que não vai ser hoje, a meteorologia terá de engolir outro sapo, o quinto da semana. Prova de que também a ciência falha.

Deixa os pratos na mesa, vai à casa de banho, recolhe no escritório aquilo que precisa para as ocupações da tarde e desce as escadas. Quando abre a porta da rua, a chuva cai, quando já não a esperava, com intensidade tropical, e ele pragueja. Que raio de timing. Já não poderá desfrutar da debandada da escumalha.

Estica o pescoço para a rua para tentar ver as corridinhas irritadas da triste fauna do bairro, mas nenhum dos drogados se mexe. Estão firmes nos bancos, como se a hora de espera fosse para cumprir com a mesma apatia de sempre. A vontade dos céus é-lhes indiferente. O dealer há-de vir, parecem dizer os seus rostos dantescos, cabe-nos esperar com resignação, nem que chovam picaretas. Ele ia pensar numa analogia com algo que lhe era próximo, mas achou que chegava de perder tempo.

Merda, praguejou mais uma vez. Tinha o carro na outra ponta da rua e não havia nenhum guarda-chuva em casa. Ia ter de correr e suportar os olhares de escárnio. Aquela gente não arredava pé e ele não podia esperar que aliviasse, estava mesmo em cima da hora. Em vez de espectador, seria protagonista de uma corrida à chuva.

Cobriu-se com a estola, que tirou de entre os livros, e meteu-se à enxurrada, com os olhos fixos no chão. A batina arrastava um pouco, atrás, e estava a ficar ensopada. Ia ter de repreender a menina Gertrudes: fartara-se de dizer que gostava dos paramentos com a bainha curta.

Sexta-feira, 9 de Julho de 2010

Alterações climatéricas (15)

Sonhadores

Com a mudança de emprego (e de cidade) viu-se forçado a desbravar um novo território. Era isto o que as mudanças traziam: o medo perante o desconhecido e a excitação da descoberta.

A um quarteirão do escritório ficava o parque, para onde se entrava através de um pórtico que mais ou menos imitava o Arco do Triunfo de Paris. O parque tinha seiscentos metros de longitude e, em passo lento, demorava vinte minutos a percorrer. Descobriu que conseguia almoçar enquanto o atravessava para sul e que no caminho de regresso ganhava a companhia de muitos estudantes do liceu, que escolhiam aquele percurso para regressar a casa depois de uma manhã de aulas.

Ver os adolescentes tão alegres e enérgicos causava-lhe nostalgia. Bem, não exactamente nostalgia, já que ele nunca fora assim, nunca experimentara aquele género de jovialidade. Talvez por isso acabasse por se fixar mais nos estudantes solitários, aqueles que se mostravam imersos nos seus pensamentos. Ou aquelas.

Dispensava uma atenção particular às raparigas. Elas faziam-no sonhar. Lembrava-se dos tipos que frequentavam os bares e as discotecas, as praias, se dedicavam activamente a procurar as suas namoradas. Ele era diferente, tinha desistido. Não havia uma namorada para alguém como ele.

Era capaz de fantasiar uma relação feliz, isso ele era capaz. Escolhia uma menina, observava-a com discrição e imaginava formas de abordagem, as conversas que teriam, como se declararia o interesse mútuo em algo mais do que uma amizade.

Diferentes géneros de rapariga inspiravam-lhe diferentes histórias. Mastigava a sua sanduíche analisando vestuário, mochilas, comportamentos, expressões, olhares, os próprios traços dos rostos. Por vezes também lhes observava os corpos, os seios em formação ou já exuberantes, as ancas, mas achava que devia sentir repugnância em fazê-lo e procurava pensar noutras coisas.

Se tivesse sido diferente a sua história, ele teria dado um bom namorado, tinha a certeza disso. Conseguia ver-se a dedicar atenções, afectos, a oferecer mimos e presentes, a abdicar do seu próprio interesse e bem-estar em prol daquela que aceitasse ser sua, nem que fosse pelos quinze dias das relações adolescentes.

Estudava o parque imaginando os locais onde um namoro poderia ocorrer em plenitude, bancos de jardim, a margem do lago, mas sobretudo pequenos recantos protegidos dos olhares alheios. O parque era um bom território para um sonhador como ele.

Agora era talvez velho demais, mas nunca esperara qualquer tipo de correspondência por parte das raparigas. Habituara-se a ser ignorado ou desprezado — quando não gozado, se acontecia denunciar os seus pensamentos ou demorar-se a olhar mais do que devia.

Regressava ao escritório com o imaginário enriquecido. Tentava convencer-se A si próprio que absorver as figuras femininas, fazer delas personagens das suas fantasias, era suficiente, não tinha por que se sentir mal com a vida. E se em alguns dias (demasiados dias) apesar de tudo se sentia mal, gostaria de pensar que lhe bastava sair e cruzar-se com uma delas, insuflar as narinas com o seu perfume juvenil.

Mas não bastava.

*

Ela via-o no parque e interrogava-se. Não estava habituada a que os homens pudessem ser tão calmos, tão interessados na natureza, tão sonhadores. Descobriu-o numa tarde quando regressava das aulas e ele logo lhe despertou a atenção. Costumava ver por ali idosos a fazer a sua caminhada diária, a ler o jornal ou a conversar em grupos. Havia um senhor que escolhia um canto do parque para rezar, caminhando em círculos e abrindo os braços como um sacerdote. Outros apenas passeavam os cães. Mas alguém como ele, com um aspecto honesto e a atitude de quem gosta de encher os pulmões de ar puro e observar borboletas, era uma coisa diferente. Desde logo contrastava com os idiotas dos colegas dela, implicantes, possessos, assediadores, tarados em miniatura.

Ao fim de algum tempo deu-se conta que se tratava de uma pessoa com hábitos rigorosos: não falhava um dia e cumpria um horário, sempre sozinho. Era estimulante observar alguém assim, metido na sua própria vida, com interesses que não passavam pelo resto da sociedade, sociedade que ele olhava despercebidamente, com um distanciamento de deuses no Olimpo.

Talvez escolhesse a hora do almoço para uma terapia diária no parque, como aqueles que ao fim de semana faziam jogging ou yoga nos relvados. Uma terapia de descontaminação, de regresso ao eu essencial, ou algo do género. Fora do recinto, a cidade era opressiva, densa, movimentada, stressante. E era assim também lá em casa. Atravessar o parque era para ela mesma um dos melhores momentos do dia.

De início ele não a notou, e isso era bom, não queria se tida por indiscreta. Mas depois sentiu um desejo crescente de se aproximar dele, de o conhecer, de que ele a conhecesse. Tinha chegado a Primavera e agora ele sentava-se por vezes à beira do lago com um livro aberto ou a estudar os cisnes, e isso era mais do que ela podia suportar. Quem, nos dias de hoje, arranjava tempo para ler no parque? Que homem exibia assim abertamente interesses e sensibilidades que a maioria considerava femininos?

Tudo bem, havia o risco de ele ser gay, mas ela continuava interessada em conhecer um homem assim. Era uma novidade absoluta nas suas relações e criava-lhe enormes expectativas. Conseguia antecipar o tipo de conversas que poderiam manter, as confidências que lhe faria, a partilha de emoções e estados de espírito que seria possível estabelecerem.

Sonhou diversas noites com ele e começou a acordar de manhã com uma ponta de ansiedade, como se receasse não o encontrar à hora do almoço. Essa possibilidade fê-la apressar as coisas.

*

A chuva acabou por cair, tropical, e o agente viu-os levantarem-se juntos. Soube logo para onde ele a levava. Estudara o parque com atenção e conhecia o modus operandi do sujeito. A única coisa estranha era que desta vez a vítima parecia ir de livre vontade, excitadiça e sorridente. Abanou a cabeça, sonhador: só a ele é que não lhe apareciam adolescentes assim, solícitas, de infantis calções justos e t-shirt decotada. Imaginou por instantes o quadro se ele se atrasasse um bocadinho — as roupas rasgadas, o corpo nu —, mas logo de seguida censurou-se pelo voyeurismo. Abriu o guarda-chuva e contornou o lago, acariciando a arma de serviço no bolso do casaco. Desta vez chegaria a tempo.

Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

Alterações climatéricas (11)

Na trincheira

Era apenas um leve chapinhar, uns milímetros de água que cobriam como verniz a superfície de cimento dos passeios. Depois passaram para o caminho de terra batida e eram já dois centímetros e o pó uma camada fina de lama de cor clara. No início da mata, o chão macio de erva, às vezes musgo, tinha a consistência, o aspecto e o som de uma esponja e regressava à sua forma original depois de ter sido pisado. Ele via isso acontecer quando os pés dos que iam à sua frente se mudavam para a posição seguinte, e para a seguinte, e para a seguinte, na passada ligeira e disciplinada que lhes era imposta.

Seguiram durante três horas pelo interior da floresta, evitando os trilhos marcados, e a mesma sensação absurda de estarem na iminência de penetrar um pântano acompanhava-os nas encostas como nas planícies, os pés a afundarem-se sempre um pouco mais. Detiveram-se por fim numa clareira e houve um bombardeamento que lhes pôs os nervos à prova. De seguida vieram de algum lado rajadas de metralhadora e ordens gritadas e ele compreendeu que tinha duas opções: estender-se no chão e ficar relativamente seco mas à mercê do fogo inimigo ou saltar para a protecção de uma das crateras abertas pelas bombas e mergulhar em metro e meio de água.

Quase tudo aquilo era expectável, por mais assustador que fosse, mas ele concentrou-se nos aspectos ilógicos, tanto para vencer o medo como porque lhe causava de facto estranheza a abundância de água nesta época do ano, numa altura em que não chovia há semanas. Estavam numa colina mas o piso ali parecia o de uma várzea que o rio tivesse inundado no dia anterior. Ficar colado ao chão, na verdade, não trazia especial benefício. O húmus estava tão saturado de água que pouco valia o risco da exposição à metralha. Desta vez havia toda a vantagem em cumprir os regulamentos e as indicações dos treinos.

Ainda assim, sentiu relutância em enfiar-se na água. Morria de medo do fogo inimigo, mas a ideia de passar as próximas horas com água pelo peito também lhe era adversa. Tinha sido informado pelos mais velhos: era esta a merda que a guerra tinha, nenhuma opção era uma boa opção.

E o que dizer de uma guerra em tempo de drásticas mudanças no clima? Para ele não havia dúvidas que as emissões dos tanques e dos aviões aceleravam ainda mais o degelo dos glaciares. As consequências eram aliás evidentes: donde poderia vir aquela água toda se não do topo das montanhas ali ao lado?

Ao fim de vinte minutos, a barragem de metralhadora intensificou-se e à sua volta houve gente a morrer e gente a gritar. As coisas ficaram mesmo assustadoras, ele estava a instantes de mijar nas calças. Se quisesse sobreviver tinha de arriscar a ficar de molho.

Rastejou desajeitadamente para a cratera mais próxima, tremendo por todos os lados, e, com um impulso, entrou de cabeça, como fazia antigamente na piscina, imitando os crocodilos.

Engraçado como mesmo numa situação destas lhe ocorriam pensamentos do género, memórias de outros tempos mais felizes. Estava provavelmente a minutos de ficar com as tripas à mostra (ou os miolos, a cabeça era agora o mais exposto) mas conseguia pensar em temas diferentes, como por exemplo a Daniela.

A Daniela. Que tema aquele. Dava-lhe que pensar para um ano inteiro. Não gostaria que ela o visse tremer como ele agora tremia, mas se morresse como ele tinha a certeza que ia morrer não se importava que a informassem que na confusão do seu cadáver estraçalhado fora possível encontrar alguns dedos segurando firmemente a foto que ela um dia lhe dera.

Disto não tinha a certeza, talvez ela não lhe tivesse dado a foto. Sim, apenas concordara que ele a imprimisse do facebook. Ou nem isso. Mas que importava? Daniela iria ficar de certeza comovida. Não ficavam todas?

Agora que o pensava, fora uma felicidade ter-lhe ocorrido tirar a foto do bolso do uniforme mesmo antes de mergulhar na cratera. Exigira-lhe um golpe de rins admirável manter o pedaço de papel de fora da água, mas tinha pelo menos esse consolo. Enquanto as posições da sua companhia eram ferozmente atacadas, ele podia confortar-se com a imagem de Daniela.

Amava-a, não tinha dúvidas, mas também sentia um tesão grande por ela. Mesmo ali, enregelado e na iminência de ser trespassado pelas rajadas do inimigo, era capaz de ver o lado sexual da relação. Percorreu com os olhos cada centímetro da imagem, sobretudo as calças de ganga justas às pernas (Daniela estava sentada de lado naquela foto, como numa toalha de piquenique, exibindo todas as belas curvas desde a ilharga até aos tornozelos).

Perguntou-se se os veteranos nas trincheiras tinham passado por isto. O matraquear das armas, os gritos dos companheiros atingidos, a presença opressora da água, que ameaçava penetrá-los até aos ossos, e no entanto uma necessidade intensa e inadiável de se masturbarem. Procurou com urgência a carcela e logo sentiu um profundo alívio, mesmo antes de fazer fosse o que fosse.

Acordou naquele momento com a cama molhada e assustado: uma de duas coisas tinha acontecido e, aos catorze anos, ele só esperava que fosse a segunda.

Domingo, 2 de Maio de 2010

Just listen



Just take another drink and talk...

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Segunda-feira, 26 de Abril de 2010

Alterações climatéricas (9)

Piedade

Estar naquela casa com ela era um desejo tornado realidade. Ela tinha-o conduzido pela mão, ajudando-o a evitar todos os obstáculos na rua, obstáculos que ele conhecia bem até à entrada do prédio. Mas não lhe diria nada sobre isso, não desperdiçaria a ocasião e o privilégio. Depois, lá dentro, era um mundo desconhecido com que ele tinha sonhado inúmeras vezes mas de que não sabia nada. Imaginava um átrio com o chão a cheirar a detergente, caixas de correio atafulhadas de publicidade e as escadas com corrimão de mármore, suave e frio, como costumavam ter aqueles edifícios antigos. Ali, ela foi ainda mais prestável, pegando-lhe no cotovelo e informando-o da cadência dos degraus e dos patamares, das voltas que a escada dava antes de terminar no terceiro piso, onde habitava.

Descobriu logo que a desculpa era o nevoeiro que se abatera sobre a cidade. Ele, ao contrário das outras pessoas, não soube de imediato que as ruas tinham sido imersas numa nuvem branca (ou cinzenta, conforme as opiniões), mas divertiu-se de cada vez que vendeu um jornal e ouviu dizer que não se via um palmo à frente do nariz. As pessoas diziam-no para si próprias, mas também para encontrar nos que as rodeavam cumplicidade perante aquela inquietante neblina.

Mas era uma desculpa bastante ingénua, a dela, convidá-lo para casa com o argumento de que as ruas estavam perigosas. Como se não se ver um palmo à frente do nariz fosse um problema para ele, habituado há vinte anos a não ver sequer o próprio nariz. No instante do convite, quase se desiludiu, censurando-se simultaneamente pelo seu espírito antiquado. Concebia as coisas de forma diferente, ele a convidá-la para sua casa e ela, tímida como era, a hesitar, a balbuciar, talvez torcendo as mãos no regaço (imaginava ele, sabendo que isso nunca poderia testemunhar), e por fim a aceitar, com um rubor nas faces (outra coisa que não poderia ver).

De todos os clientes do quiosque, que se habituara a reconhecer por particularidades como o odor corporal ou o som dos passos, era ela a mais assídua e pontual, e era ela também quem cedo tinha conquistado a sua afeição. De início apenas porque era simpática e, quando à-vontade, espirituosa, demorando-se na conversa com ele; depois porque lhe pareceu o tipo de mulher capaz de amar para lá do aspecto, para lá das imperfeições.

Nos dias úteis, passava de manhã, a caminho do trabalho, para comprar o jornal do dia. Ao sábado à tarde vinha por vezes sentar-se com ele no banco do jardim ao lado do quiosque. Falava do tempo, das intrigas da TV, de política, de memórias. Num momento ou dois ela desabafou sobre desgostos amorosos e ele calou-se, fingindo saber ouvir.

Já tinha estado apaixonado, antes de deixar de poder ver o rosto das raparigas. Mas na altura tinha doze anos e uma vida normal, não poderia resultar nenhum dano daquilo. Nas duas décadas seguintes, forçou-se a ignorar a feminilidade de médicas e enfermeiras, de professoras e assistentes sociais, de colegas de infortúnio e de clientes frequentes, e até da gentil filha da dona da residencial.

E então veio aquela tarde, o nevoeiro, e as ruas foram-se esvaziando. Vários dos jornais que costumava vender ao final do dia não saíram do quiosque. A rádio, com o histerismo que nos últimos tempos parecia contaminar tudo e todos, espalhou avisos e receios. A rapariga, pensou ele, encontrou na situação ligeiramente extraordinária que era aquela a sua oportunidade.

Ele estava ali parado do lado de fora do quiosque, um pouco estupefacto com o silêncio em que a cidade parecia mergulhada. Abriu a tampa do relógio e palpou os ponteiros, sorrindo: não tardaria a ouvir-lhe os passos no regresso a casa, mais distintamente do que nunca. Mas ela veio até ele de rompante, pelo outro lado, perguntando-lhe em catadupa com uma ligeira reprovação na voz:

— O que faz aqui? Não sabe que hoje não se pode ficar na rua? Não ouve as notícias? Tem de fechar já o quiosque, não temos muito tempo. O melhor é vir para minha casa, não é longe.

Ah, quão convincente ela parecia naquela sua desculpazinha marota, que talvez tivesse estudado no metro. Sim, ele sabia que não era longe. Sabia, aliás, que eram trezentos passos, mais coisa menos coisa. Trezentos e dezassete, para ser rigoroso.

Enquanto caminhavam juntos e ele fingia desconhecer o percurso até casa dela, embatendo propositadamente aqui e ali no mobiliário urbano para a fazer sentir-se imprescindível, regozijou com a sua sorte. Era uma coincidência agradável ter-lhe dado a entender de manhã o seu afecto e depois ter-se instalado aquele nevoeiro que, como a meia-luz num jantar, favorecia certos impulsos.

Poucas mulheres, mesmo as apaixonadas, eram capazes de evitar a piedade. Ela parecia tentá-lo, mostrando-se inclemente.

— É mesmo típico da sua parte, fazer exactamente o contrário do que deveria. O que esperava? Ser poupado por ser cego? Desobedecer assim ao recolher obrigatório…

— Talvez tomasse um chá — disse ele, não tendo a certeza se isso lhe tinha sido oferecido.

— Claro, que mau jeito o meu — disse ela. — Mas posso servir-lhe outra coisa, se preferir.

Sim, e ele podia começar agora a escrever poesia.

— Não, obrigado. É muito amável da sua parte, mas o chá seria perfeito.

— Ainda não se vê nada — disse ela espreitando pela janela a caminho da cozinha.

— Pois, o nevoeiro… — disse ele.

Ela era adorável e ele sentia-se levitar. Qual seria o próximo passo? Sentar-se-ia ao seu lado, pedindo-lhe para avaliar os biscoitos que ela mesmo fizera e lhe servia com o chá? Pegar-lhe-ia discretamente na mão perguntando qualquer coisa sobre o Braille e o grau de sensibilidade nos dedos que era exigido aos leitores daquela escrita? Ou, agora que tivera a afoiteza de o atrair aos seus domínios, ela podia finalmente revelar não só que lhe correspondia no afecto como também que era uma mulher luxuriosa sob aquela boa reputação de rapariga de bairro?

— Talvez possamos ouvir rádio — disse ela pousando o tabuleiro. — Não é uma coisa que faça frequentemente, mas consigo bem passar um dia sem televisão.